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ARTIGO

Uma questão dos brasileiros

por EMANUEL DIAS*

O mal que a tuberculose está fazendo aos índios brasileiros não desperta a mesma reação de espanto e tristeza com que chega aos mais distantes grotões do País a lesão no joelho de Ronaldinho. É verdade que não há como encontrar pontos comuns entre um e outro fato, exceto que ambos são tragédias. O que já é suficiente para que se tenha um surpreendente cotejo: de um lado, um povo que continua sendo exterminado sem grandes comoções pela doença ou pela violência e, de outro, o drama pessoal de um ídolo que transcende fronteiras e ocupa mais espaço na mídia internacional que até mesmo o Brasil como nação.

Refletir sobre esse contraste profundo tem a ver com a expectativa que alimentamos de nosso País. É importante chamar atenção para a tragédia indígena porque ela está exposta dramaticamente no protesto dos verdadeiros donos do País, agora sujeitos à tutela do branco "civilizado" que dita as regras.

Qualquer esforço que se faça no resgate da presença indígena em nossa História tropeça em episódios lastimáveis. Consta que Pinzón, antes da chegada de Cabral, pegou à força 36 indígenas nas costas do hoje Estado do Amapá e os levou como escravos para a Europa, no que seria o primeiro ato de violência contra os índios brasileiros. Daqui mesmo de Pernambuco são inúmeros os capítulos dessa tragédia, que teve lances assombrosos como a exportação da varíola que dizimou tupinambás nas costas do Maranhão e do Pará, em 1621.

Custa ir atrás das velhas histórias de extermínio? Então basta prestar atenção ao noticiário nacional hoje. Eles foram e continuam sendo expulsos de suas terras ou simplesmente exterminados. A questão indígena não é uma “questão deles”, dos primitivos, dos bárbaros, dos incivilizados. É uma questão dos brasileiros. Tem a ver com a honra, com a dignidade da nação. Veja um exemplo de como eles sentem e clamam pela natureza: “Na nossa terra temos muitas serras. Dentro das serras moram os espíritos da natureza. As serras são lugares sagrados, onde nasceram os primeiros yanomami, onde os espíritos dos mortos retornam para viver. Nós queremos que as serras sejam respeitadas, não queremos que sejam destruídas. Queremos que esses lugares sejam preservados para não acabar com nossa história e com nossos espíritos”.

O clamor yanomami é um discurso que vai muito além do tempo que costumamos acompanhar no calendário e ultrapassa todas as fronteiras. É a mesma linguagem, por exemplo, de um Seatle, o chefe indígena norte-americano, cuja carta ao presidente dos EUA nos anos 50 do século passado tornou-se, na segunda metade do século 20, um programa para o meio ambiente adotado pela ONU. Ante a proposta do governo americano de comprar parte das terras de uma tribo, Seatle perguntava: “Como se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los? Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia da praia, a penumbra da floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência do meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo lembranças do homem vermelho".

Esse pequeno trecho da maravilhosa defesa da natureza é o que expressam hoje os nossos índios. Entendemos que não é apenas politicamente correto tomar a defesa da causa indígena mas, assim como fez recentemente o Papa Paulo II, reconhecendo e pedindo perdão pelos equívocos passados da Igreja Católica, assim também todos nós, descendentes dos ocupantes de Pindorama, temos o dever histórico de nos penitenciar e procurar entender a língua dos primeiros proprietários desta terra. Eles são detentores do bom direito. De um direito primitivo que se sobrepõe a todos os demais, tenham a forma de Constituição ou de lei ordinária. Sobre esses artifícios - muitas vezes produzidos sob influência de grileiros, de invasores que formam imensos latifúndios e devastam as florestas -, vige uma outra lei mais poderosa: a lei da vida consciente, racional.

* Emanuel Dias é reitor da Universidade do Estado de Pernambuco


Jornal do Commercio
Recife - 02.05.2000
Terça-feira

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