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Lendas e fé atravessam os séculos

por DUDA GUENES
De Lisboa

Ninguém se perde nos caminhos de Santiago. Assim reza a lenda e nela acreditam e acreditaram os milhões de peregrinos que, ao longo dos séculos e vindos de todas as partes do mundo, palmilharam com concha, bordão, muita fé e muito sofrimento as tortuosas vias que ao longo da península ibérica os haviam de conduzir ao primeiro santuário do cristianismo: Compostela.

Campus apostoli, campus stellae, Compositum, Compostela. São várias as teorias da interpretação para o nome da cidade que hoje é conhecida pelo santo que a tornou famosa, Santiago, S. Tiago Maior, um dos doze apóstolos de Cristo, irmão de S. João Evangelista e filho de Zebedeu, patrão de um barco de pesca no lago de Tiberíades. Morreu martirizado às ordens de Herodes Agripa, em Jerusalém, não sem antes converter o seu algoz. Reza a tradição que S. Tiago orou antes de receber o golpe e que, após ser degolado, segurou nas mãos até à tarde do dia seguinte a própria cabeça, enquanto a sua morte era marcada por trovões, relâmpagos e cânticos de anjos.

Diz-se que o seu túmulo de pedra foi encontrado por volta do ano 813 num lugar da Galícia junto a Padrón, numa necrópole romana que por sua vez já tinha sido o lugar onde os celtas enterravam seus mortos. Era então bispo de Iria (diocese de Iria Flávia) Teodomiro e rei D. Afonso II, por cognome o Casto. A península estava desde há um século sob ocupação muçulmana e travavam-se as primeiras lutas da Reconquista. Resistia um pequenino reino, o das Astúrias. Foi assim que tudo começou.

Em virtude dessa conjunção de fatores, Tiago, primo de Jesus Cristo, foi transformado em cavaleiro de espada refulgente em punho, dizimando os mouros e assim sendo conhecido pelos séculos afora. Em sua homenagem foi erguida uma catedral e construída uma cidade cujo misticismo a consagrou como um local de peregrinos que rivalizou com Roma e Jerusalém. Com ela nasceu a Espanha e Portugal, se traçou a resistência ao islã e se refez a civilização ocidental.

RELATOS - As origens do cristianismo na Espanha romana não foram problema que preocupasse os antigos escritores eclesiásticos. Nem os historiadores da época romana, nem os da visigótica se referiram aos trabalhos de evangelização da península ou à organização das primeiras cristandades. Tal silêncio contrasta singularmente com a abundância de pormenores que, mais tarde, vieram a divulgar e reclamar de antigas tradições. Os que vieram depois não se atreveram a classificá-las de lendas e antes procuraram salvá-las por um tênue fio de verossimilhança, incriminando a inclemência dos tempos ou a incúria dos homens, que deixaram perder preciosos documentos que deviam ter existido. A lenda serviu de suporte à religião e, esta, à Reconquista.

O trabalho foi amplamente justificado. Afinal, pacientes investigadores das primeiras obras da Igreja garantem que S. Tiago nunca esteve na Espanha e que, dado como morto no ano 42, não poderia nunca ter-se deslocado fora da Palestina. Até ao século 7 não há em toda a literatura eclesiástica, quer do Ocidente quer do Oriente, a mínima alusão ao seu apostolado nesta terra. Nos Catálogos Apostólicos elaborados pela Igreja greco-bizantina entre os séculos 5 e 6 apenas se atribui ao santo mártir a pregação às Doze Tribos da Dispersão, assevera o P. Miguel de Oliveira, no seu livro Lenda e História (editado em 1964 pela União Gráfica).

Mas, no chamado Breviarum Apostolorum, versão latina daquela obra redigida no século 7, existe já menção de que Tiago "pregou na Espanha e lugares ocidentais... e foi sepultado em Acaia Marmárica a 25 de Julho". A notícia só seria admitida por um escritor peninsular um século depois (785, em comentário ao Apocalipse de S. Beato, abade do mosteiro de Liébana, no norte da Espanha). E, no entanto, o seu sepulcro haveria de ser encontrado 50 anos após, numa remota mata galega, no `ponto mais ocidental de toda a terra habitada', a Finisterra.

É uma curiosa lenda esta, a da veneração de um santo num local onde ele nunca esteve. É recheada de símbolos evocativos da tradição cristã e do paganismo que então vingava em toda a região, terra de bruxos, lugar de druidas, cujos caminhos aliás, a Igreja soube reconstituir no seu `caminho de Santiago'. Entronca na lenda dos Sete Varões Apostólicos (sete, o número simbólico) que terão evangelizado a península e trazido em sete dias, num barco sem piloto nem remos, da Palestina à Galícia, o corpo do santo, numa urna de pedra.

MILAGRES - Entre as muitas histórias desta atribulada viagem, resume-se uma, a que foi transcrita pelo Conde d'Aurora no seu livro Caminho Português para Santiago de Compostela: "Chegados ao porto de Iria, saltam em terra os companheiros de Tiago e atam a barca a uma pedra, Padron, que ainda hoje é ponto obrigatório de veneração da peregrinação. O corpo estava incorrupto e é colocado por eles sobre uma pedra que logo se abriu como um túmulo, milagrosamente. Procuraram então um terreno apropriado para enterrarem condignamente o corpo do santo e dirigem-se a uma dama das redondezas, senhora poderosa e rica, a matrona Dona Lupa, a quem chamavam `a rainha'; e que morava num castelo, um velho castro dos muitos que povoam a Galícia. Era o Castro Lupário, situado entre Padrón e Santiago".

Dona Lupa era pagã e por isso os aconselhou a consultarem o legado de César, um tal Filotro, que logo os confinou num calabouço por defenderem a doutrina moderna de Cristo, mas `os anjos os soltaram'. Foi o segundo milagre. Perseguidos por cavaleiros armados e fugindo pela ponte de Ons (o povo diz Ous) sobre o rio Tambre, os discípulos do apóstolo vêem os seus perseguidores sumirem-se no rio ao ruir a ponte no momento em que estes a atravessavam. Diz-se que os seus vestígios ainda jazem no fundo. Foi o terceiro milagre.

Todavia, nem este espantoso fenômeno comoveu Dona Lupa, que os aconselha ainda a ir a um monte próximo, chamado Ilicino, e levar os touros (animais venerados desde o paganismo) e apetrechos das fazendas, que ela ali possuía, necessários para recolher o corpo de Santiago, porque sabia que tal lugar era guardado por uma serpente (outro animal objeto do culto pagão). Mas, quando esta lhes sai ao caminho, logo cai morta quando eles fazem o sinal da cruz. Quarto milagre.

Os touros eram todos bravos mas, à voz dos discípulos, dois deles baixam as cabeças e aceitam o jugo como se tivessem sido sempre domésticos e mansos bois de trabalho. Assim se consuma o quinto milagre e, em sua memória, os seguidores do santo abençoam o monte, que ficou conhecido como Pico Sacro, outro local de romaria. São estes touros cujas cabeças ostentando uma estrela (sempre a simbologia pagã) surgem representados na iconografia romântica dos templos da peregrinação.

SANTUÁRIO - Os bois de Iria foram então deixados ir à sua vontade e pararam cerca de três léguas depois, num local que era terra de Dona Lupa que, convertida finalmente à fé cristã perante tanto prodígio, o cede gratuitamente. Fica o sítio denominado Liberum donum e é hoje assinalado por uma capela na Calle (rua) del Franco. Depositado o corpo num sepulcro novo, ficam junto dele dois discípulos - Teodoro e Atanásio, também chamados Torcato e Anastásio - que virão a ser enterrados junto do mestre, assim se justificando que fossem três os túmulos de mármore descobertos, oito séculos depois, pelo bispo Teodomiro, quando inspirado pela graça divina ali foi conduzido alta noite por luzes misteriosas e uma teoria de anjos.

O resto é história política. Afonso II vê na descoberta um sinal promissor para as suas batalhas contra os mouros e faz do santo seu padroeiro, edificando no local do túmulo um santuário que mais tarde chegaria a ser a catedral. A lenda acrescenta ainda que foi ao lado de um cavaleiro sobre um cavalo branco que o rei Ramiro vence os mouros na batalha de Clavijo. Alenta-se o mito de "Santiago matamouros"; e encontra a Reconquista o santo unificador de todos quantos faziam a guerra.

Com o novo culto chegam as ordens religiosas, os cruzados, os peregrinos e, sobre o velho caminho druídico, recria-se uma rota atravessando a península, via de tráfego intenso que mantinha alerta a vigilância da fronteira. Constroem-se casas, albergues, mosteiros e catedrais, faz-se indústria, erguem-se centros de estudo e investigação. Santiago torna-se Cidade Santa, como Roma e Jerusalém, e os peregrinos, atraídos pelas bulas, têm a alma salva com documento atestado. É local de deslocação obrigatória de monarcas e nobres de todos os pontos da Europa, que assim prestam a sua homenagem e ajuda à cristã obra da Reconquista. As relíquias sem conta são um proveitoso rendimento com que se constroem mais cidades e se pagam soldados para combater os "infiéis".

Derrotados estes finalmente em Granada, em 1492, pelos Reis Católicos, cumprida a tarefa, salva a Europa da ameaça islâmica, Santiago cai no esquecimento. Só reencontra um novo esplendor um século depois, quando já unificada a Espanha. Da Galícia partiram milhares de marinheiros e colonizadores que batizam com o nome da sua Cidade Santa, outras tantas: Santiago do Chile, Santiago de Cuba, Santiago do Cacém, em Portugal, Santiago no Brasil. Mas a lenda fica. E, quando a lenda ultrapassa a realidade, fique-se com a lenda.

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Jornal do Commercio
Recife - 30.12.99
Quinta-feira