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PROFISSÕES
Um tanto estranhos, mas de bem com a vida

por Julliana de Melo

Apesar de milhares de pessoas não terem motivos para festejar o dia 1º de maio, Dia do Trabalho, devido ao aumento do desemprego no País ou ao baixo valor dos salários, alguns profissionais vêem a comemoração com otimismo e encaram a vida de uma forma diferente, encontrando na profissão e no dia-a-dia a solução para seus problemas.

Na função de cada um, nada de muito glamour ou grandes recompensas financeiras, mas a simplicidade de trabalhar com bastante alegria e dedicação. Assim é o cotidiano de Maria da Conceição Nunes, 33 anos. Esbanjando simpatia e muitos sorrisos, Dona Ceça, como é chamada pelos colegas de profissão, já perdeu a conta do número de vezes que amanheceu o dia trabalhando.

Pelas rodovias e estradas do Nordeste afora, leva o seu companheiro inseparável e ferramenta de trabalho: Garanhão, um caminhão Volvo herdado do marido há dois anos. “Ser caminhoneira, no início, para mim não foi uma opção de vida, mas uma forma de sobrevivência. Hoje, acredito que não conseguiria fazer outra coisa”, diz.
Mãe de três crianças ainda em fase pré-escolar, Dona Ceça se viu obrigada a deixar seus filhos aos cuidados da sogra e seguir a carreira do marido, transportando carregamentos de bananas do interior de Pernambuco para abastecer alguns pontos da região.

O tempo que encontra para matar a saudade de casa é curto, uma média de quatro vezes por mês. “Gostaria de ficar mais tempo com eles, mas se eu não trabalhar, eles não comem, nem têm conforto”, explica. Em relação ao fato de ser perigoso viajar à noite ou ser mulher nesta profissão, ela é taxativa: “Trabalho é trabalho. Quanto mais você gosta do que faz, mais diminui os riscos e os preconceitos”.

Algumas profissões, no entanto, seriam facilmente rejeitadas por muita gente. Imagine estar desempregado, com nove filhos para criar, e a única oportunidade de trabalho que aparece é uma vaga no cemitério na função de agente necrópsio, ou melhor, coveiro. Foi exatamente assim que José Pedro Gomes, 61, encarou a atividade.

Trabalhando há 30 anos, em dias alternados com plantões de 12 horas, José Pedro aprendeu a domar o medo e a freqüentar naturalmente um ambiente considerado por muitos como macabro, digno de um verdadeiro filme de terror.

Para o coveiro, assombração pode ou não existir no cemitério. “Se alguém vem impressionado, qualquer folha que cair no chão pode achar que é algo do outro mundo”. Ele mesmo, no entanto, quarda na lembrança alguns momentos de suspense. Certa vez, num dia chuvoso, chegou a levar um susto quando se esbarrou com o vigia vestido com uma capa preta. Se fantasmas existem? José Pedro garante que já viu alguns e diz que eles precisam de maiores cuidados e respeito. “A morte é uma realidade a qual ninguém pode escapar. Medo todo mundo tem”.

A sua mulher passou um tempo reclamando do cheiro forte que ele carregava no corpo quando chegava do cemitério, mas se acostumou, “como tudo nessa vida”. Os vizinhos e amigos mais próximos fazem brincadeiras, dizendo que José Pedro é autoridade da morte. Recebendo dois salários mínimos por mês, ele diz que pretende se aposentar como coveiro. ”É mais fácil trabalhar com os mortos do que com os vivos”, diz.

PRECONCEITO – A supervisora geral de um dos motéis mais conhecidos da cidade, Sandra Mesquita, 34 anos, teve que ouvir muitas gracinhas dos amigos quando iniciou o trabalho como camareira. Recém-divorciada e sem nunca ter trabalhado antes, Sandra teve que procurar um emprego para cuidar de seus cinco filhos. “Minha amiga me indicou a vaga e decidi aproveitar a oportunidade. Desde o início, não achei o trabalho constrangedor, até porque eu apenas havia saído de casa para arrumar a casa dos outros”.

Sandra, no entanto, admite que sofreu preconceitos. “Muita gente insinuava que só por trabalhar num motel eu saía com clientes. Nós fazemos os bastidores do hotel”, diz. No atendimento direto ao cliente, Sandra recorda algumas situações inusitadas quando foi chamada para verificar o funcionamento do ar-condicionado do quarto e se deparou com o casal na cama. “Nesses casos, utilizamos da discrição, fazemos o que tem de ser feito e nos retiramos o mais rápido possível”. Atualmente supervisionando os serviços de copa, cozinha, limpeza e recepção, Sandra se orgulha do trabalho que faz e recebe da família total apoio e admiração por ter crescido na empresa.

Já o limpador de vidros Jorge Limeira, 27, abandonou os estudos para seguir a profissão do pai. “Cresci vendo meu pai no alto dos prédios. Queria ser igual a ele”. Quando completou a maioridade, foi procurar emprego e teve a oportunidade de realizar o seu sonho.

“No começo, senti um frio na barriga com a altura, mas depois relaxei. Na verdade, eu gosto de ver a cidade lá de cima”. No feriado de amanhã, Jorge vai fazer um extra para aumentar a renda no final do mês. “O trabalhador que ganha um salário de R$ 130 não tem motivos para comemorações”, finaliza.

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Jornal do Commercio
Recife - 30.04.2000
Domingo