
MEMÓRIA II
Ele estava
sempre atento aos detalhes Dentre os herdeiros de Valdemar de Oliveira
está a atriz Geninha da Rosa Borges, diretora do Teatro
de Santa Isabel e membro do TAP. Casada com Antônio da
Rosa Borges (irmão de Diná de Oliveira), Geninha guarda
boas lembranças do tempo em que trabalhou com o diretor.
Se no palco ele era duro, exigente, fora dele, era
um homem muito generoso. Lembro que uma vez viajamos com
o TAP para a Europa, eu era recém casada, estávamos
começando a nossa vida e não tínhamos dinheiro para
gastar com nada. Um dia o grupo foi passear num mercado
muito famoso, todos compraram presentes e nós apenas
olhamos as mercadorias. Na hora de ir embora, ele me
entregou um presente, um objeto que eu havia visto e
gostado muito. Ele sempre prestava atenção nessas
coisas, nos detalhes, conta.
A atriz recorda ainda
momentos importantes em que a autoridade do diretor se
sobrepunha à amizade fora dos palcos. Tem um
acontecimento inesquecível, que entrou para a história.
Foi durante a temporada de A Dama da Madrugada, eu
interpretava Adélia e, durante uma das cenas, o
personagem do Dr. Valdemar (como ainda hoje Geninha
refere-se ao cunhado) gritava o meu nome e eu entrava em
cena. Em uma das apresentações, eu não ouvi quando ele
me chamou e ele ficou a gritar: Adélia! Eu deveria estar
nos camarins, namorando... Levei um carão!
relembra Geninha.
Mas o inusitado em A Dama
da Madrugada não pára por aí. O fato é que
passaram-se vários minutos e nada de Adélia aparecer.
Valdemar de Oliveira, então, teve que improvisar um
desesperado lamento, para deleite da platéia. A partir
daquela apresentação, a cena foi incorporada à peça,
graças à boa resposta do público, que ía às
gargalhadas. O diretor chegou mesmo a escrever ao autor
do espetáculo, o dramaturgo espanhol Alejandro Casona,
sugerindo que a cena fosse acrescentada ao texto
original.
A fidelidade é outra
marca do escritor destacada por Geninha. Uma vez
ele comentou que tinha vontade de encenar o drama Yerma,
de Lorca (Garcia), que é uma peça que narra os
sofrimentos de uma mulher estéril. Eu me prontifiquei na
hora, falei que estava interessada no papel, mas nada
ficou acertado. Passaram-se anos e um dia ele convidou
Milton Bacarelli para dirigir o espetáculo. Bacarelli
queria o papel para Maria de Jesus, mas Dr. Valdemar
falou que já havia se comprometido comigo e a peça
acabou não saindo. Já no leito de morte ele me pediu
para encenar Yerma, então eu mesma me dirigi, para
atender ao seu pedido, destaca emocionada, a grande
dama do teatro pernambucano.
-----------------------------------------------------------------------