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Bolívar e Abreu e Lima A honrosa visita do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, a Pernambuco, após participar da Cúpula de Brasília, é um momento para reflexão sobre nossa história pernambucana, nossa tradição libertária, representada pelo general Abreu e Lima, e sobre o sonho de integração sul-americana de Simón Bolívar; aliás o grande tema do encontro dos 12 presidentes da região, por iniciativa e a convite do presidente Fernando Henrique Cardoso. Chávez, um ex-golpista que se converteu ao processo democrático de governar e promover o desenvolvimento, é um admirador do grande libertador da América do Sul, no qual diz inspirar-se em seu programa de governo, e cujo ideal de integração, abortado por intrigas e ambições de política menor, deseja pôr em prática hoje. O presidente venezuelano fez doação à cidade do Recife de uma estátua de Abreu e Lima, que foi inaugurada, por ele, pelo governador Jarbas Vasconcelos e pelo prefeito Raul Henry, na praça que leva o nome do nosso herói, vizinha ao Cemitério dos Ingleses (onde está sepultado, por ter-lhe sido negada sepultura no Cemitério de Santo Amaro, devido a diferenças entre ele e os dirigentes da Igreja Católica Romana). Chávez também visitou o túmulo daquele que, tendo de fugir do Brasil por perseguição política, alistou-se no exército libertador de Bolívar. José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima era filho de outro famoso revolucionário pernambucano, Padre Roma. Quando estava preso na Bahia, devido a sua participação na Revolução Pernambucana de 1817, foi obrigado a assistir ao fuzilamento de seu pai. Ajudado pela Maçonaria, conseguiu fugir para os Estados Unidos, de onde seguiu para a Venezuela, onde lutou ao lado de Bolívar, que lhe concedeu a patente de general por seus feitos na campanha libertadora da Grã-Colômbia (Colômbia, Venezuela e Equador). Após a morte do libertador, retornou ao Brasil, foi reintegrado em seus direitos e viveu no Rio de Janeiro de 1831 a 1844, quando regressou a seu Recife natal. Escreveu Compêndio de história do Brasil, o primeiro do gênero, Sinopse ou dedução cronológica dos fatos mais notáveis da história do Brasil e O socialismo, livro em que defende a superioridade do liberalismo sobre as novas idéias pregadas por escritores europeus. A visita do presidente Hugo Chávez aviva em nossa memória histórica o vulto e a militância desse herói da liberdade, ao lado de Frei Caneca e tantos outros. O herói da libertação da maioria dos países sul-americanos colonizados pela Espanha do jugo da metrópole, e precursor da integração e união da América do Sul também foi homenageado pelo presidente da Venezuela, em sua passagem por nossa capital, em cerimônia aos pés de seu monumento em Olinda, à altura da Escola de Aprendizes Marinheiros. Simón Bolívar é considerado El Libertador pela Venezuela, Colômbia, Equador, Panamá (que era parte integrante da Colômbia até o projeto do canal), Peru e Bolívia, cujas revoluções de emancipação chefiou, mas cuja unidade política não consegui manter. Decepcionado, morreu triste e muito doente perto de Cartagena, de onde pretendia embarcar para a Europa em exílio voluntário. Os últimos dias do Libertador foram romanceados por Gabriel García Márquez, com sua habitual maestria, em O general em seu labirinto. Em julho de 1822, teve um encontro, em Guayaquil, com o general San Martín, herói da independência da Argentina e do Chile. Grande conhecedor das miseráveis condições coloniais de vida, seus estudos e observações, em centenas de manifestos, discursos, proclamações, cartas, constituem uma herança e um testamento político para América do Sul. A carência de um grandioso e generoso projeto político entre os líderes das colônias que libertara, a ausência de costumes políticos democráticos, também foram sentidas e previstas pelo general. Seus planos de governo estavam muito à frente de seu tempo, mesmo em termos europeus; aproximando-se dos ideais da Revolução Americana, que fez de colônias britânicas dispersas um grande e poderoso país. Que os exemplos de Simón
Bolívar e de Abreu e Lima, recordados pela visita de
Hugo Chávez, inspirem nossos políticos, brasileiros e
sul-americanos, para que a integração de nossos
países, debatida e impulsionada na Cúpula de Brasília,
possa se tornar uma realidade. Em vez de ficarmos de
costas uns para os outros, olhando e imitando a Europa e
os Estados Unidos, como tem ocorrido historicamente, com
raríssimas exceções. |
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