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MEMÓRIA
O homem que sabia demais

por Janaína Lima

Valdemar de Oliveira foi realmente um homem de sete instrumentos, como se costumava dizer à sua época. Médico, bacharel em direito, jornalista, professor, higienista, ator, diretor e crítico musical foram apenas algumas das especialidades a que este pernambucano se dedicou durante a vida. Falecido há 23 anos, o criador do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), grupo mais importante do teatro pernambucano e o mais antigo em atuação na América Latina, estaria completando 100 anos hoje.

Certamente, sua mãe verdadeira (ele próprio afirmava que tivera cinco mães), Maria da Penha, não se dedicou a qualquer competição do tipo: o primeiro bebê de 1900, como muitas mulheres fizeram por ocasião deste último ano do século 20. De qualquer maneira, o garoto Valdemar dividiu sua sorte com outros conterrâneos famosos, que igualmente completam centenário em 2000, como Gilberto Freyre e Fittipaldi.

A infância foi inteira passada no Recife, sem grandes trelas, devido à saúde frágil: “Um terço da minha infância passei na cama, entre médicos e mingaus”, destacou em sua autobiografia, Mundo Submerso. Os primeiros anos de estudo foram no Pritaneu, localizado no Bairro da Boa Vista, e dirigido pela tia paterna Clotilde, a quem Valdemar chamava de mãe. Posteriormente, transferiu-se para Salvador, de onde saiu médico.

Mesmo não tendo gostado da cidade, inicialmente, foi lá que o jornalista viveu a liberdade da mocidade, nos saraus literários, trotes universitários e pensões. Nesta época, compôs as primeiras músicas, entre elas a valsa Eulina, dedicada a uma noiva. Formou-se em 1922, mas só no ano seguinte recebeu o grau de doutor, ao defender uma tese sobre musicoterapia.

Em 1924, voltou à casa materna, que além de comida e cama, lhe garantiu o consultório para o início das atividades na medicina. Ao mesmo tempo, clinicava no Hospital Santo Amaro e começava a ocupar cargos públicos. Primeiro, no Serviço de Estatística e Propaganda Sanitária, depois no serviço de Higiene Industrial e no Departamento Estadual de Trabalho e Imigração. Mas foi após a entrada na Sociedade de Medicina, que definiu mais claramente a especialização a seguir: Higiene. Dedicou-se então ao estudo específico desta área, inclusive no magistério. Aliás, a vontade de ensinar, aos poucos tornou-se a principal atividade do doutor Valdemar, que não titubeou em fechar o consultório para ter mais tempo para as aulas.

O colégio da sua ‘mãe’, Clotilde, foi a primeira sala para o professor Valdemar, que, posteriormente, atuou na Faculdade de Medicina do Recife, Faculdade de Filosofia do Recife, e Faculdade de Ciências Médicas, da qual foi diretor-fundador. A criação da faculdade despertou no escritor a disposição de escrever obras didáticas. A eleição na Academia Pernambucana de Letras foi quase uma conseqüência dessa carreira do professor-escritor, que a partir de 1927 acrescentou mais um diploma ao currículo: bacharel em direito.

O JORNALISTA – Foi com a coluna A Província, publicada neste Jornal do Commercio por cerca de 40 anos, que Valdemar de Oliveira consolidou a carreira jornalística. Mas muito antes, ainda nos tempos de estudante, em Salvador, ele já publicava suas primeiras crônicas musicais, no Diário da Bahia. De volta ao Recife, escreveu em diversos periódicos, como A Província, Diário da Manhã, Folha da Manhã, Diário da Noite e Diário de Pernambuco. Mas foi como colunista do JC que Valdemar de Oliveira se consagrou. Em sua coluna À Propósito... ele escrevia sobre música, teatro, literatura, enfim, artes em geral. Não raro, ‘duelava’ com outros críticos de arte da época, em especial, Joel Pontes e Medeiros Cavalcanti.

Na maioria das vezes, as críticas de Valdemar de Oliveira refletiam a filosofia do escritor: formato acadêmico, linguagem intelectualizada e comentários detalhistas. Afinal, era um homem culto e ‘antenado’ com o que estava acontecendo na Europa, inclusive com confirmações in loco, devido a muitas viagens do TAP ao exterior e outras capitais do País.

Após a morte do também jornalista Mário Melo, Valdemar de Oliveira assumiu a coluna Crônica da Cidade. Aos domingos, assinava ainda uma página inteira, intitulada Vida Artística. O interesse pela arte ainda levou o escritor a fundar a revista Contraponto, que alcançou 12 números.

Faleceu em 18 de abril de 1977, no Hospital Geral de Urgência, devido a complicações cirúrgicas motivadas por uma fratura de acetábulo (osso da bacia). Deixou dois filhos: Reinaldo e Fernando de Oliveira, responsáveis pela manutenção do teatro que leva o nome do pai e do TAP.

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Jornal do Commercio
Recife - 02.05.2000
Terça-feira