
CINEMA
Murphy vem
com todo o gás por
Kleber Mendonça Filho
O lendário produtor
William Castle ficou famoso por seus truques
promocionais, nos anos 50, que traziam para dentro do
cinema algumas das sensações vividas nas telas por seus
pobres atores. Uma dessas sensações foi o cheiro, no
que ele batizou de Odorama. Espectadores recebiam
cartelas que seriam raspadas e cheiradas em determinadas
cenas. É agradecer que a idéia não tenha vingado e que
filmes como Professor Aloprado II: A Família Klump
(Nutty Professor II: The Klumps, EUA, 2000) sejam
projetados normalmente, sem cheiro. A julgar pela
quantidade de pums vazando na tela, platéias sairiam
intoxicadas.
Esta, aliás, é a segunda
comédia hollywoodiana com personagens negros que eu vejo
este ano e que abusa do delicado verbo peidar.
Em Vovó... Zona (Big Momma´s House), o comediante
Martin Lawrence se disfarça de uma velha gorda que escoa
e libera grandes quantidades de cocô e ar. O próximo
filme cheio de gás que vem por aí é Todo Mundo em
Pânico (Scary Movie), também com elenco negro. Se um
E.T. sentasse para ver esses filmes, chegaria rapidamente
à conclusão de que humanos de cor escura tem a
peculiaridade de soltar ar pelas regiões mais baixas dos
seus corpos obesos, ação acompanhada de um traque
ventoso em som digital. Os meninos brancos de South Park
também são cheios de ar, não nos esqueçamos, mas são
desenhos animados.
Professor Aloprado II: A
Família Klump é uma quase reprise de um filme que já
havia dado certo financeiramente, o remake Professor
Aloprado (1996) do clássico de mesmo nome (1963) de
Jerry Lewis que, por sua vez, inspirou-se em O Médico e
o Monstro/Dr. Jekyll & Mr. Hyde. Este segundo filme
já apresenta sinais de franquia, com os elementos
vitoriosos do primeiro filme: Eddie Murphy em múltiplos
papéis, sob estupendo trabalho de maquiagem do gênio na
área Rick Baker (Lobisomem Americano em Londres). Para
um filme tão oco, o trabalho de Baker serve de apoio
para espectadores interessados em técnica
cinematográfica. É fascinante procurar defeitos e não
achá-los. Como ele consegue?
Eddie Murphy também não
está mal. Na verdade, ele até impressiona, apresentando
esboços interessantes de caricaturas grotescas de negros
e negras idosos. Está freqüentemente em cena como seis,
sete, oito personagens ao mesmo tempo, cada um dotado se
não de uma personalidade formada, mas de trejeitos
diferenciáveis que o diretor Peter Segal julga
suficientes para provocar um risinho que seja.
Mais uma vez, Sherman
Klump, um cientista brilhante que acaba de descobrir o
elixir da juventude, é a figura principal. Ele precisa
administrar seu alter ego Buddy Love, um desastre social
para o amável Sherman, apaixonado por Denise (Janet
Jackson, embora pareça com Michael), outra cientista.
Murphy faz também a sua família toda, uma legião de
comilões obcecados por sexo, impotência e o tamanho dos
salames em discussão. Tem-se também a
impressão de que todos sofrem da já supra citada
flatulência, especialmente em público, junto a velas
acesas.
É um daqueles filmes que
poderá fazer o espectador enterrar-se na poltrona como
proteção. Apóia-se demais na fórmula da maquiagem +
Eddie Murphy vezes X, truque que o ator já
vem ensaiando desde Um Príncipe em Nova York (Coming to
America). Murphy não estaria deslocado no próximo
Missão: Impossível, arrancando sua cara de látex.
Além disso, sobram as piadas forçosamente grosseiras,
que empurram ao máximo o código de classificação
americano para filmes juvenis, sem, contudo, tornar-se
adulto, restringindo a bilheteria (mais de U$
100 milhões). Além dos gases como piada, há sexo oral
sem chapas dentárias, um homem é o agente passivo de
sexo anal com um hamster gigante e uma velha gorda
reclama que pisou na sua peitola.
A trama envolvendo genoma
faz tanto sentido quanto a homenagem gasosa (mais uma
vez) a Guerra Nas Estrelas e 2001, ou as tentativas de
Jackson agir como uma cientista, tropeçando nas palavras
mais difíceis. É tudo tão estúpido e calculadamente
grosseiro que risos eventuais são esparsos, sem a leveza
e total falta de remorso que, por exemplo, os Irmãos
Farrely imprimem aos seus filmes.
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