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COMPORTAMENTO III
Momento intensifica conflitos

Seria ilusão pensar que existe separação sem dor e sofrimento ou mesmo que a situação pode ser resolvida facilmente, sem maiores conflitos. Entretanto, dizem os psicólogos, é possível contornar alguns problemas básicos se houver disposição e consciência principalmente por parte dos pais.

É natural, por exemplo, que ao final de um relacionamento os parceiros guardem ressentimentos um do outro, mas de forma alguma essas mágoas podem interferir na imagem que os filhos têm deles. Mães e pais que costumam envolver as crianças num jogo de afeto e poder, intencionalmente ou não estão transformando a vida delas num verdadeiro tormento.

"Sempre que há rivalidade, os filhos se sentem culpados e convocados a se aliar a um dos lados", avalia a psicanalista Valéria Aguiar, que costuma tratar desde crianças a adultos e também trabalha com terapia familiar. De acordo com ela, fica difícil para o filho escolher com qual dos dois passar as festas de final de ano, uma vez que para ele ambos são igualmente importantes e merecem o seu carinho.

A estudante Taís Renata Siqueira sentiu na pele, junto com os irmãos, o comportamento enciumado da mãe, quando o casamento acabou. "Como ela não queria que nós nos relacionássemos com a companheira do meu pai, não permitia que passássemos o Natal e o Ano Novo com ele", afirma, acrescentando que sempre sentia falta deste contato.

O clima tenso da separação pode render muita dor de cabeça aos filhos do casal. "Muita gente usa as festas para utilizar o poder que possui sobre o filho. Conheço um caso de um pai que precisava pedir, todos os anos, autorização ao juiz para poder ficar com o filho no final do ano. Se ele pedisse a companhia da criança no Natal, a mulher só a liberava no Ano Novo. Ele entrou no jogo e pedia muitas vezes ao juiz pelo Natal pensando justamente em ficar com a criança no Réveillon", conta o psicólogo Cláudio Duque.

Para evitar problemas futuros, construir uma sólida base de apoio afetivo aos filhos é imprescindível. O processo de adaptação pode ser lento, mas depende fundamentalmente de alguns acordos mínimos entre os pais e respeito às opções dos filhos. "São eles que devem escolher com quem ficar, sem disputas ou cobranças", ensina a psicóloga Edna Queiroz.

No caso das crianças menores, aconselha-se sempre deixar claro para elas seu referencial de filiação e de verdadeiro lar. "Assim, elas vão poder transitar livremente pela casa dos pais e companheiros, sem confundir as relações de parentesco. Se a criança estiver bem situada, não há problemas e ela pode até gostar de ir a duas festas diferentes e conseqüentemente também ganhar dois presentes", esclarece Valéria Aguiar.

Outro recurso de que os pais lançam mão é tentar compensar a ausência física, oferecendo aos filhos com presentes caros, fato que pode afetar negativamente as relações afetivas. "Esse tipo de comportamento pode tanto revelar uma insegurança temporária dos pais, traduzindo uma dificuldade momentânea em assumir seus papéis, quanto refletir uma relação em que o ter é mais importante que o ser. Os filhos podem ficar com um idéia de que o lado material é mais importante que o emotivo".

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Jornal do Commercio
Recife - 26.12.99
Domingo