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ARTE NAS LADEIRAS III Dragões no céu e gravuras na calçada Tereza Costa Rêgo chegou a Olinda junto com a anistia política. Havia passado sete anos na Europa ao lado do marido, banido do país pela ditadura militar. Atraída pelos bons preços e grandes espaços dos casarões, logo se apaixonou pela casa onde, até hoje, vive e trabalha. O endereço não poderia ser mais feliz: a Rua do Amparo, sem dúvida um dos maiores corredores culturais da cidade. Na época, a atual moradia da artista plástica não passava de uma ruína. Estava aos pedaços, sem janelas, repletas de goteiras, mantida ao sabor da sorte. Com o tempo, fui reformando todo o espaço, com restos de demolição. Gosto de usar portas e janelas de casas que já existiram. São coisas verdadeiras, conta Tereza, dona de umas das residências mais charmosas da rua. No quintal, lotado de plantas exuberantes, está o seu ateliê, de onde se tem uma visão privilegiada de Olinda. Atualmente, ela está produzindo uma série de quadros em que são retratadas as janelas da cidade. Daqui da minha casa, vejo belas imagens. Telhados e portas que terminam parando nos quadros, revela, enquanto mostra o terraço, também usado como ateliê. Curiosamente, no telhado da casa ao lado, vários gatos descansam e observam a rua. Quem conhece a obra da pintora percebe que muitos de seus quadros trazem felinos, animais que viraram espécie de marca registrada de seus trabalhos. Além do casario do Amparo, outros pontos da cidade provocam a admiração de Teresa, como o Alto da Sé, usado como um refúgio. Se preciso retomar energias, recarregar o espírito, passo algum tempo sentada por ali, na Misericórdia. É muito bonito, especialmente durante o pôr-do-sol. O adorado Carnaval, retratado em telas como Homem da Meia Noite e Mulher do Dia, de 1993, simplesmente está minguando aos olhos de Tereza. É preciso repensar a festa. Não entendo como as pessoas vêm para cá para ouvir apenas música baiana e rock. Lembro do tempo em que, da minha janela, via passar a Pitombeira, o Elefante e a Marim dos Caetés, relembra a artista, que, hoje, lamentavelmente, precisa sair de sua casa durante os quatro dias de folia. A também pintora Maria Carmen, que vive na Rua Saldanha Marinho, vizinha a Guita Charifker, elege o clima misterioso de Olinda como um dos fatores que a levaram a procurar a cidade para viver e trabalhar, há 35 anos. Dizem que aqui existe um artista por metro quadrado. Não sei se isso é verdade, mas acredito que Olinda foi feita propositalmente para nós mesmos, brinca. A relação com alguns mitos da cidade é intensa: o primeiro local de trabalho de Maria, o atelier + 10, que integrava artistas como João Câmara e Montez Magno, funcionava onde hoje existe a sede da agremiação Elefantes. Mais olindense impossível. Namorar na Sé e comprar artesanato do Mercado da Ribeira já foram dois dos programas preferidos de Maria Carmen, que lembra, saudosa, da velha boemia que imperou na cidade. A restrição à construção de novos bares barrou tudo isso, declara. O MAR PELOS SOBRADOS Samico, um dos primeiros artistas plásticos a utilizar Olinda como ateliê, chegou em meados dos anos 60 à Rua de São Bento, onde mantém até hoje a casa de três andares onde mora e trabalha. Era uma espécie de refúgio. Apesar de ser abandonada, quase um pardieiro, ela encantava. Muito bonita e misteriosa. A escolha do local foi impensada e coincide com o motivo citado por outros artistas plásticos: os bons preços. Descoberta quase por acaso, a casa é um dos locais, em Olinda, mais especiais para o artista. Dali, entre os espaços vazios dos casarões e do Mosteiro de São Bento, ele enxerga o mar e o Porto do Recife. Hoje, Samico tem medo que a frágil política de conservação da cidade mude sua face colonial. Temo acordar e ver um prédio erguido em frente à minha janela, revela. Apesar de admirar a cidade em que vive, Samico não costuma retratá-la oficialmente em suas gravuras. Costuma trazer o fantástico para seus desenhos impressionantes. Quando resolvo pintar Olinda, é mais como uma desculpa para sentar na janela e ficar olhando o mar. Não pinto um coqueiro: prefiro inventar uma vegetação nova. Os dragões que desenho, eu só encontro aqui, nas nuvens, no céu de Olinda. Samico também elege seu destino favorito em suas raras andanças pelas ladeiras e ruas olindenses: o Seminário de Olinda, ponto mais alto da região. Dali, vejo o mar e os telhados. A prática da caminhada, no entanto, vem sendo deixada de lado por um motivo pouco idílico: a violência. Lembro que passeava muito pela cidade, descobria sempre uma nova rua, via e revia lugares, encontrava Delano por um beco desses... Mas, agora, não me sinto seguro, lamenta Samico. As calçadas de Olinda foram e são a grande fonte de inspiração dos irmãos Aprígio e Frederico Fonseca, que transpõem para telas os desenhos inusitados que encontram em locais como o calçamento da Igreja de São João, no Amparo. É de uma beleza estonteante, diz Frederico, que nasceu na Rua de São Francisco, onde hoje mora Delano e, também, João Câmara. As pesquisas pelas ruas da cidade renderam frutos, como as exposições Das Calçadas de Olinda, Pátio e Olanda, Olenda, Olinda . Frederico define-se mais como um crítico do que como um apaixonado pela cidade. Justamente por amá-la, acho que existe algo errado, diz, referindo-se, assim como Samico, à falta de segurança. Essa atração pelas figuras desenhadas nas calçadas faz com que Frederico e Aprígio (que vive em São Paulo) caminhem com certa frequência pelas ruelas e becos da cidade. O material, segundo Frederico, é farto e fascinante. São produzidos por artistas anônimos, que deixam sua arte impressa pelo chão. Daqui a muitos anos, vamos pesquisar essas calçadas da mesma forma que hoje pesquisamos materiais arqueológicos, acredita. Confesso apaixonado pela cidade-patrimônio, o pintor Luciano Pinheiro passou por diversos locais antes de se instalar definitivamente numa bonita casa situada no Alto da Sé. Desde o início, procurava um local de onde pudesse ver uma bela paisagem. Prezo a natureza, o silêncio. Consigo encontrar tudo isso aqui, ainda. A Igreja do Monte é um dos locais preferidos do pintor, que chegou a morar num das únicas casas dos arredores, durante os anos 60. Sei que temos várias deficiências. Mas não troco Olinda por nada. Não me vejo morando em outro lugar. Acordo pela manhã e escuto o sino da igreja tocar, diz Luciano, lembrando que Olinda guarda artistas de todas as vertentes e estilos. Isso é único em uma cidade. (F.M.) |
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