
HISTÓRIA
Pernambucano
desbrava período holandês Professor do Departamento de Ciência da
Informação da Universidade Federal de Pernambuco,
coordenador do Projeto Ultramar e executor da pesquisa do
guia de fontes para a história do Brasil holandês,
Marcos Galindo está fazendo uma verdadeira garimpagem
nos arquivos dos Países Baixos. Ele afirma que os
documentos resgatados provocarão mudanças importantes
no conhecimento estabelecido sobre este período
colonial, ainda pouco explorado. Toda a parte de
anexos - apensos aos processos e documentação principal
- não foi copiada pelas missões documentalistas
anteriores. Podemos dizer que se trata de um dos mais
ricos e importantes arquivos coloniais brasileiros, ainda
inacessíveis. Confira os principais trechos da
entrevista concedida à repórter Cleide Alves.
JORNAL DO
COMMERCIO Quais são os pontos fundamentais desse
trabalho?
MARCOS GALINDO A acessibilidade é o
ponto fundamental. Sem se prover acesso a estes
documentos históricos, estaremos eternamente privados de
um debate amplo sobre o período e sobre as
conseqüências históricas do processo colonial. O
domínio colonial holandês é um ponto chave na
formação da nacionalidade brasileira. Se o projeto
colonial holandês tivesse vingado, certamente o quadro
político, econômico e social da América Latina seria
totalmente distinto. O tema foi tratado com maestria
pelos mais importantes historiadores brasileiros, a
exemplo de Evaldo Cabral de Melo e José Antônio
Gonsalves de Mello, mas percebe-se a necessidade de
ampliação do quadro discursivo para outros
empreendimentos empíricos e teóricos. Muitas perguntas
sobre a economia, a sociedade e a relação com os povos
nativos ainda estão por responder.
JC O senhor pode adiantar o que alguns
desses documentos revelam?
GALINDO O episódio do alemão Jacob Rabe
pode ser um bom exemplo de como a documentação que
está sendo evidenciada pode romper com tradições que
não se apóiam em base factual histórica. Recentemente,
a Igreja Católica Brasileira beatificou os mártires
do Açu, trucidados pelos tapuias do Rio Grande do
Norte, e comandados pelo aventureiro e empregado da
Companhia das Índias Ocidentais, Jacob Rabe. À primeira
vista, parece realmente claro que os Demônios
Nativos tivessem promovido um injustificável crime
contra os cristãos. O fato se deu, mas a documentação
existente nos arquivos holandeses, brasileiros e
portugueses mostram detalhes que, ao meu ver, foram
manipulados para apoiar um projeto ideológico da igreja
contemporânea. Os documentos evidenciam que havia uma
guerra intestina, e que os grupos indígenas do litoral e
do sertão do Rio Grande do Norte vinham sendo
massacrados e espoliados sistematicamente pelos
portugueses, durante pelo menos um século; antes,
portanto, da chegada dos holandeses. A documentação
pode, por exemplo, contribuir para retirar a névoa
ideológica que cobre os fatos, e recuperar o papel dos
povos nativos no Brasil colonial. Há 500 anos repetimos
a mesma história, irreal, dirigida e tendenciosa.
JC Quais são os resultados das visitas
aos arquivos notariais de Amsterdam?
GALINDO Este é um dos acervos mais
promissores da Holanda. Foram pouco explorados e até
certo ponto negligenciado pela historiografia brasileira
e holandesa. Os arquivos abrigados no Gemeentearchief de
Amsterdam perfazem um total inacreditável de 34
quilômetros lineares de documentos, onde se conservam
cerca de 20 mil protocolos notariais (tabelionato) que
perfazem aproximadamente 2,5 quilômetros lineares de
documentação. Contudo, apenas uma parte de seu
conteúdo está tratada e disponível. Nos arquivos dos
tabeliões de Amsterdam estão registrados um tesouro
informacional acerca do Comércio Atlântico, não
somente no período de dominação holandesa no Brasil,
mas anterior e posterior, abraçando quase três séculos
de relações comerciais inter-atlânticas. Deles pode-se
extrair os números deste comércio, natureza de mercados
e até assuntos pessoais.
JC - Por exemplo?
GALINDO O comércio do Pau Brasil,
relegado a um plano secundário no comércio colonial,
aqui apresenta-se como um robusto mercado que alimentava
uma intrigada rede de monopólio na Europa, envolvendo
ingleses, holandeses e franceses, espraiando-se pelo
mercado de tecidos, que por sua vez retroalimentava e
retornava à colônia sob a forma de matéria-prima de
troca com índios e colonos, mesmo durante o período das
disputas luso-holandesas. Os registros de seguro e
reclamações sobre descumprimentos contratuais, ação
dos piratas oficializados pelo estado francês, contratos
de comércio operados principalmente por judeus
portugueses radicados na Holanda, são particularmente
interessantes.
JC O senhor disse que a documentação
poderá clarear dúvidas com relação a alguns nomes de
brasileiros, cristãos novos e judeus pernambucanos. De
que forma?
GALINDO José Antônio Gonsalves de Mello
e José Honório Rodrigues já haviam alertado para a
importância dos arquivos notariais holandeses. Neles se
encontram os registros de batismo, casamento e morte de
muitas figuras que marcaram presença na história
pernambucana. São textos fundamentais para esclarecer
dúvidas biográficas e estabelecer uma cronologia firme
de certos episódios que se deram no Brasil holandês.
Entre eles os cristão novos e judeus estão bem
registrados na memória das freguesias destas comunidades
e se mostram um material bastante útil. Acredito que os
arquivos notariais serão especialmente importantes pelo
ineditismo e podem desvendar os meandros da principal
atividade dos judeus, o comércio.
JC O que o senhor descobriu nos arquivos
visitados em Middelburg, na Alemanha?
GALINDO Nos arquivos de Middelburg, agora
reunidos no novo Zeeuwsarchief (Zelândia) esperávamos
encontrar algum material residual da Câmara da Zelândia
da Companhia das Índias Ocidentais. Destes arquivos
provêm os mais importantes registros para a história do
domínio colonial holandês no Brasil, uma vez que os
arquivos de Amsterdam foram vendidos como papel velho em
1821. Infelizmente não encontramos quase nada sobre a
Companhia das Índias Ocidentais. Entretanto,
conservam-se lá algumas minutas das resoluções
relativas à ação da igreja reformada no Brasil
(Minutas Classis). Outros registros que também se
mostram promissores neste arquivo são os acervos
provenientes da cidade de Veerge (Gemeent de Veerge),
recentemente incorporados ao arquivo de Middelburg, onde
encontramos interessantes contratos comerciais ainda
inéditos.
JC Que mudanças esses documentos irão
provocar?
GALINDO É preciso esperar pela
tradução e isso não acontecerá de forma imediata, o
volume de material a ser processado é imenso. O que
deverá ser feito é uma seleção criteriosa de
documentos, elaborada por especialistas a partir dos
catálogos, que servirá de base para um plano de
traduções a longo prazo. O trabalho que agora vem sendo
feito é o inventário sucinto do potencial arquivístico
na Holanda, procurando saber o que existe, onde e em que
condições de acessibilidade. Espera-se que o resultado
estimule novos pesquisadores que hoje não têm acesso à
informação histórica do período holandês,
principalmente pela barreira lingüística. E também que
novos historiadores sejam estimulados a estudarem o
holandês. Uma outra reação que já se esboça na
Holanda é o estímulo de historiadores holandeses que
até pouco tempo não tinham um real interesse nesta
parte da história.
JC Quantos documentos já foram
pesquisados?
GALINDO Nesta etapa da pesquisa não
estamos computando volumes exatos de documentação,
interessa-nos sobremaneira a identificação das fontes.
Contudo, uma avaliação metrilinear vem sendo procedida,
mas como ainda não está finalizado o inventário,
qualquer estimativa de volume documental seria parcial.
Pode-se adiantar, entretanto, que existe no Brasil apenas
uma pequena parcela do que vem sendo agora identificado.
Também não podemos falar, neste momento, em documentos
mais ou menos importantes. Todos têm um papel
fundamental no esclarecimento histórico. Quem poderá
falar sobre a importância dos documentos são os
historiadores, que farão, no futuro, usos destes textos
históricos.
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