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VIA INTERNET
A despedida de Gabriel Garcia Marquez

Os computadores do mundo inteiro, via Internet, reproduzem um texto de Gabriel Garcia Marquez que vive, lúcido e consciente, seus últimos dias de vida, vítima de um câncer linfático. No Brasil, o primeiro a divulgá-lo foi Márcio Moreira Alves, na sua coluna de O Globo.

Gabriel Garcia Marquez é escritor colombiano nascido em 1928. Iniciou sua carreira literária como jornalista e correspondente na Europa de vários jornais colombianos durante a ditadura de Rojas Pinilla. Trabalhou também na agência cubana Prensa Latina, da qual foi correspondente no México e Nova York. Entretanto, ganhou fama com a obra “Cem Anos de Solidão”, escrita em 1961. Após a consagração foi morar na Espanha. Publicou ainda “O Enterro do Diabo”, “Ninguém Escreve ao Coronel”, “O Veneno da Madrugada”. Escreveu também “O Outono do Patriarca”, uma sátira política sobre as ditaduras latino-americanas que lhe deu o prêmio de melhor livro do ano da crítica literária francesa e a novela “Crônica de uma Morte Anunciada”. Em 1982, Garcia Marquez recebeu o Nobel de Literatura. Outro mérito de Garcia Marquez foi trazer uma grande renovação na moderna novelística colombiana. “Cem Anos de Solidão”, por exemplo, foi traduzida em diversas línguas e sua influência hoje domina na América Latina, pois é responsável pelo chamado boom da literatura hispano-americana.

“Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente, pensaria tudo o que digo. Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e gozaria um bom sorvete de chocolate. Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida, vestiria simplesmente, me jogaria de bruços no solo, deixando a descoberto não apenas meu corpo, como minha alma. Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre estrelas um poema de Mário Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à lua. Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo de suas pétalas. Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida. Não deixaria passar um só dia sem dizer às gentes - te amo, te amo. Convenceria cada mulher e cada homem que são os meus favoritos e viveria enamorado do amor. Aos homens, lhes provaria como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar. A uma criança, lhe daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha. Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento. Tantas coisas aprendi com vocês, os homens... Aprendi que todo mundo quer viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão pela primeira vez o dedo de seu pai, o tem prisioneiro para sempre. Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se. São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas, finalmente, não poderão servir muito porque quando me olharem dentro dessa maleta, infelizmente estarei morrendo.”

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Jornal do Commercio
Recife - 06.09.2000
Quarta-feira