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ARTE NAS LADEIRAS
Um caso de amor levado para as telas

por Fabiana Moraes

Um bequinho que quase ninguém percebe. A vista por trás lá da Igreja do Monte. As calçadas ilustradas que cercam a igreja de São João. Ver Olinda através dos olhos dos artistas que a escolheram como habitat natural é descobrir novas nuances de uma paisagem que se reinventa a cada novo olhar. Entre declarações de amor deslavadas e mistos de raiva e decepção, todos elegem a cidade-patrimônio como única. “Encantadora”, diz Guita Charifker. “Misteriosa”, revela Gilvan Samico. “Justamente por amá-la, eu a critico”, diz o artista plástico Frederico Fonseca, que não volta a morar no Sítio Histórico por não se sentir seguro ali. São contradições que, no final, só confirmam essa estranha atração que a cidade exerce sobre quem resolve conhecê-la – ou mesmo morar nela. Charmosa, mas precária. Bonita, mas insegura. Sobra encantamento, mas falta água. “Mas não me mudo daqui para lugar nenhum”, conta Luciano Pinheiro, morador do Alto da Sé, numa casa com vista para o Recife. Entendem-se as razões do pintor, depois de passar alguns momentos ali, entre as árvores e passáros. O caderno Turismo & Lazer mostra, nesta edição, alguns dos lugares preferidos dos artistas da cidade e apresenta um roteiro cultural por seus ateliês, onde é produzida uma representativa parcela da arte pernambucana. O melhor: a maioria deles abre as portas para você.

"Eu agrado Olinda com as mãos quando passeio por suas ruas. É algo muito comovente”, diz a artista plástica Guita Charifker, que vive num belo e espaçoso casarão localizado ao lado da Igreja do Amparo. Ali, sentada num quintal-pedaço de Mata Atlântica, Guita leva para as telas desenhos suaves de coqueiros, bananeiras, antúrios e helicônias, espécies com as quais convive todos os dias. Pé no chão, cheiro de terra: o quintal é uma das partes mais nobres da casa e espaço inspirador dessa artista de descendência romena que há 20 anos vive entre as ladeiras olindenses.

Vinte anos de namoro? “Não, na verdade eu cheguei aqui no século 17. Era a cristã-nova Branca Dias, uma mulher à frente de seu tempo e amante da natureza”, revela Guita. A certeza de que a cidade era, de fato, a sua casa veio num dia em que passeava com o também pintor e amigo Zé Tavares, nos anos 60. Lá de cima, na Ribeira, viu a Sé, o céu, a mata. “Tive a certeza de que aqui era o meu lugar”, relembra. Tempos depois, junto a nomes como Adão Pinheiro, Tiago Amorim e Wellington Virgulino, a artista plástica formaria o grupo Ateliê Coletivo, responsável por parte da movimentação cultural que agitou a cidade nos conturbados 60.

Até hoje, o passeio pela Cidade Alta é uma das atividades preferidas da artista. O itinerário inclui toda a Rua da Amparo, os Quatro Cantos e a Praça do Carmo. A subida pela ladeira de São Francisco é um momento especial. Lá, encontra-se um conjunto de velhos casarões que encanta Guita, fã confessa do hotel Sete Colinas, localizado na mesma rua. “Dali, eu vejo a Sé como naquele dia em que a vi lá da Ribeira”.

Todo o amor que sente pela cidade, invariavelmente retratada em suas belas aquarelas, não esconde a decepção com algumas questões administrativas. A ocupação do Alto da Sé pelas barracas de ambulantes é vista de forma negativa por Guita, já que o espaço, para ela, deveria ser utilizado principalmente como um mirante. Já o mercado Eufrásio Barbosa, turístico por excelência, está “lotado de quinquilharias”, e seu belo pátio está sendo injustamente utilizado por carros.

O pintor Delano é outro artista que circula pelas ruas de Olinda com total propriedade. Atualmente, mora na Rua de São Franciso, a mesma que encanta Guita, mas já passou por lugares como a Rua do Bonsucesso e teve ateliê na Rua do Amparo, o famoso + 10. O que mais atrai Delano em Olinda é uma qualidade citada por vários outros artistas plásticos: a aura despreocupada, um tanto suburbana, que caracteriza a cidade, onde os vizinhos ainda sentam na calçada para conversar e ver a vida passar.

“Todos se conhecem. A cidade funciona como uma grande família”, diz Delano, que guarda dezenas de seus belos quadros em casa, alguns deles retratando a própria imagem, de forma divertida e sutilmente irônica. Assim como Guita, o artista também critica a política de conservação de Olinda, apontada como deficiente, quando não inexistente.

Da casa em que mora Delano, a vista é privilegiada e um tanto bucólica. É possível ver toda a São Francisco e a bonita Praça do Carmo. No último andar, uma visão geral da cidade se descortina e inspira o artista. “Mas o que levo para a tela poderia ser feito em qualquer cidade. Não costumo pintar paisagens em meus quadros”, diz Delano, lembrando, bem-humorado, que fez questão de que seu filho nascesse numa maternidade da cidade. Na época, ouviu diversas críticas quanto à estrutura local. “Todo mundo dizia que ele deveria nascer numa maternidade no Recife, mas não abri mão de que ele fosse olindense”, conta Delano, que nasceu em Buíque, foi criado em Bezerros e no Recife, mas adotou Olinda como a sua terra natal. (F.M.)

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Jornal do Commercio
Recife - 31.08.2000
Quinta-feira