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VIDA & CIÊNCIA

De ratos e homens: enigmas científicos

por Ademar Freire-Maia*

De acordo com matéria publicada recentemente no Jornal do Commercio e transcrita no Jornal da Ciência Eletrônico, da SBPC, uma espécie de rato pré-histórico foi considerada, até há pouco tempo, como existente exclusivamente em Fernando de Noronha, a 540 km de Recife.

O mamífero pertence a um gênero novo (Noronhomys), descrito no ano passado por pesquisadores americanos, os quais acreditavam se tratar de um animal endêmico de Noronha, isto é, que só existiria lá. E, no entanto, ele foi também encontrado agora na Argentina.

É possível que a distribuição do rato tenha se estendido por toda a América do Sul, mas o fato é que ele ainda não foi sequer encontrado no Brasil continental. Além disso, parece pouco provável que ele tenha chegado à Argentina transportado por navios ou levado por correntes marítimas.

Não sabendo como o roedor pôde existir em dois lugares tão distantes, sem nenhum vínculo conhecido, os pesquisadores consideram-se diante de um verdadeiro enigma biogeográfico. Essa descoberta me lembrou, imediatamente, um outro enigma científico, agora humano, mas também brasileiro. Em vez da Argentina, nosso “parceiro”, no caso, é Porto Rico.

Essa história começou em março de 1929, há mais de 70 anos portanto, quando uma revista científica americana publicou uma nota, com uma fotografia e um sugestivo e curioso subtítulo: “The Brazil Family: Acheirpodia”.

A foto publicada foi descrita pela própria revista como sendo de uma família “extraordinária”. Um casal normal, consangüíneo, teve 12 filhos, sendo 6 normais e 6 portadores de uma malformação congênita extremamente grave e, até então, desconhecida na literatura médica e científica. As pessoas afetadas nasceram sem as mãos e os pés, razão pela qual foi dado à anomalia o nome de “aquiropodia”, palavra de origem grega que significa exatamente isso.

Mas não é toda malformação com ausência de mãos e pés que pode ser chamada de aquiropodia. Trata-se, aqui, de uma anomalia muito específica, que inclui ausência dos cotovelos, dos antebraços e das fíbulas, com redução das tíbias, além de outros pequenos detalhes.

Essa família, de Guarapuava (PR), que ficou famosa na literatura médica, foi amplamente referida, muitas vezes de maneira equivocada, em diversos livros-textos de biologia, medicina, genética, embriologia e patologia, tanto no Brasil quanto no exterior. O erro somente foi corrigido cerca de 30 anos mais tarde, graças a um amplo reestudo da família, feito pelo dr. Newton Freire-Maia e equipe, da UFPR.

Nas últimas décadas, graças ao trabalho desenvolvido por pesquisadores brasileiros, algumas dezenas de outras famílias foram localizadas em nosso País e amplamente estudadas em 10 Estados, desde o Nordeste até o Sul. Hoje, a anomalia está amplamente conhecida em relação aos diversos aspectos estudados, tais como os genéticos, bioquímicos, epidemiológicos, anatomopatológicos, radiológicos, e outros.

Nos próximos dias, o conhecimento científico sobre essa importante malformação congênita será enriquecido com o envio para publicação, em uma revista científica especializada, de nível internacional, de um trabalho, já pronto, de uma equipe de pesquisadores americanos e brasileiros, especificando a localização do gene da aquiropodia no cromossomo 7 humano.

Mas, apesar de todos os grandes avanços feitos, o aspecto mais marcante e característico da aquiropodia – e que lhe dava uma posição única na literatura médica e genética – é que a distribuição geográfica da anomalia parecia estar restrita a um único País: o Brasil.

De fato, até há alguns anos, todos os casos descritos eram brasileiros e todos os casos brasileiros eram (e continuam sendo) de origem portuguesa. Mas, a anomalia jamais foi descrita em Portugal ou, até então, em qualquer outro País.

Até que, há poucos anos, surpreendentemente, dois pesquisadores americanos publicaram um trabalho relatando a existência da aquiropodia em uma família de Porto Rico.

Tanto quanto se sabe, esse foi, de fato, o primeiro caso documentado de aquiropodia fora do Brasil. Entrei em contato com os colegas americanos e eles me confirmaram que a família não tem conhecimento da existência de ancestrais brasileiros ou portugueses.

Nessas circunstâncias, estamos de novo diante de um enigma científico. Dada a extrema raridade da anomalia, e sua concentração quase exclusiva ao Brasil, como explicar seu aparecimento em Porto Rico? Pelo menos algumas perguntas podem ser feitas de imediato: (a) os aquirópodos porto-riquenhos teriam, por acaso, algum ancestral brasileiro, mas de origem mais remota e não conhecida? (b) teria ocorrido uma outra mutação genética em Porto Rico, admitindo-se – como se admite – que todos os casos brasileiros têm uma única origem genética?

A ciência vive de enigmas, suspense e surpresas. Se, por um lado, isso lhe tira o ar de suposta certeza, que o leigo de maneira equivocada muitas vezes lhe atribui, por outro dá, ao cientista, o estímulo para novas investigações. Além, é claro, a necessária humildade para reconhecer que o que ontem aceitamos como verdade, hoje poderá se revelar como erro ou, pelo menos, como ignorância.

Nas palavras de Newton Freire-Maia, irmão, mestre e modelo exemplar de cientista e pessoa humana, “o caminho em busca da verdade é tortuoso e cheio de imprevistos”. Mais ainda: “a ilusão do problema resolvido é próxima demais: o cientista é míope”. Pessimista? Não: realista. Mas também há compensações. E que belas compensações!

Nas palavras ainda de Freire-Maia, “o jovem que deseja ser cientista – e à ciência dedicar todo o seu tempo e amor – tem pelo menos três certezas: a de que morrerá um dia (como todo mundo), a de que não ficará rico (como quase todo mundo) e a de que se divertirá muito (como pouca gente)”.

* ADEMAR FREIRE-MAIA é professor de pós-graduação da Unesp, assessor da Reitoria (afastado para a Secretaria de C&T/SP) e autor de Guerra e Paz com Energia Nuclear (Ática) e Sociedade, Medicina e Genética (Vozes)

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Jornal do Commercio
Recife - 03.11.2000
Sexta-feira