TEMPO DOS FLAMENGOS II
Brasil
holandês através dos livros por Leonardo Dantas Silva
Quando de sua estada em
terras do Brasil (1637-1644), o Conde João Maurício de
Nassau fez reunir o material necessário para um amplo
programa editorial visando divulgar esta parte do Novo
Mundo para a Europa de então. Ao retornar aos Países
Baixos, após sete anos em terras brasileiras, contratou
os serviços do conhecido humanista Gaspar van Baerle ou,
como veio a ser conhecido, Gaspar Barlaeus (1584-1648),
professor do "Athaeneum Illustre" de Amsterdam,
que, apesar de nunca ter estado no Brasil, veio a ser
autor do mais belo livro sobre o período holandês.
Para a realização do seu
intento, João Maurício franqueou seus arquivos, e o
restante da documentação foi coletado através de
pessoas que estiveram no Brasil, dentre as quais o judeu
português Gaspar Dias Ferreira, amigo pessoal do conde.
Nada foi poupado em favor da bela edição, que aparece
impressa em Amsterdam em 1647 com o título Casparis
Barlaei - Rerum Per Octenium in Brasilia Et alibi nuper
gestarum, Sub Praefectura Illustrissimi Comitis I.
Mavritii, Nassoviae etc. Impresso na tipografia de
Joannis Blaeu, no formato 46x29cm., trazendo como folha
de rosto uma bem elaborada gravura e um retrato do conde
assinado por Theodoro Matham (1605-1660), o livro é
composto de 340 pp., com 56 gravuras impressas em papel
especial, das quais 24 são mapas e plantas de sítios e
fortificações; as 31 restantes são cenas da frota
holandesa, combates navais, paisagens e vistas marinhas;
27 levam a assinatura de F. Post (1612-1680) e 15 datam
de 1645. Estas gravuras teriam sido executadas em
lâminas de cobre por Jan Broosterhuisen (c 1596-1650) e,
segundo alguns autores, por Salomon Savery, a quem foram
confiadas as gravações das batalhas navais. O conjunto
de mapas é de autoria de George Macgrave e o de n.º 40,
no qual aparece o Recife e seus arredores em 1644, parece
ser obra do conhecido cartógrafo Cornelis B. Golijath.
Os mapas do Brasil Holandês, formados pelo conjunto de
George Marcgrave, reaparecem, em 1659 e 1667,
constituindo um grande painel mural com ilustrações de
Frans Post.1
Trata-se de um dos mais
belos livros já produzidos sobre o Brasil, com
descrições de regiões da África e um mapa do Chile
(não numerado), cujas cópias foram presenteadas por
João Maurício a diversas personalidades da época. As
encadernações originais foram elaboradas em pergaminho,
com ilustrações feitas por gravuras em cobre,
existindo, ainda, cópias com gravações em ouro e
outras aquareladas em datas posteriores. Uma dessas
edições foi presenteada a D. João IV pelo embaixador
de Portugal na Holanda, Francisco de Souza Coutinho, na
época do seu lançamento em 1647. O exemplar,
pertencente à Biblioteca Real, veio para o Brasil em
1808, com a transferência da Família Real portuguesa, e
hoje integra o acervo da Biblioteca Nacional.
A primeira edição foi
escrita em latim (1647), sendo depois traduzida para o
alemão (1659) e, na sua íntegra, para o holandês
(1923); nesta última, por Samuel Pierre L'Honoré
Naber,numa tiragem reduzida de 160
exempla<EL0.7>res. No Brasil, a obra foi traduzida
para o português pelo Prof. Cláudio Brandão, em 1940,
tendo o Ministério da Educação a publicado em duas
apresentações, a primeira com 45,5 cm x 31,5 cm, com as
reproduções da edição original em zincogravura, e
outra em menor tamanho sem ilustrações.
Em 1979, quando do
transcurso do tricentenário do falecimento do Príncipe
João Maurício de Nassau, ocorrido em 20 de dezembro de
1679, na sua propriedade de Berg und Tal, nos arredores
de Cleve, na Alemanha, foram editados no Recife: o álbum
de gravuras O Brasil que Nassau conheceu e a notável
obra de Gaspar Barlaeus, História dos feitos
recentemente praticados durante oito anos no Brasil etc.,
magnificamente ilustrado com lâminas desdobráveis
assinadas por Frans Post e mapas de autoria de George
Marcgrave e Cornelis Bastianszoon Golijath, copiadas
diretamente da edição de Amsterdam (1647).
A produção científica
de Willem Piso (1611-1678) e de George Marcgrave
(1610-1644) aparece em 1648 quando da publicação da
obra Historia naturalis Brasiliae etc., impressa em
Amsterdam, no formato 38 cm x 35 cm por Elzevier. A
edição contou com a colaboração de Joannes de Laet,
autor de L'Histoire du Nouveau Monde ou Description des
Indes Occidentales, impressa em Leiden em 1640, que, a
pedido do Conde João Maurício de Nassau, se encarregou
da compilação e tradução das notas de George
Marcgrave, prematuramente falecido na África em 1644. Em
sua primeira edição, o livro reúne 429 ilustrações
de autoria dos pintores da comitiva de Nassau e algumas
xilogravuras do próprio Marcgrave, sendo aberto por uma
folha de rosto magnificamente ilustrada por Theodoro
Matham. Assinada por dois autores, tem os quatro
primeiros livros de autoria de Willem Piso, De Medicina
Brasiliensi, e os oito restantes de autoria de George
Marcgrave, História rerum naturalium Brasiliae, os quais
foram compilados e anotados por Joannes de Laet. Os oito
livros finais tratam, os três primeiros de botânica, o
quarto sobre peixes, o quinto sobre pássaros, o sexto
sobre quadrúpedes e serpentes, o sétimo sobre insetos e
o oitavo (escrito por Joannes de Laet) descreve a região
do Nordeste do Brasil e seus habitantes. Esta última
parte é de raro valor etnográfico e lingüístico,
sendo utilizada na sua elaboração notas de Jacob Rabbi,
notável intérprete a serviço dos holandeses, e o
extenso vocabulário tupi compilado pelo padre José de
Anchieta.
Alegando imperfeições na
primeira edição, Willem Piso promoveu uma segunda em
1658, De Indiae Utriusque re naturali et medica, impressa
em Amsterdam, nas oficinas de Ludovicus et Daniel
Elzevier, no formato 36 x 22cm. A obra compreende seis
livros do próprio Piso, reunidos sob o subtítulo
Historiae naturalis et medicae Indiae Occidentalis, 332
p.; Tractatus topographicus et metereologicus Brasilae,
cum Observatione Eclipsis Solaris, 39 p. , de autoria de
George Marcgrave; Historiae naturalis et medicae Indiae
Orientalis, 160 p., de autoria de Jacobi Bonti e um
estudo sobre a Mantissima aromatica, do próprio Piso.
Esta edição é aberta por uma notável folha de rosto,
gravada em lâmina de cobre provavelmente por Theodoro
Matham, a qual se sucedem cinco páginas sem numeração.
Os originais da obra encontram-se na Biblioteca
Albertina, em Viena, sendo as duas edições ainda hoje
muito consultadas pelos estudiosos da matéria contida em
seus capítulos.
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