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SENSAÇÃO III
Psicólogo acredita no lado bom destes monstrinhos japoneses

"Como não se identificar com os caçadores de Pokémon?". Esta é a pergunta que o psicólogo infantil e fonoaudiólogo Carlos Brito levanta quando pensa na empatia provocada pelas histórias de Ash e do ratinho Pikachu. No seu consultório, em meio a vários desenhos de Pokémons rabiscados pelos seus pacientes, na faixa de 5 a 10 anos de idade, ele diz que começou a perceber o interesse das crianças pelos monstrinhos em junho último.

Curioso a respeito da novidade que começou a encantar seus pacientes, Brito assistiu alguns episódios do desenho e refletiu sobre o que viu. "As histórias giram em torno de três situações em que o protagonista Ash atua. Ele caça, captura e domina os Pokémons. Não há violência, apenas representações de rupturas e transformações benéficas que ajudam a criança a entender que elas podem se superar", explica.

Em um nível inconsciente, os pequenos telespectadores podem se identificar com Ash e ver, nas diversas evoluções dos monstros de bolso, uma forma de transpor suas angústias e ansiedades. Brito acredita que a simpatia pelos bichinhos de formas assexuadas reflete uma realidade contemporânea, na qual alguns rótulos de feminino e masculino, como os da moda, estão ruindo.

Ele salienta a grande demanda de crianças que sofrem de baixa autoestima e desafeto. "Os pais não têm mais tempo para seus filhos e, pela própria natureza criativa da infância, eles projetam nos desenhos a vida saudável que gostariam de ter".

Para o psicólogo, os Pokémons também têm más conseqüências para a formação da meninada. O resultado negativo está relacionado com a condição de consumidores prematuros em que os garotos são transformados. "Isso não está restrito aos bichinhos japoneses. De tempos em tempos, temos novidade que viram mania como, até recentemente, os Teletubbies. Cabe ao pais impor limites e interromper a ensandecida tendência consumista que atinge as crianças", alerta.

Professor da Universidade Católica de Pernambuco das disciplinas de Psicologia do Desenvolvimento, da Linguagem e do Aprendizado, Brito trabalha com outras seis escolas públicas nas quais participa de grupos de estudo com educadores. Quanto ao que tem observado, comenta: "Alguns colégios proibiram seus alunos de levar os bichinhos e os jogos para a escola. Talvez fosse mais interessante aproveitar o lúdico provocado pela mania e utilizá-lo como um instrumento para a educação da criança, contextualizando-o em sua formação", e conclui: "A escola precisa aprender a aprender com a criança".

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Jornal do Commercio
Recife - 07.01.2000
Sexta-feira