
VÍDEO
Filme
passa a limpo a história do Chantecler no Teatro Arraial
por Marcos
Toledo
Ninguém poderia dizer ao
certo quantas pessoas - quase todas homens -, que moram
no Recife, teriam freqüentado uma das mais famosas casas
noturnas de todos os tempos na cidade, a Chantecler. Mas,
entre estas, quem não tiver vontade ou oportunidade de
ir, hoje, ao lançamento do vídeo Chantecler: A Dama da
Noite, de Mariângela Galvão, se acometerá de um
tormento de haver perdido a chance de reconstituir
momentos marcantes da própria vida. A avant-première
acontece no Cineteatro Arraial, a partir das 18h.
A reconstituição dos
fragmentos de memória, por sinal, é o grande mérito do
vídeo, que não prima por um trabalho de arte mais
minuncioso. Sente-se no produto final a necessidade de um
maior afinco. Mas o tema parece ter vida própria; o
prédio parece ter vida própria.
O edifício que dá nome
ao título do vídeo foi, segundo levantamento de
pesquisa da diretora, uma das mais famosas casas noturnas
do Recife Antigo. Funcionou como boate, adotando porém
diversos perfis: do glamour e prazer da chamada
época de ouro (os anos 50), até a
decadência da mera e rotineira batalha (nos
80).
O documentário de
Mariângela Galvão, jornalista pós-graduada em cinema,
reúne basicamente duas vertentes sobreviventes dos idos
do Chantecler: de um lado os boêmios e curiosos do
prazer de classe média, hoje, formados médicos,
advogados, políticos ou empresários; do outro,
prostitutas, ex-prostitutas, ex-donos, ex-dançarinas e
garçonetes da referida casa. E é nítido no trabalho o
quanto o tempo foi cruel para estes últimos.
O vídeo adquire uma
caracterização social. De quebra, há ainda o aspecto
cênico-burocrático da sociedade: a subvenção de
políticos, proprietários e investidores que tentam dar
um destino menos melancólico ao edifício, que não seja
a destruição total. E é esse lado melancólico da
história que prevalece em Chantecler: A Dama da Noite.
Mas não deveria, e o telespectador pode aprender isso
com os próprios personagens menos favorecidos da famosa
boate.
Mesmo amargando uma
humildade forçada, Maria Magra, Marisa Helena e,
certamente, muitas outras escondidas em algozes cortiços
optam por recordarem do Chantecler dos melhores prazeres,
das melhores danças, dos melhores clientes - de cama e
de balcão.
O documentário conta
indubitavelmente com depoimentos fortes e nostálgicos;
as imagens de abandono - material e humano - forçam
mesmo os indivíduos mais novos a ressentirem-se do
sepultamento de tamanhas histórias, entre quatro paredes
e escadas úmidas. Mas falta poesia. As imagens,
sobretudo as iniciais, são ademais brutas. O prédio,
talvez o mais bonito do Recife Velho, carece de tomadas e
enquadramentos mais pitorescos, mais música, mais
poesia.
De alguma maneira,
Mariângela e o fotógrafo Patrick Tresch tentam
compensar mais essa dívida para com o Chantecler com as
interessantes tomadas rodadas em película 16mm,
encarregadas de abreviar o tempo entre a casa de prazeres
do passado e o prédio em ruínas do presente.
O vídeo se mostra
necessário e, ao final, alimenta uma vontade comum a
todos (com raras exceções) de que surjam ali o café
concerto e cinemas prometidos, para que a história do
Chantecler não se encerre num mero fechar de portas.
Serviço
Lançamento do vídeo
Chantecler: A Dama da Noite, de Mariângela Galvão.
Cineteatro Arraial (Rua da Aurora, 457, Boa Vista), hoje,
18h. Entrada franca
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