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500 ANOS DE ARTE II Um mapa emocional para o Brasil No dia 1º de Maio de 1500, Pêro Vaz de Caminha, cavaleiro da Casa de Dom Manuel, escreveu uma carta para contar ao seu rei da terra recém-descoberta. A carta com oito mil palavras de encantamento, tida como a certidão de nascimento do Brasil, é guardada na Torre do Tombo, em Portugal, e só viaja em ocasiões solenes: esta é a segunda vez que vem ao Brasil, a primeira foi no aniversário de 400 anos da cidade de São Paulo. Desta vez, os escritos de Caminha farão um circuito mais extenso, a começar pela mostra Brasil+500, no Ibirapuera. Depois, seguem para Brasília (de 7 de setembro a 6 de outubro no Itamaraty), Rio de Janeiro (De 16 de outubro a 15 de novembro no Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro), Salvador (De 20 de novembro a 17 de dezembro no Museu de Arte de Salvador) e Recife (De 20 de dezembro a 21 de janeiro no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães). Para marcar os 500 anos do Brasil, a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses entendeu que ela não deveria ser vista apenas como documento, mas como um retrato vivo do que era e do que se tornou o Brasil. Foram convidados, então, 11 artistas portugueses que receberam a tarefa (e total liberdade) de pintar aquilo que foi tão bem descrito por Caminha. CONTEÚDO Os artistas que assinam os quadros foram escolhidos pela Associação Internacional de Críticos de Arte, que quis contemplar uma fatia extensa das artes plásticas portuguesas. Por isso, convivem nesta mostra artistas da década de 40, que introduziram a arte moderna no país, e outros que só começaram a produzir mais recentemente. A curiosidade que nos leva a apreciar esta exposição é a mesma que experimentamos no cotidiano, quando imaginamos qual seria a nossa imagem para o outro. O que está representado naquelas telas pode ser encarado como um mapa emocional do que é o Brasil. Não há como esquecer que o grande exercício lúdico, aqui, é fazer como se faz nas aulas do pré-escolar, quando a professora pede que a criança desenhe a família, a casa ou a escola. O que surgirá daí, na verdade, nem sempre será o retrato fidedigno do ambiente físico que a cerca, mas, principalmente, os seus sentimentos diante de um lugar ou uma pessoa com a qual são mantidos vínculos fortes. Está explicado, portanto, como o Brasil pode ser tantos brasis. Ao receber a tarefa de retratar abstrações como uma terra e um povo, os artistas podem cumpri-la com a transposição da realidade, a transmutação ou a combinação de ambos. EXPERIÊNCIAS Alguns autores preferiram se concentrar na descrição de Caminha, daí porque a preferência por uma pintura mais narrativa, que serviria como uma espécie de foto do que foi a primeira visão do escrivão. Costa Pinheiro, por exemplo, se utiliza de todas as imagens que povoam a mente de quem já leu os livros oficiais de História do Brasil. Lá estão o clero, a nobreza, os marinheiros, os nativos, flora e fauna. Uma idéia propositalmente ingênua e, até certo ponto, didática do que foi o Descobrimento. Júlio Resende, cujo trabalho magnífico pode ser visto até o dia 11 no Mamam, é uma das poucas exceções no uso das cores fortes, preferindo retratar a sua idéia de Brasil em tons suaves como o rosa e o lilás. A morenice nacional, que melhor seria retratada nas cores terrosas, vermelho, ocre ou laranja, parecem uma redundância que o pintor prefere evitar. Já o Brasil de Noronha da Costa é filtrado por uma difusa luz azul metálica de onde, no fundo, se entrevê uma figura feminina vestida de negro. Uma idéia que dá margem a diversas interpretações: um país cuja descoberta obrigou muitos a deixarem seus entes queridos para trás, envoltos na bruma que a saudade e o tempo produzem ou uma pátria que ainda não revelou sua identidade por inteiro? A mais jovem dos artistas convidados a dar sua versão de Brasil, Ana Vidigal, produz uma rede de cores que se entrelaçam e formam um padrão repetitivo. Onde está o Brasil afinal? Neste e nos outros quadros (Álvaro Lapa, Fernando Lemos, Graça Morais, João Vieira, José de Guimarães, Júlio Pomar e Nikias Skapinakis) cada visitante terá o prazer de se descobrir, como filho deste País retratado, neste olhar do outro descobridor. A viagem que este conjunto de obras proporciona, além de espacial é, sobretudo, temporal: um bilhete que só é emitido para quem abrir as portas da percepção. |
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