LG_jc.gif (3670 bytes)


JOELMIR BETTING

Plebiscito da gastança

Plebiscito nacional sobre a dívida externa. E por que não um plebiscito nacional sobre a gastança pública? A primeira é um mero subproduto da segunda. E a segunda tem como DNA um setor público desconjuntado, perdulário e corrompido.

Na coluna de ontem, vimos como a dívida externa andou financiando algo mais que planos e obras mal priorizados, mal elaborados, mal contratados, mal executados e mal auditados.

Ela igualmente deu cobertura a rombos, desvios, propinas e desperdícios de toda ordem – na ditadura e na abertura. Cada dólar acabou realizando o trabalho de 50 centavos. Ou menos.

A proposta do não-pagamento da dívida externa, que estaria legitimada por um plebiscito servido por um questionário tendencioso, seria a tal de emenda pior que o soneto. Um prêmio à gandaia nacional, reverso do moral hazard cunhado por Kenneth Arrow em seu clássico Essay in the Theory of Risk-bearing (1971).

Até para combater a miséria e a exclusão é preciso chamar um plebiscito nacional sobre a urgência de uma reforma radical do Estado brasileiro – maior tabu da esquerda. Pois o que tem feito do Brasil um país rico cheio de pobreza é justamente um Governo de três níveis que não governa porque não se governa e não se deixa governar.

PRIVILÉGIOS – Que tal um plebiscito nacional sobre a remoção cirúrgica dos escandalosos privilégios da Previdência, mui especial a do setor público – começando pelos abusos adquiridos desfrutados por parlamentares e magistrados? Abusos legislados em causa da própria...

Que tal um plebiscito nacional sobre o formato e o trabalho dos nossos tribunais de faz-de-contas, chaveiros de portas arrombadas? E que tal um plebiscito nacional sobre nosso ensino público superior gratuito – aos quais os pobres nunca tiveram ou terão acesso? Ou como escreve o professor José Márcio Camargo, da PUC-RJ: Os programas sociais bancados por recursos públicos continuam beneficiando os não-pobres e até mesmo os ricos. Um Robin Hood trapalhão.

A dívida financeira externa e a dívida mobiliária interna foram contratadas para cobrir essa gandaia nacional, na qual a gastança pública sempre andou amasiada com a ganância privada pelos motéis da corrupção e do desperdício. Os banqueiros lá fora e os investidores aqui dentro nada têm a ver com a nossa cultura política da permissividade, da impunibilidade e da pusilanimidade. A não ser, claro, cobrar juros insanos pelo risco Brasil do calote.

Boa intenção

A proposta do plebiscito da dívida – do tipo Você é a favor ou contra a Aids? – vai para o purgatório das boas intenções. Ela tem justificativa nos bispos da CNBB, mas não tem explicação nos economistas do PT.

Bonde perdido

O plebiscito deveria ter sido lançado na estréia da Nova República do PMDB, em 1985. Ou antes da Constituição Cidadã de 1988. Na época, havia 34 países em moratória unilateral.

Pela culatra

Retomar o discurso do calote raivoso é encarecer o crédito externo que suplementa a poupança interna na reativação dos negócios e dos empregos.


Jornal do Commercio
Recife - 06.09.2000
Quarta-feira