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COMPORTAMENTO
Qual é sua fantasia?

por Mona Lisa Dourado

Transar com várias pessoas. Fazer amor embaixo d’água. Utilizar a mesa do trabalho como cama. Participar de uma sessão sadomasoquista de sexo, com direito a chicotes e algemas. Realidade ou apenas imaginação? Não importa. O fato é que as fantasias e fetichismos sexuais sempre povoaram a mente e as práticas humanas, porque só o homem está exposto a múltiplas possibilidades de prazer.

“A fantasia sexual nada mais é do que a manifestação do desejo, aliado à história de vida, às experiências gravadas no insconciente e à cultura a que está submetida cada pessoa”, define Silvana Melo, sexóloga e delegada regional da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (SBRASH).

Assim, sonhar com parceiros desconhecidos ou do mesmo sexo, orgias, homens fardados, transas em posições acrobáticas, lugares inusitados ou cenários românticos, lançando mão de toda sorte de exibicionismos e voyuerismos é completamente natural, sendo a materialização desse imaginário, dentro de certos limites impostos pelos valores sociais, saudável para as pessoas e as relações.

Casada quatro vezes, a promoter Khikha Orlandi, 34 anos, acredita que manter um relacionamento a dois, sem deixar que a rotina desgaste “o elo do amor e da paixão” é muito difícil, se novos ambientes, situações e insinuações não forem criados. “Não precisa ser nada programado, mas, se você pára de fantasiar a respeito do teu parceiro e das possibilidades com ele, a relação acaba”, diz. Entre as ‘loucuras’ que já concretizou, Khikha lembra da vez em que fez amor no banheiro de um ônibus, em pleno Rock in Rio. Praticante de rapel, a promoter revela que o sonho de sua vida é transar descendo de corda numa cachoeira, sentindo a água bater em todo o seu corpo.

Tanta ousadia e desibinição, principalmente entre as mulheres, que historicamente foram mais reprimidas sexualmente, parece ser fruto de uma revolução sexual, a partir da qual as pessoas começaram a deixar transparecer os seus desejos mais íntimos.

Na verdade, para o psicanalista José Carlos Escobar, a maior revolução não aconteceu no campo da sexualidade, mas no da comunicação. Segundo Escobar, a demanda por sexo e a capacidade de fantasiar sempre existiram numa mesma intensidade, mas o que mudou foi o aumento da possibilidade de realização dessas fantasias. “Uma vez que elas estão mais livres e aceitas, devido às formas mais abrangentes de comunicá-las, reduziu-se a privacidade e o universo sexual individual ficou mais explícito”, afirma.

Sem dúvida, os vídeos e contos eróticos, o cinema, a Internet e a televisão, com suas ‘tiazinhas’, ‘feiticeiras’ e ‘gretchens’, além dos motéis, sex shops e uma série de outros mercados que surgiram em torno do sexo, servem constantemente como inspiração às fantasias e estímulo de sua vivência para as gerações modernas.

“Nos quadros de Toulouse Lautrec, da Belle Époque, por exemplo, você encontra mulheres de cinta-liga e todos esses fetiches que pertecem ao imaginário sobre sexo. Só que antes elas estavam nos cabarés ou expostas em pinturas, nas galerias, e hoje a Tiazinha está ao vivo na televisão, exibindo-se para milhares de telespectadores, às seis horas da tarde”, comenta o psicanalista.

Exemplo interessante dessa influência da mídia no universo fantasioso das pessoas é o do segurança Tony Lopes (nome fictício), 40 anos. Mesmo nunca tendo passeado de barco, Lopes imagina, pelas imagens que costuma ver em novelas, que fazer amor numa lancha em alto-mar deve ser muito excitante. “O sexo com fantasias provoca um prazer muito mais intenso”, constata o segurança, que já fez sexo no telhado de sua casa e até dentro de um tubo de concreto.

No que diz respeito à velha discussão sobre as diferenças entre homens e mulheres na hora de usar a criatividade para fantasiar ou expressar sua sensualidade, a sexóloga Silvana Melo esclarece que as fantasias femininas ainda estão ligadas predominantemente ao romantismo e ao envolvimento afetivo, enquanto as masculinas se baseiam mais em jogos sádicos ou pseudo-sádicos e de poder, “provavelmente por conta da educação machista, dominadora e genitalizada que os homens receberam”.

O estudante Leonardo Araújo (nome fictício), 21, revela que xingar a parceira e dar tapinhas em seu rosto durante a relação, ouvindo seus gemidos, deixa-o “enlouquecido”. Para Araújo, situações que envolvem muita adrenalina, dado o perigo de que apareça alguém bem na ‘hora H’, como a vez em que fez sexo numa praça pública, também são de um tesão incomparável. Dentre as aventuras que o estudante ainda pretende realizar, estão transar no meio de um campo de futebol, antes do jogo começar, e fazer sexo com duas mulheres ao mesmo tempo. “Quanto mais louca a situação, maior o desejo e a satisfação”, justifica.

Nem sempre essa relação precisa ser tão diretamente proporcional, na opinião de Silvana Melo. A sexóloga diz que inversamente à proibição existente nas décadas anteriores, hoje há uma cobrança inconsciente que associa o prazer somente aos malabarismos sexuais e às fantasias mais esdrúxulas possíveis. “O maior estímulo à relação sexual ainda deve ser o parceiro. Há casais que se excitam apenas contando histórias no ouvido um do outro e criando cenários imaginários. O importante é deixar que as coisas aconteçam naturalmente. Nesse caso, a fantasia entra como um acessório, interessantíssimo, mas acessório”, ensina.

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Jornal do Commercio
Recife - 30.04.2000
Domingo