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GAME-SE POR ESSE JOGO

por Eduardo Albuquerque

Eles vão chegando aos poucos, de várias partes da cidade. São em número de 20 ou 25. Entram no recinto, trocam abraços com quem já havia chegado, brincam com os companheiros sobre aquela jogada que não fizeram. Um outro traz um charuto para o amigo, diz que é um presente pela vitória passada. Os mais novos ficam logo ao lado dos mais experientes. Sempre na intenção de aprender mais um pouco. As conversas, na verdade, duram alguns minutos. Nada de muita demora. Afinal, o que os une naquele momento, acaba de ser posto na mesa. Um grande tabuleiro, alguns dados, as peças brancas e pretas, e a vontade de jogar gamão.

Desconhecido da maioria do público brasileiro, o gamão vem atraindo uma verdadeira legião de adoradores no Recife. Eles se encontram em alguns pontos determinados da cidade, como o Recife Monte Hotel, em Boa Viagem, o bar Royal Saloon ou a Cachaçaria, no Recife Antigo. Têm sempre alguma história pessoal sobre como descobriram o jogo, que geralmente vem acompanhada de uma lembrança familiar ou de amizades. “Meu pai sempre jogava gamão com amigos numa cidade do interior da Bahia, onde morávamos. Quando eu tinha 7 anos, ele foi transferido para o Rio de Janeiro, perdendo o contato com os parceiros de jogo. Esse fato terminou forçando meu pai a ensinar-me as regras do gamão para que eu jogasse com ele”, conta um dos participantes dessa legião, o bancário José Carlos Moreira, 42 anos.

José Carlos é um exemplo da paixão que este jogo pode despertar. Aos 14 anos, já havia deixado a parceria do pai para dividir as partidas de gamão com colegas do colégio. Encontrou uma maneira de conquistar novos amigos e de aprimorar os conhecimentos. “Mais do que a disputa em si, o mais legal deste jogo é que você consegue se relacionar com pessoas de todas as idades, sexos e classes sociais. As pessoas acabam unidas por este lazer, esquecendo o stress diário do mundo moderno”, afirma.

Histórias como a de Moreira são contadas por todos os participantes do grupo de ‘gamonistas’ do Recife. O entusiasmo da turma reverte qualquer idéia que se tenha a respeito da imagem de jogo monótono, praticado apenas por aposentados em bancos de praça. “Além de mexer com o raciocínio lógico do jogador, o gamão é um jogo muito emocionante, com altos e baixos, onde a sorte é um componente essencial para o praticante”, exulta o publicitário Ivan Kelner, 47, outro freqüentador dos tabuleiros do Recife Monte Hotel.

ASSOCIAÇÃO – O sobrenome Kelner, aliás, está diretamente associado à disseminação da prática gamonista na capital pernambucana. Em maio do ano passado, Ivan e seu irmão, Isaac, resolveram criar a Associação Pernambucana de Gamão - APG. A idéia era reunir os aficcionados pelo jogo para promover torneios, além de atrair novos apreciadores. “Eu havia morado 6 anos em Israel, onde o gamão é um dos jogos mais praticados pelo povo. Quando voltei à Pernambuco, encontrei no Isaac e em José Carlos a ajuda que faltava para fundar a associação. Hoje ela tem cerca de 60 filiados”, diz Ivan.

Fundada a entidade, o passo seguinte foi a criação do circuito pernambucano. Dividido em 4 turnos, o campeonato é realizado durante todo o ano e pode contar com qualquer participante do estado, bastando para isso o pagamento da inscrição. Os turnos são divididos em chaves, com os vencedores passando para a fase seguinte. Qualquer perdedor pode se reescrever para disputar uma nova chave até que haja um ganhador do turno. Os vencedores dos 4 turnos disputam as finais do circuito. O atual campeão chama-se Clóvis Peixoto Júnior.

Além de promover o gamão, a existência do campeonato visa criar um ranking de jogadores para que seja possível o intercâmbio com gamonistas de outros estados do país, como o Rio de Janeiro e a Bahia, que são atualmente os estados de maior número de praticantes. “O Recife é hoje a terceira força do gamão no país. Em abril, deveremos organizar uma etapa do campeonato nacional”, revela Ivan.

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Jornal do Commercio
Recife - 01.09.2000
Sexta-feira