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ARTIGO

O grito das cidades

por Álvaro Menezes*

Há algum tempo atrás, as grandes cidades brasileiras despertavam um enorme fascínio para todos que buscassem melhor qualidade de vida. É claro que o enfoque maior era o financeiro, diretamente associado a oportunidades de negócio, emprego, trabalho e desenvolvimento econômico, profissional e, até mesmo, social. Em razão deste interesse, os governos investiram bastante na implantação de infra-estrutura durante certo tempo. Com recursos financeiros relativamente abundantes, não foi difícil melhorar o nível de atendimento com sistemas de abastecimento de água, atingindo nas cidades índices muito bons. Fortalecidos pela motivação do milagre brasileiro, outras áreas importantes para a infra-estrutura das cidades e algumas zonas que se urbanizavam foram também beneficiadas com sistemas de drenagem e vias urbanas pavimentadas, por exemplo.

Trinta anos atrás, pode-se afirmar com certo grau de segurança, que os serviços de abastecimento de água para as cidades estava em franca expansão. Acelerava-se a redução no déficit de cobertura e estava em construção grande parte dos sistemas que existem até hoje nas médias e grandes cidades brasileiras. Para seus moradores e governantes, água para o povo não era problema e sim, uma mera questão de planejamento ou decisão de implantar um novo sistema ou parte. Normalmente os sistemas de captação, reservação e macrodistribuição já estavam prontos e dimensionados para atender com folga durante vinte anos; os mananciais ainda eram muitos e livres de poluição; se construía redes de abastecimento de água antecipadamente para atender à expansão das cidades, relativamente controlada à época. Desta forma era só o povo pedir, a água chegar às torneiras e os políticos correrem para conferir o resultado nas urnas.

Tecnicamente não é muito difícil explicar o que aconteceu com as grandes cidades ou, melhor dizendo, com a maioria das cidades brasileiras: redução quantitativa e qualitativa dos mananciais disponíveis, superação da vida útil dos sistemas de abastecimento de água implantados, obsolescência de unidades do sistema, perdas de água, explosão demográfica, urbanização descontrolada, falta de planejamento, falta de investimentos em manutenção e na operação dos sistemas, falta de modernização e de projetos de engenharia para ampliação dos serviços, má gestão das prestadoras dos serviços de abastecimento de água etc. Tais explicações isoladamente ou, normalmente em conjunto, conseguem justificar porque é tão comum hoje voltar a ouvir falar em falta de água, racionamento, rodízio, manobras operacionais e tantas outras expressões técnicas que, em resumo, significam que a oferta de água nas cidades não atende satisfatoriamente à demanda.

O grito das cidades que se escuta a partir das dificuldades enfrentadas para se compatibilizar as necessidades da população com as condições capazes de serem alcançadas; das limitações dos Governos para suprir tantas prioridades; dos sufocantes congestionamentos ou da falta de estrutura nas zonas urbanas, não é tão agudo quanto o que se ouve em função da falta de água. Silenciar este grito não é apenas um simples exercício de planejamentos plurianuais ou de obras de engenharia, facilmente implantadas quando se dispõe de dinheiro. Silenciar este grito é, antes de tudo, entender que não se resolve em um ano problemas que já se tornaram crônicos. Silenciar este grito é estabelecer como prioridade um claro e transparente programa de saneamento ambiental, tendo como objetivo o homem, sua saúde e sua vida. Silenciar este grito passa sem dúvida pela continuidade administrativa de governos que coloquem o povo realmente em primeiro lugar, dando exemplo de seriedade e compromisso.

No Brasil não faltam amostras de cidades onde a falta de água é uma realidade por várias razões. Muitas sofrem permanentes ou periódicos momentos de rodízio no abastecimento de água outras, aguardam com ansiedade o início de obras e/ou projetos. Recife e sua Região Metropolitana conseguiram desde o ano passado sentir o real significado dos gritos de uma cidade, a partir de um Governo que transformou seus ecos em um dos mais importantes programas de projetos e obras em desenvolvimento no país: o Águas de Pernambuco. Seu objetivo não foi silenciar os gritos das cidades com obras de caráter temporário e imediatistas. Cada vez mais este programa se fortalece com projetos que buscam estabelecer soluções adequadas ao porte e ao futuro da Região Metropolitana e do Estado, implantando obras estruturadoras que levarão ao fim dos problemas de falta de água que hoje atinge algumas zonas da Região Metropolitana e do Estado de Pernambuco.

* Álvaro Menezes é engenheiro civil e diretor técnico da Compesa


Jornal do Commercio
Recife - 06.09.2000
Quarta-feira

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