
MEMÓRIA III
Valdemar
de Oliveira e sua obra maior: o TAP por Antonio Cadengue *
ESPECIAL PARA O CADERNO C
Valdemar de Oliveira teve
contato com o teatro ainda pequeno. No Colégio Pritaneu,
assistia às representações teatrais das festas
escolares de encerramento do ano letivo. Certa vez foi
convidado para participar de uma dessas representações
um papel em travesti, coisa comum. O seu pai
reagiu ao professor Alfredo Gama: Você está
enganado ou o diabo lhe está enganando. Filho meu
vestido de mulher? Você é besta?. Valdemar
constata em suas memórias: provalvemente, o Brasil
perdeu um grande ator.
Mas a paixão pelo teatro,
e pela música tem origens ancestrais: o pai tocava
violão e a mãe, bandolim. Ele, aos cinco anos,
iniciou-se no piano. A família freqüentava ainda as
temporadas do Santa Isabel. Em Salvador, onde foi estudar
Medicina, prossegue suas incursões nas artes, no Teatro
São João. Era a época do duo Furlay-Pasquini, dos Los
Fischer, dos Irmãos Queirolos, entre outras atividades.
Lá, representa sua primeira peça: Quem Não Tem Medo,
Caça com Gato (1918), na pensão onde morava.
O encontro com Samuel
Campelo foi definitivo. Em parceria, realizaram vários
trabalhos, mas foi no Grupo Gente Nossa, que Valdemar
exercitou seu talento e aprendeu com os professores
contratados pelo grupo. Com a extinção do Gente Nossa,
veio a possibilidade de concretizar o sonho que
acalentava há algum tempo: um teatro de amadores,
libertando-nos da comédia de boulevard.
Em 1941, monta Knock, ou O
Triunfo da Medicina, de Jules Romains, com médicos e
seus familiares, nos 100 anos da Sociedade de Medicina de
Pernambuco. A partir daí, Valdemar sentiu a
possibilidade de criar um teatro de cultura, no Recife, a
exemplo do que ocorria no Rio de Janeiro com Os
Comediantes e o Curso Prático de Teatro. Fundou então o
grupo que mudaria a face do teatro em Pernambuco: TAP.
De 1941 a 47, o TAP inicia
o processo de civilização do Recife: é a
hora em que o grupo se esforça para educar a si e ao
público, com uma mentalidade artística que tem a
dignificação da arte e a filantropia como eixo. Faz
suas primeiras excursões e a Imprensa o aplaude
como um teatro a ser imitado. O repertório
é eclético e pauta-se mais pela ética que pela
estética: através de um teatro honesto,
Valdemar discute as grandes questões morais inerentes ao
homem, diferentemente das pequenas questões
domésticas, que o teatro brasileiro de então
enfocava. Daí a preferência pela dramaturgia
estrangeira, mais grave que a nacional, mais afeita ao
riso. Mesmo assim, neste período, todo o discurso que
emanava é o alto padrão artístico alcançado pelo
conjunto.
De 1948 a 58, começa a
superação do autodidatismo que impedia o grupo de
avançar para o teatro moderno. Impõe-se então a
realização de peças bem feitas tecnicamente e o
acompanhamento dos movimentos estéticos europeus. Para
esta renovação, o TAP contrata vários encenadores,
como Ziembinski (1949), Jorge Kossowski (1952), Flamínio
Bollini (1955), Bibi Ferreira (1956) e Hermilo Borba
Filho (1958), entre outros. É o momento mais ousado do
grupo.
A partir de 59 e até 65,
evidencia-se um momento de refluxos. Consolidam-se as
conquistas da fase anterior e mantém-se um equilibrado
rendimento artístico entre a cena e o texto. Seguem com
montagens acadêmicas, que já não empolgam como antes.
As mudanças políticas no País se refletem no conjunto.
Os anos de 66 até 76 são
marcados por profunda nostalgia. Momento de saudades de
outros espaços e tempos. Momento de distanciamento do
presente, pela insegurança política, estética e
social. Ausência de produções renovadas e instigantes.
Mesmo assim, o grupo vive seu momento de glória e
inaugura sua casa de espetáculos.
Considerando-se o maior
irradiador cultural do Estado, o TAP vê nos grupos que
surgiram após ele, mesmo os de programas divergentes do
seu, uma influência próxima ou remota de
sua ação de aperfeiçoamento do gosto e da
mentalidade do público. Público, aliás,
que supõe uma classe: as grandes obras são feitas para
a elite assim se contrapõe Valdemar ao apelo de
Hermilo Borba Filho em prol do teatro popular.
O trabalho do grupo
repercute no Sul do País em temporadas no Rio, Porto
Alegre e São Paulo. Inicialmente, os elogios que vão de
Austregésilo Athayde a Osvald de Andrade. Depois,
restrições: de Henrique Oscar e Paulo Francis. Em
Recife, um ou outro o desafiou, mas muita divergências
ficaram à boca fechada. Quem ousaria enfrentar esta
esfinge amiga de quase todos os governos e
instituições? Não foi à toa que se criou no a
expressão Horto dos Oliveira para designar
esta linhagem que se encontrava nos altos cargos das
instituições culturais locais. Isso é significativo
num Estado ainda repartido em latifúndios e que
repercute no Recife através de um feudalismo
cultural, na expressão de Jomard Muniz de Britto.
O ideário
estético-ideológico do TAP constrói-se sobre o
discurso da qualidade artística versus
formação do público levantando problemas
de mercado; o discurso do saneamento da cena: ontem,
contra as chanchadas; hoje, contra os profanadores e
criminosos que desfiguram obras alheias na cena moderna;
o discurso da nutrição intelectual e moral: empenha-se
em dar ao público um cardápio que modifique o paladar,
estragado pela TV e afrouxamento dos laços familiares.
Mas sua durabilidade, independente do prestígio
institucional (do Estado Novo à Era Collor) chama a
atenção para outro dado: foi o tipo de teatro que
realizou e não outro que o fez e ainda o
faz uma referência obrigatória quando se fala em teatro
em Pernambuco.
* Antonio Cadengue é
diretor teatral
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