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LITERATURA
A incompreendida e imortal George Sand

por Luzilá Gonçalves Ferreira

"A infelicidade da mulher acarreta a do homem, como a infelicidade do escravo acarreta a do senhor". Foi uma mulher que escreveu essas palavras em pleno século XIX. E por ter defendido o direito à felicidade de "metade do gênero humano" e que todos os homens pudessem viver livres e iguais, e por ter tentado por em prática essas idéias, Amantine-Aurore-Lucile-Dupin foi certamente a escritora francesa mais criticada, atacada, vilipendiada, em todos os tempos.

Deixada de lado pelos teóricos da literatura, renegada pela Igreja, ela nunca deixou de ter seus textos estudados nas escolas e colégios. Ao longo dos anos as edições de seus livros se sucederam, sobretudo aqueles destinados a um público infanto-juvenil e os romances sentimentais. Nos últimos anos, entretanto, o grande público e a Universidade redescobrem a obra dessa grande romancista e grande amorosa.

Seus inúmeros amores, idéias políticas, anti-clericalismo, tudo está sendo revisto e colocado em seu contexto histórico. E na releitura das obras e da vida se reencontram a justeza e a coragem de suas críticas e posicionamentos, o amor pela existência, a generosidade, a dedicação à família, a humildade em reconhecer os próprios erros, a ausência de vaidade literária, um admirável estilo e conhecimento do coração humano. E o exemplo que deu às mulheres na busca de sua afirmação enquanto cidadãs e seres humanos para além das convenções. Turgueniev, com quem ela manteve uma longa correspondência nos faz assim seu retrato:

"...Era impossível entrar no círculo de sua vida privada sem se tornar seu admirador... Cada um experimentava imediatamente o sentimento de se achar em presença de uma natureza infinitamente generosa, compreensiva, da qual todo sentimento de egoísmo fora há muito consumido pela chama inextinguível do entusiasmo poético... uma natureza que propagava de modo iluminado a compaixão, a necessidade de ajudar e, acima de tudo, uma espécie de auréola da qual ela não tinha consciência, algo de elevado, heróico..."

Para entender George Sand basta olhá-la viver, escreveu um biógrafo seu. Com efeito. Nascida em 1804 da união de um nobre com uma mulher do povo, tendo cedo perdido o pai, Sand cresceu entre a admiração e o amor pela avó, mulher culta que lhe ensina os bons modos e pela mãe plebéia, sem modos mas tão afetuosa..

Uma personagem complexa, entretanto Feminista a seu modo, ela denuncia o casamento sem amor e o direito da mulher à livre escolha do homem que partilhará sua existência, seja ele o marido ou o amante, mas não apoia as sufragistas da época, considerando que a mulher ainda não se achava preparada para votar. Dona de casa que soube transformar em um ninho o espaço doméstico de seu castelo de Nohant, onde vive com os filhos e recebe amigos, ela organiza seções de teatro e concertos aos quais são convidados os camponeses dos arredores.

Viajante e cidadã do mundo, ela volta a Nohant, seu lar, após cada desilusão sentimental ou política, e ali se refaz ao contacto com as forças da terra. Filha da aristocracia, ela se pronuncia contra a monarquia, vibra com as revoluções libertárias, mas a militante socialista termina apoiando, de algum modo, o conservadorismo. Organiza festas em Nohant, recebe de uma vez oitenta convidados que se disfarçam para o Carnaval ou assistem às representações das marionettes de Maurice, o filho querido, ao som do piano de Chopin. Sonha com uma sociedade onde todos seriam iguais mas, não admitindo a violência, lembra aos ricos a necessidade de sacrífícios e aos pobres a paciência. E no final da vida se transforma na "boa senhora de Nohant", que a todos socorre. Diante de seu corpo exposto sobre um banco na capela do castelo, desfilam Turgueniev, Dumas, Renan, o príncipe Napoleão, ao lado dos camponeses e moradores de suas terras, enquanto se lê o discurso onde Victor Hugo escrevera: eu choro uma morta eu saúdo uma imortal.

Duas grandes inspirações marcam a obra e a vida de George Sand: a política e o amor. Num livro recente, intitulado A mulher e a invenção de uma nova moral ( 1830-1848), Michèle Perrot mostra como as convições políticas de Sand derivam de sua experiência existencial, saída igualmente da nobreza e do povo. É uma mestiça social, uma filha da Revolução, da liberdade, do amor. Ao longo da vida, sua moral repousa sobre o sentimento da injustiça social, difícil de ser conciliada com a felicidade pessoal. Numa carta ao ator Pierre Bocage, que interpretava então uma de suas peças, ela confessa:

"Se eu fosse egoísta eu me sentiria muito feliz, mas como ainda não tenho o coração ressequido pela velhice, fico melancólica ao pensar que a calma e o bem-estar de minha casa e de minha família não dão paz nem comodidade, nem liberdade a milhões de seres humanos que não têm o necessário, É uma grande questão, saber se temos o direito de ser felizes às custas de miseráveis, e se não me retivessem as afeições domésticas, sei bem o que faria com meu castelo e minhas terras."

Ela acredita que a Revolução Francesa ainda não terminara. E a partir de 1834 sobretudo, ela se engaja na luta política. Entre 1842 e 1843 Sand edita, em sua província, L'éclaireur de l'Indre, jornal destinado a um público popular. Em abril de 1848 fundará La cause du peuple, onde critica igualmente os adeptos de Saint-Simon e de Fourier. A única coisa que aceita nos primeiros é sua reflexão sobre a propriedade privada, algo que deve ser objeto de redistribuição. E Fourier é um frio utopista. Ela sonha com um "comunismo social que assim explica em carta ao poeta Charles Poncey, em agosto de 1848: o comunismo social respeita a pequena propriedade individual mas instala uma "propriedade social" sobre as estradas de ferro, minas, canais, que pertencerão ao povo.

O fracasso da Revolução de 48 é uma decepção. No Segundo Império ela é vigiada, sua correspondência aberta., suas peças de teatro suscitam manifestações de estudantes, que saúdam a coragem de suas idéias. Que o povo aceitasse o Segundo Império, foi motivo de reflexão: é preciso que esse povo receba uma educação política e moral - pois não há política sem moral - que o leve à democracia. E a democracia não é o resultado de uma revolução mas de uma evolução.

O segundo grande tema da obra de Sand é o amor, com tudo o que ele acarreta na vida dos seres humanos e sobretudo das mulheres. Um assunto que ela conhecia a fundo. "O amor é o grande e único negócio das mulheres" essa a frase de Balzac que o século XIX francês repetira. Sand não a nega, mas toda a sua obra romanesca adverte para a escravidão que daí pode resultar, sobretudo no interior da instituição do casamento, que ela denuncia. Mais que os homens, as mulheres possuem uma grande aptidão para a felicidade, são mais bem dotadas para a vida, essa a descoberta que fizera logo cedo, quando de seu casamento com o insípido, vulgar e infiel barão de Dudevant, de quem ela divorcia ainda jovem. Mas o casamento tal qual se apresentava então, era uma situação desumana para as mulheres, pelo que a lei concedia aos maridos: direito ao adultério se consumido fora do lar, direito de morte sobre a mulher infiel, direito de decidir a educação dos filhos, direito de gastar a fortuna que a esposa trouxera como dote. Sand exige uma mudança nas leis, o direito à igualdade na diferença, pois o casamento faz das mulheres eternas menores. O casamento por amor era algo lindo, mas o casamento sem amor era odioso. Alguns críticos assinalam o modo como constrói os personagens do marido em seus romances: medíocres, acomodados e egoístas, quando os amantes são quase sempre atraentes, brilhantes, afetuosos.

Sand reivindica para as mulheres o direito a uma profissão, sobretudo aquelas que podem exercer no interior do lar: as profissões artísticas, como o fará sua personagem Valentine a pintora, o magistério, os trabalhos manuais, bordados, desenhos, feitura de bijuterias de artesanato, atividades que ela própria exercera antes de ganhar a vida como escritora, como o provam os objetos expostos no Museu da Vida Romântica, em Paris. As mulheres devem ter o direito de voto, mas só depois de obter a igualdade civil: o voto de uma escrava não poderia ser um voto consciente, ela votará sempre à direita.

O turista que visita hoje o castelo de Nohant, perto da cidadezinha de La Châtre, tem a impressão de que, a cada momento, surgirá diante dele o vulto de Amantine-Aurore- Lucile Dupin, baronesa de Dudevant. A mesa está posta para os amigos ou amados, cujos nomes se inscrevem ao lado dos pratos. E se imagina ali sentados Chopin, Lizst, Marie d'Agoult, Balzac, Sainte-Beuve, Merimée. Atrás da porta, a sombrinha que Sand utilizava em seus longos passeios pelos campos dos arredores, aguarda sua dona. E no quarto a escrivaninha, os tinteiros e as penas que usava, o leito de baldaquin. No teatro, as marionetes do filho Maurice, o piano com o qual Chopin e Liszt pontuavam as falas dos personagens, escritas por Sand. No grande parque, sob os ciprestes, as lápides dos túmulos lembram que ali estão os corpos de alguns parentes e da própria Sand. Dormindo profundamente. Silenciosa, enquanto sua obra continua nos falar, a agir em nós. Victor Hugo tivera razão: ali repousa uma morta. Imortal.

* Luzilá Gonçalves Ferreira é escritora

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Jornal do Commercio
Recife - 01.05.2000
Segunda-feira