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MÚSICA II
30 anos adiante do seu tempo

A primeira coisa que se sente neste trabalho de 32 anos, é a precariedade da tecnologia de gavação do Brasil nos anos 60. Não só neste disco de Tom Zé, mas em todos os LPs tropicalistas, sente-se a ânsia de buscar o novo sendo obstaculada por ferramentas obsoletas. As letras e músicas avançadas de Tom Zé, por vezes são prejudicadas pela pobreza instrumental dos grupos Os Versatéis e os Brazões. A sorte é que ali estava não apenas a genialidade do artista, como dos maestros Damiano Cozzela e Sandino Hohagen, que capricham nos arranjos, bem no molde tropicalista.

Os temas das canções variam, da ‘ingênua’ Namorinho de Portão à agressiva Sabor de Burrice (muito mais ácida do que sua regravação no disco Com Defeito de Fabricação). Entre as conhecidas estão São São Paulo (vencedora do Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, em 68) e Parque Industrial, em gravação diferente da saída no manifesto Tropicalia Panis et Circenses.

As canções do disco (todas assinadas por Tom Zé) são uma permanente alfinetada nas ancas da tradição. Ao contrário dos outros baianos, que preendiam estar up to date com o que faziam Beatles e quejandos lá fora, Tom Zé mostra a perplexidade de um matuto baiano frente à imensa São Paulo, hábitos e costumes brasileiros. Não buzine, estou paquerando, Sem entrada e sem mais nada, Profissão de ladrão, Curso intensivo de boas maneiras, todas exploram esta faceta da música de Tom Zé. Uma curiosidade na letra de Quero sambar meu bem, há o embrião de 2001, cujos versos seriam desenvolvido no ano seguinte e musicados por Rita Lee.

Dois dados importantes no CD. A música trintona de Tom Zé não perdeu a atualidade. Os questionamentos contidos nas letras continuam válidos, até porque o Brasil mudou muito mais cosmeticamente do que estruturalmente.

Serviço

CD Tom Zé (Sony Music), relançamento do primeiro álbum do baiano Tom Zé, de 1968. Preço médio: R$22,00

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Jornal do Commercio
Recife - 06.09.2000
Quarta-feira