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INTIMIDADE III
Ribeiro Couto visto por Manuel Bandeira

Dessa geração paulista, uns dez anos mais moça que eu, já me era conhecido Ribeiro Couto, que se mudara para o Rio e foi levado a minha casa por Afonso Lopes de Almeida. Couto, esse tornado em forma humana, escondeu o jogo na primeira vez em que nos vimos. Falava pouco e baixo, como se já estivesse praticando os versos que escreveria mais tarde:

Minha poesia é toda mansa.

Não gesticulo, não me exalto.

Dise, ou antes murmurou em quase inaudível surdina um soneto que nunca publicou, pelo menos em livro, soneto a uma negra, em que me impressionou muito o seguindo hemistíquio do alexandrino inicial: “A raça te entristece”. Esse primeiro encontro foi o princípio de uma amizade que dura até hoje e me tem sido fonte de grandes alegrias, grandes ensinamentos. De algumas grandes raivas também... (....)

As minhas relações com Ribeiro Couto estreitaram-se quando, falecido meu pai em 1920, fui morar só na Rua do Curvelo, hoje Dias de Barros. Poucos meses antes mudara-se o meu amigo para a casa de Da. Sara, à mesma rua. No discurso com que me recebeu na Academia Brasileira de Letras fala Couto, com graça e emoção, dessa casa e da sua boa senhoria: “Era uma dessas vivendas burguesas que já vão desaparecendo, e onde laboriosas famílias de recursos medianos alugam ‘quartos sem pensão a cavaleiros’. Da. Sara não fornecia comida nem aos seus hóspedes, mas Couto sempre foi homem de grande lábia e conseguiu convencer ‘a bondosa portuguesa’ a abrir exceção em nosso favor. (....) A Rua do Curvelo ensinou-me muitas coisas. Couto foi avisada testemunha disso e sabe que o elemento de humilde cotidiano que começou desde então a se fazer sentir em minha poesia não resultava de nenhuma intenção modernista. Resultou, muito simplesmente, do ambiente do morro do Curvelo. (Trechos do livro Itinerário de Pasárgada)

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Jornal do Commercio
Recife - 04.09.2000
Segunda-feira