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INTIMIDADE
A correspondência de Ribeiro Couto e Manuel Bandeira

por Mário Hélio

“Bem, vou parar aqui porque preciso ainda escrever uma carta ao Ribeiro Couto.” Manuel Bandeira dizia isso, também em carta, a Alphonsus de Guimarães Filho. Até o final deste ano, os leitores não vão poder ler essa carta que ele ainda ia escrever, em 1951, mas, em compensação, os anos heróicos do modernismo (1919-1925) serão vistos na intimidade da correspondência do paulista e do pernambucano.

O volume está sendo organizado pelo escritor José Almino, e deve ser publicado, até o final do ano, pela Fundação Casa de Rui Barbosa, onde ele coordena o setor de filologia.

O interesse de Almino pela correspondência de Bandeira existe desde a adolescência. Cartas a Manuel Bandeira, de Mário de Andrade, foi o primeiro livro de não-ficção que mais lhe agradou. “Lembro-me de que Mário, numa passagem, ataca o que lhe parecia superficialidade de Ribeiro Couto”, diz (leia trecho de carta na página seguinte. Tudo, porém, com diplomacia. O antigo morador do Pouso Alto (que também viveria no Curvelo) não desancava por escrito o da rua Lopes Chaves, enquanto o eterno “habitante de Pasárgada” (e do mesmo morro do Curvelo que lhe motivou poemas) punha panos quentes entre os dois paulistas desvairados.

A primeira coisa que surpreende na correspondência é a desproporção das cartas conservadas. 142 de Bandeira sobreviveram, enquanto as de Ribeiro Couto não tiveram a mesma sorte: restaram apenas 16. Outra coisa a destacar é o tom. O primeiro é mais íntimo, pessoal, próximo. “Como a própria poesia cotidiana de Bandeira, que, nas cartas a ele, se solta menos”, compara Almino.

Apesar disso, a linguagem está longe de ser formal. “Pela informalidade, lembra um pouco o tom que se usa na internet hoje em dia”, diz Almino. Tudo muito diferente da correspondência trocada entre Joaquim Nabuco e Rui Barbosa, também organizada por Almino (Meu caro Rui, meu caro Nabuco, Fundação Casa de Rui Barbosa,96 páginas) lançada no final do ano passado. Um bilhete de Nabuco (datado de 2 de maio de 1999) pode servir de exemplo:

“Desejo-lhe ao partir todas as felicidades e peço-lhe que disponha sempre de mim com a amizade que nos ligava nos tempos da nossa mocidade, certo que V. não tem quem mais do que eu deseje a perfeição de seu talento, a universalidade do seu nome, e a imortalidade de sua obra. Tenho mais ambição do que V. mesmo de o ver entrar na sua verdadeira e superior esfera, e é com sincera satisfação que acompanho a plenitude que caminha do seu disco intelectual. Seu sempre Joaquim Nabuco”

No caso dos modernistas, as cartas serviam como espécie de treino para o coloquialismo que, sobretudo Manuel Bandeira (herdeiro do tradicionalismo parnasiano que ainda habitava Rui e Nabuco). Ribeiro Couto não esteve longe de querer e alcançar uma simplicidade, que também seduziu Mário de Andrade. De formação francófila eram os intelectuais daquele tempo, a ponto de escreverem poemas em francês (o caso de Bandeira), ou livros inteiros, como Couto (que viveu diplomaticamente na França e foi um grande divulgador da literatura brasileira na Europa.

Quem dispuser das duas coletâneas em que se reúne toda a correspondência entre Bandeira e Mário de Andrade pode fazer triangulações curiosas com a próxima a ser lançada. Numa, o autor de Losango Cáqui fala do gosto do autor de Libertinagem, pelos diminutivos. O bastante para que este escreva um começo de carta a Ribeiro Couto cheio de diminutivos.

Além de haver escrito sobre a estética do amigo em seus estudos sobre literatura brasileira, glosou o seu nome no Mafuá do Malungo assim:

“Não é ruim, não é do Couto,/É Rui, mas não é Barbosa:/ É, sim, Rui Ribeiro Couto,/ Mestre do verso e da prosa.”

De algum modo esses versos parecem o oposto daqueles apócrifos atribuídos a Bandeira (que ele negava): “Francisco de Assis Barbosa/ Brasileiro tipo sete/ Tanto em verso quanto em prosa/ Não deu, não dá nem promete.” Ainda está por ser escrita uma pequena história das difíceis amizades literárias, tão ambíguas, maliciosas e irônicas muitas vezes quanto a própria literatura.

Um aspecto muito curioso é que o interesse de Ribeiro Couto por tornar-se amigo de Manuel Bandeira nasceu após a leitura de poema de A Cinza das Horas intitulado “Cartas de meu avô”:

“A tarde cai, por demais/ Erma, úmida e silente.../ A chuva, em gotas glaciais,/ Chora monotonamente.// E enquanto anoitece, vou/ Lendo, sossegado e só,/ As cartas que meu avô/ Escrevia a minha avó.// Enternecido sorrio/ Do fervor desses carinhos:/ É que os conheci velhinhos,/ Quando o fogo era já frio.// Cartas de antes do noivado.../ Cartas de amor que começa,/ Inquieto, maravilhado,/ E sem saber o que peça.// Temendo a cada momento/ Ofendê-la, desgostá-la,/ Quer ler em seu pensamento/ E balbucia, não fala...// A mão pálida tremia/ Contando o seu grande bem./ Mas, como o dele, batia/ Dela o coração também.// A paixão, medrosa dantes,/ Cresceu, dominou-o todo./ E as confissões hesitantes/ Mudaram logo de modo.// Depois o espinho do ciúme.../ A dor... a visão da morte.../ Mas, calmado o vento, o lume/ Brilhou, mais puro e mais forte.// E eu bendigo, envergonhado,/ Esse amor, avô do meu.../ Do meu, – fruto sem cuidado/ Que inda verde apodreceu.// O seu semblante está enxuto./ Mas a alma, em gotas mansas,/ Chora, abismada no luto/ Das minhas desesperanças...// E a noite vem, por demais/ Erma, úmida e silente.../ A chuva em pingos glaciais,/ Cai melancolicamente.// E enquanto anoitece, vou/ Lendo, sossegado e só,/ As cartas que meu avô/ Escrevia a minha avó.”

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Jornal do Commercio
Recife - 04.09.2000
Segunda-feira