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CINEMA
A história deles dois não tem salvação

por KLEBER MENDONÇA FILHO

Em A História de Nós Dois (The Story of Us, EUA, 1999), de Rob Reiner, Bruce Willis e Michelle Pfeiffer são os Jordan, marido e mulher às voltas com um casamento em estado de decomposição, após 15 anos de convívio.

Esta produção hollywoodiana (Warner) trilha caminhos já mapeados por gente como Ingmar Bergman (Cenas de Um Casamento) e Woody Allen (Maridos e Esposas, via Bergman, diga-se de passagem). Apresenta visão inicialmente superficial de assunto tão humano, transforma o mote em sitcom de qualidade duvidosa e, no final, desmorona sob as convenções hollywoodianas do final feliz irracional.

Os Jordan têm dois filhos, Josh e Erin, casa e carro grandes, porém sem cachorro. Ele é roteirista de televisão, ela cria palavras cruzadas. Os dois escondem a infelicidade conjugal das crianças, que já começam a notar os falsos sorrisos. Optam pela separação quando os meninos vão para um acampamento de férias. O roteiro de Alan Zweilbel e Jessie Nelson sofre de uma desordem genérica aguda pois o espectador não tem a mínima idéia do que exatamente aflige os Jordan.

LISTA COMPLETA - Há uma listagem praticamente completa de males matrimoniais que casados e descasados poderão concordar. Perda da audição entre as partes, perda de contato visual (olho no olho), brigas em torno do nada, ciúmes, prisão de ventre afetiva, tentativas de quebrar a rotina com viagens a Veneza! Mesmo assim, a forma como tudo isso é apresentado soa estúpida e pouco convincente.

Para ilustrar falta de comunicação, Reiner põe Pfeiffer numa cozinha ao telefone com Willis, crianças gritando e máquina de lavar roupa ligada. Willis a informa via celular que o antigo apartamento dos dois, monumento do casamento de ambos, está sendo demolido. Ela não dá a devida atenção em meio à gritaria.

Flashbacks mostram os dois jovens, sob pesada maquiagem e perucas esquisitas, felizes, leves e soltos. Contrasta com um jantar no presente do casal calado. Entra o primeiro de uma série de clipes sobre brigas e gritos. Estes clipes com dezenas de imagens parecem tentar nutrir o filme (parto das crianças, sarampo, dente de leite, xingamentos, felicidade, etc) com um conteúdo que palavras e olhares não são capazes de fazer.

Reiner tinha veia cômica que parece ter se transformado em minúsculo vaso sangüíneo. Os amigos do casal tentam fazer graça e temas como sexo, sono, cansaço e cyber-adultério entram em pauta com a naturalidade e cinismo típicas de um sitcom. As mulheres, por exemplo, revelam estratégias de como evitar sexo com os maridos. Pior ainda é a cena em que o casal, na cama, recebe a visita de seus pais idosos, uma das mais horrorosas homenagens a Freud já vistas num filme.

Por se tratar de um filme americano, sexo é um dos assuntos menos examinados entre os Jordan. O tratamento do tema é distante e mecânico para um filme sobre casamento e a perda do tesão. Se Reiner não é nenhum Truffaut, Willis parece bem menos à vontade com a química de Pfeiffer, atriz que vem se entregando cada vez mais a esse tipo de produto (Íntimo e Pessoal, Nas Profundezas do Mar Sem Fim). Willis parecia mais vivo em O Sexto Sentido e mostra-se desconfortável com o filme e as situações. Marca presença, como bom profissional.

Pfeiffer, por sua vez, solta os cachorros dramáticos naquele tipo de cena que a Academia exibe para ilustrar o trabalho de uma atriz indicada, na noite do Oscar. É aí que o espectador, já desapontado, vê suas piores suspeitas se concretizarem rumo a um desfecho cor-de-rosa impróprio para um casamento de 15 anos que não cheira bem há tempos. No final, Eric Clapton parece pedir desculpas pelo filme com uma musiquinha chamada I'm Sorry.

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Jornal do Commercio
Recife - 07.01.2000
Sexta-feira