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ALCALÁ DE HENARES V Uma universidade feita de pura História A surrada expressão uma cidade nasce do sonho dos homens, encontra, em Alcalá de Henares, sua mais perfeita tradução. De região medieval tosca e sem jeito, ela tornou-se num importante centro renascentista a partir da insistência de um religioso, que nela quis implantar uma universidade onde padres pudessem entender a filosofia e a teologia. Não por luxo, ou por arrogância. O franciscano cardeal Cisneiros entendia que, além de religião, o espírito humano também necessitava de conhecimento. Isso em pleno final do século 15. A fundação mais primitiva da Universidade de Alcalá é justamente seu edifício-símbolo, o Colégio Mayor de San Idelfonso, de 1499. Com sua chegada, outros colégios menores foram surgindo, trasformando Alcalá em um importante lugar para a expansão cultural espanhola. A vontade de construir na cidade um pólo de estudos, porém, era mais antiga, e remontava ao ano de 1293, quando o rei Sancho 4º tentou erguer ali uma universidade, em vão. O sucesso do centro formado por Cisneiros, séculos depois, se deveu muito ao poderio de reis, papas e cardeais. Em plena reforma eclesiástica, era interessante que uma cidade agregasse o maior número possível de instituições voltadas à ordem divina. A escolha de ótimos professores também influenciava essa realidade. Para Cisneiros, também era vital que a instituição influenciasse o governo da época, participando da estrutura do poder e da sociedade. Permanecer fechado em um castelo de marfim, ação típica das escolas medievais, era um pecado para o franciscano. A reforma eclesiástica também produziu a Bíblia Poliglota Complutense, escrita em quatro línguas (grego, latim, aramaico e hebreu). Essa é a época de maior esplendor da Universidade de Alcalá. Por ela, passam acadêmicos como o escritor Francisco de Quevedo e Santo Ignácio de Loyola. Uma cidade universitária se forma, dando traçado novo a ruas e criando praças. Criam-se colégios menores, como o Santa Catalina (física), o San Eugenio (estudo de línguas), Santa Balbina (lógica) e San Isidoro (gramática e estudo do grego). Diz-se que Cisneiros encarregou inspetores para realizar, anualmente, visitas à instituição. Nelas, professores e alunos eram interrogados e testados, para que se pudesse medir o nível de conhecimento de cada um. Até 1836, quando se muda para Madri, a Universidade de Alcalá de Henares continua a formar boa parte da intelectualidade que reside em cidades próximas, como a própria capital da Espanha. Depois do fechamento, com os edifícios tomados por prisões e quartéis, o local entra, durante exatos 141 anos, em decadência. CARA SOCIALISTA Em 1977, Alcalá (que nesse momento já faz parte da Comunidade Autônoma de Madri) recebe novamente sua famosa universidade. Desde então, é claro o intento da instituição em novamente se tornar um grande centro produtor de conhecimento e cultura. Um dos recursos utilizados para essa retomada é a chegada de estudantes de outros países para a instituição. Segundo o vice-reitor de Relações Internacionais da Universidade de Alcalá de Henares, Luiz Beltrán, existem vários projetos de intercâmbio em andamento. Temos parcerias com várias universidades de quase todas as regiões do mundo, desde a América do Sul até a Oceania, diz. Uma das características mais interessantes dessa velha nova universidade é uma face sutilmente solidária. Mantemos contato com lugares como Cuba, Argélia e Madagascar. São regiões que despertam nossa simpatia diz Beltrán, lembrando que a universidade oferece ajuda, como o envio de equipamentos e computadores, para instituições presentes nas cidades menores dos países mais pobres. Também mantemos contato com uma universidade de Guiné Equatorial. Sabemos que não é um país democrático, mas, a nosso ver, é justamente com a educação que podemos transformar as pessoas e, por tabela, a sociedade, continua o vice-reitor. Grande parte destes estudantes chega através da Agência Espanhola de Cooperação Internacional, que oferece recursos para a manutenção do alunado no local de ensino (geralmente, a universidade custeia a matrícula e a viagem e o governo se encarrega de pagar a mensalidade). Os programas mais famosos da UAH são o Sócrates e o Erasmus, que promovem o intercâmbio com outras instituições européias (atualmente, a universidade possui convênio com cerca de 200 outras escolas superiores). Muita gente chega aqui sem saber dizer hola, e, depois de três meses, já consegue se comunicar bem em aula, conta Luiz Beltrán. LOS BRASILEÑOS A Universidade de Alcalá de Henares possui alguns intercâmbios com universidades brasileiras, como as federais de Salvador, Belém, Santa Catarina e Rio de Janeiro, além da Estadual de Londrina e da Universidade Católica de Pelotas. Apesar do número expressivo de instituições, ainda não existe um programa de convênio oficial para o Brasil, nos moldes do Erasmus ou Sócrates. Essa realidade pode mudar com a nova proposta educacional, ainda não oficial, de transformar o espanhol em segunda língua nacional. Para nós, é importante manter contato com o Brasil, e especialmente com suas regiões mais pobres, como o Nordeste, revela Luiz Beltrão, declarando-se apaixonado pelo Recife, cidade onde já esteve duas vezes. Chegou inclusive a conhecer o sociólogo Gilberto Freyre. Atualmente, são oferecidos na UAH cursos na área médica, que são realizados nas Faculdades de Ciências Experimentais (medicina, farmácia e ciência) e no Hospital Universitário (no campus, onde também está o jardim botânico). Na parte antiga, funcionam as faculdades de Letras, no famoso edifício-sede da antiga Universidade Complutense. O Convento dos Mínimos abriga a Faculdade de Ciências Econômicas e Empresariais, enquanto o bonito Colégio de Málaga recebe os alunos de letras e filosofia. O concorrido curso de Direito (que recebe centenas de alunos estrangeiros), é ministrado no antigo Colegio dos Jesuítas. (F.M.) |
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