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POLÊMICA NA SANTA SÉ
“Só há uma religião, a católica”

por Gilles Lapouge
Agência Estado

PARIS – Dominus Jesus é o nome do documento publicado pelo Vaticano e assinado pelo cardeal alemão Josef Ratzinger. Que um texto como esse seja divulgado no final do pontificado do muito idoso, muito cansado, João Paulo II tem sentido. Ratzinger não chegou agora. Sua voz é como uma broca. Há 20 anos (desde 1981) ele é prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé: posto eminente. Uma espécie de bússola encarregada de indicar a linha geral (como diria Lenin) do catolicismo. Se o papa João Paulo II é um homem sacudido pelos tornados do cotidiano, da história e da política, Ratzinger tem os olhos fixos em horizontes mais distantes, na continuidade da fé, do dogma...

Ora, o documento de Ratzinger é de uma austeridade surpreendente. Após dois anos durante os quais João Paulo II multiplicou os arrependimentos (em face de outras religiões, dos judeus, da Inquisição, do obscurantismo, das Cruzadas, das colonizações etc.), O discurso de Ratzinger soa como um tiro de pistola em um concerto de música de câmara.

Sua proposta se resume em: só existe uma religião, a religião católica. E as outras religiões? Vá andando, não tem nada a ver! O cristianismo não é uma revelação limitada, relativa, imperfeita, a peça de um quebra-cabeças complicado. Não: o cristianismo é tudo, o alfa e ômega. Somente o cristianismo merece ser qualificado de fé. E as outras religiões? Não: as outras não são religiões, são crenças, conhecimentos. Buda é uma grande figura, mas uma figura histórica entre outras figuras. Sócrates idem. Somente Cristo é o mediador entre Deus e os homens, o Salvador universal. Não brinquemos, conseqüentemente, de ficar saltando de uma religião para outra.

Lembremos que a vontade salvadora de Deus manifestou-se, de uma vez por todas, no mistério da Encarnação, da morte e da ressurreição do Filho de Deus. Resultado: todos os teólogos asiáticos ou africanos, que se dedicam a conciliar o cristianismo com conhecimentos locais (hinduísmo, budismo, paganismo...) Perdem seu tempo. A fé cristã deve permanecer exclusiva, universal e absoluta.

Dito isso, Ratzinger ainda não está saciado: ele conservou em seu arcabuz algumas flechas destinadas ao protestantismo. Ele relembra, então, que a Igreja é única. As outras igrejas não merecem esse título: a chave dessa exclusividade da igreja de Roma é a sucessão apostólica (ou seja, o fato de os bispos serem nomeados pelo papa, assim como os apóstolos o foram por Cristo).

Não vamos prosseguir. O catálogo continua, mas o tom é sempre o mesmo: duro, imperioso, certo de si... Mas podemos acrescentar algumas observações: Há dois anos, João Paulo II, embora sempre fechado no que diz respeito à moral (contracepção, casamento, etc), fez magníficos esforços para modernizar a Igreja, torná-la mais inteligente, mais modesta, mas amorosa, mais terna - gestos em favor dos judeus muitas vezes tão vilipendiados por Roma, diálogos ecumênicos e inter-religiosos, visitas a sinagogas, mesquitas, apertos de mãos com budistas, hinduístas.

O violento discurso de Ratzinger lança, sobre essas tentativas uma ducha de água fria. Com isso, a Igreja se reveste de sua imagem mais perigosa. Imaginamos que judeus, protestantes ou muçulmanos vão refletir antes de retomar o diálogo. E há algo mais angustiante: há poucos dias, João Paulo II beatificou o papa da abertura, João XXIII (Vaticano II) e ao mesmo tempo o papa mais reacionário do lúgubre século 19, Pio IX, autor do inesquecível Syllabus, tão retrógrado que, na França, Napoleão III, que não era um esquerdista, proibiu-o em 1864.

Essa bizarra dupla beatificação foi interpretada com generosidade: João Paulo II queria mostrar que Roma é a herdeira da totalidade da história da Igreja, tanto do papa antitudo quanto do bom papa João XXIII. Um pouco pueril, e muito discutível, certamente, mas enfim...

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Jornal do Commercio
Recife - 06.09.2000
Quarta-feira