INTIMIDADE II
Ribeiro Couto
visto por Mário de Andrade O Ribeiro Couto. Está fantástico,
forte, diz que está ganhando muito dinheiro, com vontade
de ficar gente séria porém me pegou e falou literatura
até duas horas da manhã. Via-se que estava com fome. Um
pouco menos petulante mas o mesmo irritante de sempre.
Não tem sujeito que
consiga me irritar mais, o Couto me desespera. Gosto dele
por isso. Dá catalepada em toda gente, descobre defeitos
verdadeiros na gente de cambulhada com defeitos que tira
da própria cachola com uma fecundidade e uma leviandade
que espanta e acabrunha.
É o pior crítico do
mundo, quando critica alguém, na realidade observa a si
mesmo. Diz que gosta de Paulicéia mas o gosto que ele
tem por Paulicéia me irrita.
Não compreendeu
absolutamente o meu livro. O que o comove lá dentro são
uns detalhes ocasionais, umas notinhas rápidas, umas
pequenices de cor local de observação de psicologia
pequenininha, rolas da Normal, garoa, ora sebo!
Nunca neguei o valor
dessas coisas de vida quotidiana você sabe bem disso,
uma menina de Escola Normal é uma coisa tão enorme!
Tão enorme, não, é uma coisa que também pode ser
objeto de lirismo e estupendo mas fazer disso a única
possibilidade de lirismo me parece duma curteza de
sensibilidade enorme. O Couto é assim.
É a sensibilidade mais
curta que eu conheço. É muito profunda porém curta,
não acha? Contei pra ele a história do Poema Acreano,
ele achou horrível, diz que é muito cerebral!
Você sabe que não me
zango absolutamente com quem não gosta duma coisa minha,
aqui em São Paulo o grupinho moço não gosta mais de
nada que eu faço e no entanto continuamos amicíssimos.
Detestam e contrariam a
língua que estou usando, enfim uma porção coisas, às
vezes me falam, outras nem falam, não gostaram do Poeta
come Amendoim, se horrorizaram com o Rondó etc. e
continuo muito amigo de todos, que hei-de fazer. Mas o
Couto me irrita.
O Guilherme nessa noite
disse um poema grande, Raça, que eu acho uma maravilha,
talvez a obra-prima do Gui. Do gênero dele, se entende,
efeitos de linguagem, construção cerebral, um pouco
rebuscada, talvez demais, porém linda, ele imagina a
nosa formação uma cruz, os dois braços e a cabeça
dela são o portuga, o índio e o negro, o tronco da cruz
somos nós. Fala separadamente de cada agrupamento racial
e enfim do brasileiro.
É lindo, duma arte
esplêndida, dum ritmo magistral, duma eloqüência! Nós
já mais que sabemos que o Gui sofre influências. Mas
isso não tem importância nenhuma. Vê os outros
fazerem, faz depois dos outros mas faz melhor isso é que
é. Melhor no sentido de obra-de-arte.
Raça é uma coisa
estupenda, você há de ouvir, eles vão logo pro Rio
outra vez, pelo menos é o que dizem, pois o Ribeiro
Couto detestou.
Chamou de discurso de
grupo escolar, botei maiúscula em Escola Normal e
minúscula em Grupo Escolar, positivamente um preconceito
inconsciente mas indecente. Pois não gostou, não
compreendeu nada e de repente me respondeu que adora
Camões até nos passos ruins dos Lusíadas.
Isso a gente está vendo
é só preconceito porque Camões também tem burradas
como toda gente e tem passos nos Lusíadas que são uma
caceteação, a gente lê porque também por preconceito
quer depois poder dizer que leu os Lusíadas.
Eu nunca li os Lusíadas
inteirinhos. Me cansa, fica pro dia seguinte e não pego
mais. É possível que muita beleza de lá eu não
conheça, paciência! é impossível conhecer todas as
belezas que o homem já tem feito.
É engraçado, eu às
vezes quero não gostar do Couto porém é impossível,
gosto dele, ele me atrai, me dá raiva, no fundo é um
sujeito estupendo que pensa que por ter vivido um
pouquinho, aliás bastante, a vida noturna, acha que a
vida se resume nisso e que tem direito de fazer
psicologia a torto e a direito, descobrindo e quando não
descobre inventa o resto pra figura não ficar pela
metade.
Não é bem isso: ele
parte de observações muito sutis e exatas mas vai se
esquece que está observando e continua criando da
cabeça dele sem se amolar mais com a pobre criatura
humana bem mais existente e real.
É um pândego delicioso,
a delícia da pimenta que arde, é ruim mas a gente
continua comendo pimenta. Isso: O Ribeiro Couto me parece
mais uma especiaria que um alimento, que você me diz
desta observação?
* Trecho de carta de
Mário de Andrade a Manuel Bandeira, de 31 de maio de
1925
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