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MEMÓRIA IV
De Valdemar para o Brasil

por Rubem Rocha Filho
ESPECIAL PARA O CARDERNO C

Os estudiosos da evolução do teatro em Pernambuco talvez não avaliem a influência que a obra de Valdemar de Oliveira exerceu no resto do país. Houve dois momentos em que Pernambuco ensinou o Brasil a fazer teatro. Um deles quando o diretor Clênio Wanderley encenou o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, arrebatando todos os prêmios do festival que a atriz Dulcina de Morais, no Rio de Janeiro, em 1957. E outro, quando o TAP, sob a orientação de Valdemar de Oliveira, mostrou que era possível realizar fora do eixo Rio-São Paulo espetáculos do mais alto nível, com o melhor repertório internacional, apuro técnico e o talento interpretativo digno de um Teatro Brasileiro de Comédias, em São Paulo.

Para um adolescente apaixonado por teatro como eu, o Rio de meados da década de 50 ainda carregava o ranço pesado e repetitivo de um teatro de boulevard ou de comédias digestivas, características das companhias de Procópio Ferreira, Eva Todor ou mesmo Dulcina de Morais. Madame Henriette Morineau trazia a pose francesa, montando Cocteau, Jean Anouilh, Montheilant, no Teatro Copacabana Palace. Mas não tínhamos o repertório, a classe, a supremacia, a mística renovadora do TBC.

O TAP de Valdemar de Oliveira, que me deu a primeira visão de Eugene O’Neill, Shaw, Pirandello, Lorca, foi uma lição de teatro reconhecida pela crítica Brasil afora. Não havia, na sua homogeneidade, pequenos papéis, pois grandes intérpretes emprestavam uma unidade e um bom acabamento ao espetáculo como um todo. Os melhores diretores eram arregimentados por Valdemar: Turkov, Ziembinski, e tantos outros.

As peças, querendo se comunicar com o público, não faziam concessão ao fácil. Aliás, Valdemar não era homem de concessões. Com garbo e elegância, foi um lídimo paladino do que havia de melhor na cultura teatral e musical. Deixou um legado que não esmoreceu. E levou o teatro pernambucano à consagração nacional, a ponto do crítico paulista Décio de Almeida Prado qualificar de “surpreendente sua tranqüilidade profissional”, em crítica da encenação do TAP de A Casa de Bernarda Alba, de Garcia Lorca, em 1955.

Mestre da naturalidade e da fluência, o profissionalismo de Valdemar de Oliveira era resultado do mais puro amor. Amor, certamente, correspondido pelo público.

* Rubem R. Filho é dramaturgo

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Jornal do Commercio
Recife - 02.05.2000
Terça-feira