LG_jc.gif (3670 bytes)

BARCELONA
Turistas grafitam a maior obra de Gaudí

por FABIANA MORAES

Um dos maiores ícones turísticos de Barcelona, o Templo da Sagrada Família,do arquiteto catalão Antônio Gaudí, está sendo lentamente depredado pelos milhares de turistas que o visitam anualmente. Por todo lado, principalmente na parte interna das torres, vêem-se frases e rabiscos (do tipo John was here), além de mensagens em línguas como árabe, francês, chinês e mesmo português.

A agressão ao monumento, que começou a ser construído em 1882, constrasta duramente com a beleza do templo, e traz à tona uma questão: terá o chamado ‘sonho de Gaudí’ se convertido em uma obra mercadológica, preocupada apenas em atrair visitantes? De que adianta a polêmica construção (ainda em andamento) de uma catedral, se, aos poucos, ela já vem sendo destruída pelos mesmos turistas que chegam até ali para ‘admirar’ o traçado do artista catalão?

As perguntas são procedentes, e nascem já a partir do movimentado acesso ao templo. Em filas imensas, mesmo na baixa estação, gente de toda parte do mundo se acotovela para conseguir salgados tíquetes que custam de 800 a 600 pesetas (cerca de R$ 9 a R$ 7, respectivamente).

Já dentro da igreja, é preciso desembolsar mais 200 pesetas (quase R$ 3) para tomar um elevador que leva o visitante até a parte mais alta. A outra opção é subir as estreitas torres, sempre engarrafadas pelos turistas. Aqui, é necessária uma paciência de monge: chegar até o final pode lhe custar muitos minutos de espera, em um local totalmente escuro. Os claustrofóbicos não devem se aventurar pelo local.

Ao que parece, são justamente nessas ‘paradas’ que os turistas aproveitam para deixar gravada nas paredes a sua passagem. É impressionante como toda a extensão das oito torres erguidas (ainda faltam construir mais dez) está totalmente rabiscada, até mesmo com o uso de objetos cortantes. Impressos nas paredes que Gaudí desenhou, estão corações, mensagens apaixonadas ou, simplesmente, o nome de uma pessoa que passou pelo local. Um mistério: quem, em sã consciência, acredita que o resto do mundo está preocupado em saber sobre sua visita ao templo?

Segundo a integrante do Patronato da Sagrada Família, Teresa Martinez, conter a ação depredatória dos turistas é uma tarefa quase impossível. “Já tentamos amenizar a situação, limpando parte das inscrições. Mas é difícil conter a ação selvagem de alguns turistas”, diz.

Talvez essa dificuldade seja ainda maior por conta da inexistência de um tipo específico de multa para quem for pego rabiscando ou praticando qualquer outro ato de vandalismo. “Hoje, a pessoa que é pescada pelos seguranças é apenas repreendida”, continua Teresa Martinez. Uma das medidas que vêm sendo pensadas pela associação que coordena o templo é o revestimento das torres com uma camada de pedra mais dura, que impossibilitasse ou tornasse mais difícil a grafitagem. A idéia, por enquanto, ainda está no papel e não existe previsão de quando poderia ser posta em prática. Infelizmente.

COCA COLA E GAUDÍ – Atualmente, Barcelona só perde em número de turistas para a óbvia Paris. A Sagrada Família é justamente o monumento mais visitado da cidade. Em 1998, 1.094.015 mil turistas subiram as escadarias das imensas torres.

A igreja faz parte de um roteiro procurado por 90% daqueles que chegam à cidade, o Roteiro Gaudì, onde são vistas as obras mais representativas do catalão, como o Parc Güell, a Casa Batló, a La Pedrera e, claro, a Sagrada Família.

A construção, que já nasceu polêmica, é visitada, segundo informações do Patronato da Sagrada Família, por muitos espanhóis (vascos, andaluzes, madrilenhos), italianos, franceses, ingleses, americanos e japoneses. A grafitagem, no entanto, não pode ser atribuída a nenhuma nacionalidade de turista específica, como faz questão de frisar Teresa Martinez.

Além da lenta depredação, outro fator salta aos olhos de quem visita o templo: a cara meramente comercial que se impôs no local, inclusive nos arredores. A aura mística e sagrada proposta por Gaudí não se mescla às inúmeras placas vistas ao redor da igreja, onde se vendem paellas e sanduíches de jamón. Dentro da Sagrada Família, a máquina de refrigerantes destoa das imagens cristãs.

Outro grande problema é o número absurdo de turistas que visita simultaneamente o espaço. Além de facilitar, e muito, ações como a citada grafitagem, a lotação impede uma apreciação no mínimo decente do local. Pode-se passar horas para conseguir entrar na igreja ou chegar até o final de uma das torres.

Esse fluxo de gente chega mesmo a afastar muita gente que vem apreciar o templo. É comum ver pessoas desistindo de entrar na igreja após se deparar com o amontoado humano que se forma frente aos portões. É claro que as obras precisam continuar, e para isso é necessário o dinheiro que o turismo traz.

Mas, se um dos monumentos mais famosos do mundo, não for tratado e valorizado como tal, essa mesma atividade turística tende a cair. Uma prova disso é a saída encontrada por muitos turistas, que preferem sentar-se na praça em frente à Sagrada Família, depois que se deparam com a multidão perto das catracas. Atualmente, é a melhor forma de se conhecer a grandiosa obra de Antônio Gaudí.

_________________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 01.06.2000
Quinta-feira