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CURITIBA II
Onde ponto de ônibus é atração turística

O que faz com que a capital paranaense atraia a atenção tanto de fissurados em planejamento urbano como também do mais comum dos turistas? Não é preciso muito tempo para se descobrir qual é esse tempero próprio dos curitibanos que falta no tabuleiro de baianos, pernambucanos, cearenses ou cariocas. Entrar em contato com alguns dos ícones da cidade já dá uma idéia de por que a ONU a incluiu no rol das cidades com a melhor qualidade de vida do mundo.

A rotina banal, por exemplo, de pegar um ônibus é menos estressante aqui. Se ocorrer um dos raríssimos atrasos, você ficará esperando dentro de uma cabine que lembra cápsulas espaciais, livre do frio e da chuva. Só aqui, já dá para aprender uma lição de como transformar uma cidade em modelo de eficiência.

O que Curitiba vende como atração turística foi, na verdade, adotado como solução para um problema prático, e não só com o objetivo de fazer marketing. A capital paranaense é a maior em área do País, se forem levados em conta todos os municípios da região metropolitana. São 24 no total. O mais distante fica a 100 quilômetros. Daí a necessidade de um sistema de transporte mais elaborado que cubra o maior número possível de localidades.

É curioso como muitas das atrações turísticas de Curitiba nasceram como solução para problemas do dia-a-dia. Os diversos parques da cidade surgiram em torno dos lagos feitos para segurar a vazão dos rios e evitar as enchentes na cidade (ver matéria abaixo). Antigas pedreiras desativadas passaram a ser imponentes espaços de apresentações culturais. É o caso do Parque das Pedreiras, formado pela Ópera de Arame e do Espaço Cultural Paulo Leminski. A Ópera de Arame, toda em ferro tubular e revestida em em tela aramada, tem a estrutura igual à Ópera de Paris. Os shows no espaço cultural reúnem até 60 mil pessoas.

A Rua das Flores - um trecho da Rua 15 de Novembro e que os curitibanos, estranhamente, insistem em só chamar pelo nome oficial - é outro local onde se pode ver um exemplo pioneiro de planejamento urbano humanizado. A rua foi a primeira do País fechada ao tráfego de veículos, num final de semana de 1972. Com medo da reação dos comerciantes do local, a prefeitura agiu rápido e, do sábado para a segunda, transformou-a no primeiro calçadão do Brasil. Hoje, é a mais movimentada do centro comercial e, nem por isso, a mais conturbada. O local é um dos programas de happy hour preferidos dos curitibanos. Ali, eles ele ficam sentados num bar tomando chope e assistindo às peripécias dos `sombras'. Nos fins de semana, vira uma espécie de galeria de arte a céu aberto.

RANZINZAS - Mas seria mentira dizer que em Curitiba não se faz marketing político em cima das atrações turísticas. Pelo contrário. A Rua 24 Horas, onde as 34 lojas e bares ficam permanentemente abertos, são 120 metros de puro marketing. Os próprios moradores se sentem incomodados com a enxurrada de publicidade que se faz sobre suas ações. Sentem-se incomodados e reclamam. Os curitibanos têm fama de serem críticos. A vítima mais recente da língua ferina da população foi o prefeito Cassio Taniguchi, que investiu R$ 150 mil numa árvore de Natal gigante. Muitos moradores acharam que foi dinheiro demais.

Durante todo o mês de dezembro, o prefeito foi o nome mais (mal) falado na Boca Maldita - uma versão menos barulhenta da londrina Speaker Corner. O local nada mais é do que conjuntos de bancos de praças colocados um de frente para o outro, formando um quadrado, no final da Rua das Flores. Ali, tudo (tudo mesmo!) é debatido democraticamente. As discussões são dirigidas por uma espécie de confraria fundada há 42 anos e que conta até com estatuto. Detalhe: entre os mais de 1 mil sócios, nenhuma mulher.(S.R.L.)

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Jornal do Commercio
Recife - 30.12.99
Quinta-feira