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ALCALÁ DE HENARES Os muçulmanos e os Cavaleiros de Tróia por FABIANA MORAES A apenas 30 quilômetros de Madri, a pequena Alcalá de Henares é uma cidade em plena reestruturação cultural. Depois de passar por um período de decadência, quando a famosa Universidade Cisneriana, responsável pelo seu crescimento foi transferida para a capital, a região já se vende como um importante roteiro turístico dentre as cidades medievais da Península Ibérica. Aqui, onde nasceu um dos mais importantes escritores da literatura mundial, Miguel de Cervantes, o tempo foi bondoso com centenas de construções que relembram os antigos períodos em que religiosos comandavam os destinos da ex-Complutum romana. Da mesma forma que Salamanca, Alcalá, com cerca de 170 mil habitantes, é bastante povoada por estudantes, muitos deles estrangeiros, que procuram a concorrida universidade local para aprimorar seus estudos. No total, são quase 20 mil. Foi justamente em torno da universidade que aconteceu boa parte do desenvolvimento histórico e cultural da cidade. Ali, se iniciou uma ambiciosa busca pelas ciências humanísticas e exatas, empreendida pelo cardeal Cisneiros. O sonho do religioso: transformar a urbe em uma nova versão de Atenas. Em seu governo, foi construído um dos prédios mais bonitos e representativos da Renascença espanhola: o Colégio Mayor de San Idelfonso, atual sede administrativa da Universidade de Alcalá. É no colégio que se encontra o famoso Pátio Trilíngüe, onde se reuniam estudantes que, obrigatoriamente, falavam em grego, latim e hebreu. Era a supremacia do conhecimento e da razão, em plena época em que pessoas ainda eram condenadas à fogueira. Uma das lendas mais famosas sobre o surgimento da velha Alcalá de Henares esbarra na mítica Guerra de Tróia. Conta-se que soldados fenícios, depois da luta, fundaram a cidade de Iplacea, que alcançaria grande importância. A população local, de tão grande, começou a mudar-se para outros locais. Um deles era o pueblo de Al-hala, que daria início ao povoamento da futura Henares. Esta é a versão mais romântica, e menos creditada pelos arqueólogos e historiadores. O certo é que diversos povos, de diversas culturas, procuraram em alguma época se estabelecer acerca do Rio Henares. Os romanos, quando chegaram ao local, ainda no século 1 depois de Cristo, o chamaram de Complutum. Os muçulmanos, séculos depois, o batizam de At Abd Al Salam. O nome final da cidade vem, aliás, de al-Qalat, que significa o castelo, em árabe. Os romanos transformam a cidade em uma importante rota, que unia Emérita Augusta com César Augusta (hoje Mérida e Saragoça). A ocupação da Península Ibérica pelos muçulmanos (711 e 718) transforma a cidade econômica e culturalmente. Não se sabe ao certo, mas tudo indica que, ao menos nas imediações do Rio Henares, houve a convivência entre cristianos e muçulmanos. Apesar de ter durado séculos, a presença árabe na cidade é pouco documentada. Um dos mais importantes resquícios é o castelo muçulmano localizado próximo à ermida do Val (também no Rio Henares), justamente a construção que daria a Alcalá seu nome definitivo. Depois que os cristianos ocupam Toledo e, possivelmente, Alcalá, após o Pacto de Cuenca (1805), o al-Qalat passou a ser uma incômoda ilha muçulmana dentro de um reino cristão. A resistência só foi quebrada em 1118, depois que o bispo de Toledo, Bernardo de Sedirac, leva tropas para a frente do castelo e expulsa os infiéis. LAGE DOR A idade dourada de Alcalá de Henares começa com o governo religioso que se estabeleceu a mando dos reis de Castela. Os arcebispos de Toledo tornam-se responsáveis pela nomeação de cargos, arrecadação de impostos e elaboração de códigos legislativos. As obrigações vindas do poderio fazem com que estes religiosos permaneçam por mais tempo em Alcalá de Henares do que em Toledo, o que, na época, representava uma grande ponto a favor da cidade. Os reis constroem ali uma vivenda para descansar e a rainha Isabel recebe a visita de Cristovão Colombo. Ele vinha explicar seu projeto para navegar uma nova rota pelo ocidente, na qual chegaria até as Índias Ocidentais. A casa onde aconteceu o encontro é hoje, por motivos óbvios, chamada de Casa da Entrevista. A chegada do religioso Francisco Jimenéz de Cisneiros modificaria definitivamente a face da cidade medieval, transformando-a em renascentista. O projeto do franciscano Cisneiros, incubido da reforma eclesiástica espanhola, era bastante ambicioso, e consistia em transformar todos os curas, que possuíam uma educação relativamente precária, em intelectuais versados em Filosofia e Teologia. Para isso, funda o Colégio Mayor de San Idelfonso, até hoje maior ícone da universidade (ver matéria na página 6). Esse foi, sem dúvida, o período de maior esplendor de Alcalá. Podia-se estudar Física, Filosofia, Direito. Formavam-se bacharéis, mestres e doutores. Ao redor do colégio maior, foram sendo construídos outras instituições de ensino, como o Colégio de Santa Catalina e o San Eugênio. Cisneiros cria hospitais e novos bairros, que mudam o traçado do local. Simultaneamente, manda confeccionar a famosa Bíblia Poliglota Complutense, uma das mais raras publicações do mundo. Mesmo após a morte de Cisneiros, em 1517, o desenvolvimento urbano e intelectual continuou a ser observado. Em 1687, é declarada cidade, antes mesmo que Madri. A cidade viveu três séculos de bonança, que foram bruscamente interrompidos em 1836, com a transferência da universidade para Madri. Os edifícios de Alcalá de Henares são passados para o Estado. Muitos são vendidos para nobres, enquanto outros são transformados em penitenciárias ou quartéis. O início da recuperação da cidade só começaria após o final da Guerra Civil Espanhola, quando Madri vive uma intensa industrialização que viria afetar a vizinha Alcalá. A casa começa a ser colocada em ordem: em 1968, seu conjunto arquitetônico é declarado Histórico-Artístico, e, em 1977, a universidade local volta a funcionar. Finalmente, depois de quase dois séculos, a veia cultural recomeça a ser percebida. Os quartéis voltam a ser ocupados por estudantes e, em 1988, o Patrimônio Histórico Mundial tomba a parte antiga de Henares. Surge o lema Recuperar Alcalá, numa clara alusão aos anos de glória. Essa retomada cultural é claramente vista nas ruas, por onde se vêem esculturas e na grande oferta de produtos culturais. (F.M.) |
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