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MÚSICA
Embrião do gênio de Irará volta em mutação digital

por José Teles

Providenciem escudos, bandeiras, tranquilizantes, antiácidos, anfiséticos e reguladores intestinais. Volta às lojas, 32 anos depois, o disco de estréia de Tom Zé (originalmente lançado pela gravadora pernambucana Rozemblit). Tom Zé (Sony Music), estava há anos fora de catálogo, seu retorno deve-se ao abnegado escritor e compositor Carlos Rennó, que conseguiu reaver as matrizes da antiga extinta Rozemblit, agora na Polydisc. O disco recebeu um tratamento tecnológico, que aprimorou seu som, preservou a capa original, acrescida de um texto de Rennó (a frase que abre esta matéria foi pinçada do texto assinado por Tom Zé na contracapa). Melhor ainda, o CD vem com as letras, o que não acontecia com o LP. O cidadão mais ilustre de Irará, conversou com o Jornal do Commercio, sobre seu primeiro disco e otras cositas mas.

JORNAL DO COMMERCIO – Tom, 32 anos depois, o disco ainda continua atual?
TOM ZÉ
– Sobre a atualidade de Namorinho de Portão, lembro-me da regravação do pessoal da Penélope e do videoclipe que fizeram. Mostram que sempre há uma pena para coçar o nariz das instituições: casamento, família, formas de corte e acasalamento. Falei de um jeito que parece a National Geographic. Ora, parece que há alguma permanência nesses beliscões nas gorduras dos costumes. De resto, há temas ainda pertinentes no disco de 68: o crediário, o bem-estar existencial que a sociedade de consumo tenta fazer crer que vem enfiado no tubo de dentifrício, as boas maneiras que não querem apenas revestir mas substituir o que deveriam ser princípios.

JC – Sua música questiona a sociedade da época, que aliás não mudou muito, e acaba, como todo humorista, sendo um pouco moralista.
TZ
– Encrenqueiro e observador acaba indo para o terreno moral. É inevitável. E acaba questionando também a aplicação da moralidade, com seu tanto de humor, ou vira um tédio. Quem faz música também precisa se divertir com ela. Eu tento.

JC – Sua discografia vem sendo relançada meio aleatoriamente. Discos fundamentais continuam inéditos em CD. Há algum projeto para relançar, por exemplo, Estudando o Samba?
TZ
– Há outros títulos a serem relançados daqui a alguns meses. Charles Gavin, dos Titãs, está fazendo esse trabalho para a Warner. Estudando o Samba e Todos os Olhos.

JC– Como você vê todo este reinteresse em torno de sua obra
TZ
– Outro dia vi um curta de uma nova cineasta, Carla Gallo. Sem pedir desculpas pela falta de modéstia, pois já caminho para os 64 anos, o tema era eu. Pois: nesse filme, o maestro Hans Joachim Koellreutter, que injetou vida nova no ensino de música no Brasil há décadas, deu um depoimento que me espantou, no sentido grego do assombro, que é o primeiro passo do aprendizado. O maestro falou sobre fusão de todas (meu Deus, ele disse isso mesmo, que é que eu posso fazer, além de repetir e agradecer?) as novas tendências musicais na minha música e, falando em particular de Toc, que está em Estudando o Samba, disse como Toc o espantou, que ele não conseguiu dormir. Tantas Koellreutter falou que aprendi sobre mim mesmo. Afinal, foram 20 anos de penúrias, de muita dificuldade. E, se houver tempo, continuo. Não paro. É o que vale pena. Se vocês virem esse filme por aí, se chama Tom Zé ou Quem Irá Colocar Dinamite na Cabeça do Século?, título longo, mas a cineasta trabalhou direito, então, voltando ao começo, se virem o filme em algum desses festivais que as capitais organizam, me digam o que acharam. Lá tem coisa que eu não sabia de mim. Tanto ‘eu’ me cansa um pouco numa frase, mas, é a mim que estão entrevistando. Agora viro o foco. Chega.

JC – Este discos seria seu último trabalho tropicalista?
TZ
– Bem, não sei se o primeiro disco, a ser relançado agora pela Sony, encerraria minha feitura tropicalista. Desde antes do tropicalismo que eu praticava uma certa anarquia formal, uma liberdade temática, corria e corro muito esses riscos. O tropicalismo abriga em parte essas tentativas. O resto, cada um por si, as tentativas por todos.

JC – Coincidemente, este ano saiu um disco (Post-Modern Plato – Trama) com remixes de sua música. Como é para um autor ver sua obra mexida por outros artistas?
TZ
– Ouvindo os remixes de Com Defeito de Fabricação, que tratam de situações de nosso País ou de um jeito nosso de encarar a linguagem verbal, de fazer poesia e música popular, me admira que gente moça de outros quadrantes, acostumada a reviravoltas tecnológicas, se interesse por isso. Remixes? Eles fazem o que querem com a música que tomam como objeto. É o ouvido e o trabalho de quem faz. É como dizer que fulano de tal se afastou de Brecht quando dirigiu uma peça. A discussão não tem fim. A discussão é sobre o olhar que um grupo humano de certa época e lugar lança sobre o que outro grupo humano fez. Ou até está fazendo, no mesmo momento. Em outro País. Não conheço muitos remixes, só estes. Jazz modifica a música de origem, as variações da música erudita modificam, já sabia Salomão que procurar novidade sob o Sol não é mole. Hoje é a vez dos meninos dos remixes, dos ‘dijeis’.

JC – Curiosa esta coisa do disco moderníssimo de remixes sair no mesmo ano em que reaparece o Tom Zé, feito nas concições precárias dos estúdios brasileiros de 68.
TZ
– É mesmo, Zé. É curioso que o primeiro disco, de 68, com as condições técnicas de então, seja lançado com este ‘Platões Pós-Modernos’. O de 68 Foi burilado pela tecnologia de hoje, pedi pouca coisa ao engenheiro que estava trabalhando no disco e a resposta foi muito compreensiva e simpática. Ouvindo percebo curiosidades como o sotaque de caipira paulista dos vocais.
O contexto político mudou, a liberdade de expressão, cuja barra foi bem forçada em 68, ampliou-se. É, mas certos temas continuam presentes. Preferia que fossem reminiscentes, matéria de história recente, não de história atual. A tal conjuntura político-econômica se encarrega de atualizá-los. De imobilizar, engessar os temas. Uma judiação.

JC – Tom, e as novidades, o próximo disco de inéditas, por exemplo?
TZ
– Estou gravando um disco de inéditos, deve sair no segundo semestre. Será o primeiro disco gestado e parido no Brasil em 20 anos. A gravadora é a Trama, que mostra uma coragem estética muito interessante. Você nem imagina a alegria e a responsabilidade que significa pra mim, reencontrar meu lugar no planeta, que é este país, com meu trabalho. Puxa vida.

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Jornal do Commercio
Recife - 06.09.2000
Quarta-feira