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TEMPORAL IV
ENCHENTE ARRASA PALMARES

por Ricardo Novelino

Palmares, 9h de ontem. No município pólo da Zona da Mata Sul de Pernambuco, distante 121 quilômetros do Recife, as cenas eram típicas de uma guerra. Homens do Exército e do Corpo de Bombeiros, montados em quatro botes de borracha, atravessavam ruas transformadas em rios, brigando até contra fortes correntezas para salvar as pessoas dependuradas em telhados e no alto das árvores. Na luta pela sobrevivência, centenas de pessoas andavam atordoadas para escapar de uma das maiores enchentes da história da cidade de 70 mil habitantes.

O temporal dos últimos dias provocou o transbordamento do rio Una, que inundou pelo menos oito bairros, deixando, de acordo com os primeiros cálculos, 12 mil desabrigados. No Hospital Regional, um dos maiores de toda a região, a água atingiu o primeiro andar, destruiu os equipamentos, obrigando os voluntários a fazer um resgate dramático de 160 pacientes, sendo 14 em estado grave. A ponte da BR-101 Sul foi interditada e, no final da tarde, já sofria com o aumento de volume do rio, que cobria a pista. As pontes de Santa Terezinha e Japaranduba caíram e um voluntário estava desaparecido até às 17h.

Sem água, luz, cortada ainda de madrugada, e telefones convencional e celular, a cidade estava realmente ilhada, dando muito trabalho aos centenas de voluntários e 70 homens de seis grupamentos de bombeiros da região, além de quatro guarnições do Exército. Na localidade das Pedreiras, junto ao rio, pelo menos 40 casas foram comprometidas pela água e toda a comunidade ficou submersa.

A enchente também atingiu em cheio a Cohab I, a Usina 13 de Maio, Santo Onofre e Santa Luzia, que tiveram desabamentos de barreiras. No Centro, o volume de água chegou a mais de dois metros em algumas ruas, cobrindo carros e arrastando botijões de gás, além de animais mortos. Pelo menos 15 casas caíram. “Eu nunca vi isso desse jeito. As barragens de Panela de Miranda e Cupira transbordaram de madrugada e o rio começou a subir de repente e ninguém conseguiu salvar nada”, afirmou o voluntário José Carlos Barros dos Santos, 21, que estava ajudando a retirar as pessoas dos locais mais prejudicados.

A enchente do rio Una pegou o comércio de Palmares de surpresa. No pátio da Sulanca e na feira o sinal era de desespero. “Eu posso afirmar que o prejuízo do comércio é de no mínimo R$ 10 milhões”, declarou Sinho Bezerra da Silva, dono do Hotel Poeta dos Palmares, o maior da cidade. “Muita gente quebrou hoje, pode ter certeza. Eu acho que no frigorífico em que eu trabalho já passou dos R$ 500 mil”, acrescentou Ludimar de Oliveira, funcionário do Friscal.

Nem o poder público conseguiu escapar da força das águas. A rua da prefeitura municipal ficou intransitável. O Fórum, o cartório e Casa da Justiça foram inundadas, tendo o volume da enchente alcançado mais de 1,7 metro de altura. “Não fomos lá ainda, mas já imaginamos o prejuízo. Não sei como vai ser possível fazer uma eleição em outubro”, lamentou Noel de Paula, funcionário da Justiça.

O drama de Palmares foi acompanhado de perto pelo representante da Secretaria de Saúde do Estado, Eduardo Sá Barreto. Desesperado, após passar a noite ilhado no Hospital Regional, conseguiu ser resgatado pelos bombeiros, completamente molhado e ansioso em encontrar um telefone público para repassar as informações ao governo. “Precisamos urgentemente de soro, remédios para dor e para problemas respiratórios”, disparou.

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Jornal do Commercio
Recife - 03.08.2000
Quinta-feira