LG_jc.gif (3670 bytes)

POLÍTICA
Nabuco, o homem e o político

Não há dúvida de que, direta ou indiretamente, o homem sofre uma grande influência dos seus antepassados mais próximos. Se a influência é positiva, dir-se-ia que os ancestrais desempenham o papel de numes tutelares, como entre os povos da antiguidade.

Na vida dos antepassados de Joaquim Nabuco, a árvore genealógica cresceu verticalmente, sem curvas e sem mutações funcionais. Seu tio bisavô, seu avô e seu pai foram senadores do Império.

A metamorfose dos Disraeli e a perenidade social de Nabuco justificam as tonalidades diversas do gênio inglês e do pensador político brasileiro. O senador Nabuco de Araújo admirava os instantes monacais do seu sanctum, como chamava a sua biblioteca, onde se consagrava inteiramente aos seus trabalhos de advogado, de ministro de Estado e de elaborador do Código Civil, que morreu sem concluir.

Mas o grande estadista do Império brasileiro não era um solitário como o pai do eminente estadista do Império britânico. A vida mundana também o atraía, embora a ela só se rendesse para desvencilhar-se dos seus intensos compromissos e deveres sociais, a que o conduziam a ascendência aristocrática, o cargo exercido e a própria esposa, mulher de poucas letras, porém preocupada com as tradições da família, pertencente aos morgados do Cabo.

Era nas recepções ao grand monde social do Rio de Janeiro, na casa senhorial de seu pai, que Joaquim Nabuco revelava a sua formação de gentleman, sempre em destaque em virtude de sua beleza física. Sucediam-se as festas, às quais o adolescente apolíneo costumava levar os amigos a fim de participarem de fino gosto mundano.

Nabuco fazia as apresentações, iniciando-se pelos pontos mais altos da hierarquia da sociedade e da beleza feminina. Com Silveira Martins, o franco e debochado tribuno dos pampas, aconteceu um episódio interessante. Num ligeiro olhar encontrou sua afinidade eletiva. E, embora permitisse que Nabuco lhe fizesse as apresentações protocolares, manifestou-lhe o desejo de conhecer uma criatura à qual se referiu, na sua linguagem característica, chamando-a aquela potranquinha que ali está... Nabuco, na sua elegância irrepreensível, não se deu por achado; apressou-se em fazer a recomendação pedida.

Nos salões de luz e amor da rua Bela da Princesa, na esquina da Praia do Flamengo, ou em outra qualquer parte; alto, esbelto, de cabelos finos e acetinados, nariz reto e delicadoo, lábios de modelo, de Nabuco se poderia dizer o que já afirmara Lamartine sobre Goethe: na sua beleza olímpica se refletia o gênio que se desenrolava sem obstáculos e sem contradições.

Mas, como Tolstoi, enfarou-se da vida mundana da Corte, apesar de haver seguido em conseqüência do enfado um rumo diverso. Enquanto o romancista russo procura a solidão da Iasnaia Poliana, o poeta do "Gigante da Polônia" lança seu olhar varonil sobre os problemas nacionais de Massangana.

O autor de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" voltaria para casa, diante desse paralelo, cabisbaixo e absorto. E, em chegando à biblioteca, inquieto e impressionado, seus olhos fixar-se-iam ligeiros na sua "potranquinha" - o "Livro dos Capitães Célebres", de Cornélio, abrindo sem esforço a página sobre Alcebíades.

A dor moral da incerteza, que mefistofelicamente lanceava oo coração angelical de Machado, haveria de guiá-lo por outros caminhos em busca de um bálsamo salvador. E logo em seguida as páginas sobre Temístocles seriam devoradas com a ganância de um glutão.

Entretanto, Nabuco, temperamento sem contradições, filho da perfeição humana, sem vícios da juventude a resgatar com grandes merecimentos, recebeu com um sorriso de completa satisfação a comenda em forma de alcunha que o seu preceptor europeu acho por bem conferir-lhe.

Bem diversa haveria de ser a reação do mestre das "Crisálidas", que estudou francês com um forneiro de padaria, dde nacionalidade gaulesa, enquanto Nabuco tivera a sorte de fazê-lo com um barão da pátria de Frederico, o Grande. Nabuco não foi um autodidata como Lincoln. Pascal avalia em trinta anos e Sainte-Beuve em dez, no mínimo, as vantagens que os indivíduos bem nascidos levam "sobre os seus contemporâneos de origem humilde" (prefácio de "Memórias" de Humberto de Campos).

Apesar disso, ninguém pode deixar de reconhecer os méritos de um Bacon, nem o valor de um Nabuco. Mais do que os antípodas sociais, tanto um como outro poderiam deleitar-se na tranquilidade e no ócio prazenteiro. Homens veementes, como os chamaria Cícero, na sua "República", preferem arrostar as tempestades públicas, entre as suas ondas e vagalões.

Verdade é que Joaquim Nabuco não foi um político por vocação, irresistível. As conjunturas e os perigos das lutas partidárias nunca lhe ecoaram no espírito, do mesmo modo como acontecera com Rui Barbosa. Sociólogo e homem de letras, Nabuco foi quase um diletante na política.

As paixões partidárias e os interesses grupais que se chocam dentro das trincheiras de combate não tinham significação bastante para preocupá-lo seriamente. Durante o período de sua preparação política, Nabuco não sentia impulsos insofreáveis. Era elegante até nas ambições. Se não fosse um idealista e um patriota, tinha preferido acomodar-se à contemplação dos acontecimentos e do passado histórico.

Ele próprio confessa, numa das páginas mais impressionantes de "Minha Formação": "Uma vida invejável para mim teria sido então o assistir dos bastidores aos grandes fatos contemporâneos, conviver comm os personagens, e, como distração do presente, ter direito de entrada nas escavações de Atenas ou de Roma".

Foi o senso de responsabilidade de príncipe herdeiro dos galões com os quais já nascera; foi a necessidade de "outra provisão de Sol interior", de uma paixão humana, de um interesse vivo, palpitante e absorvente, que o fez abandonar o diletantismo suave que o envolvera e o transformara, depois, em simples amador da política vulgar, embora fosse um apaixonado pela política dos rasgos imortais.

Depois de dizer que nenhuma idéia política poderia causar-lhe entusiasmo, confessou que a emoção partidária lhe parecia negativa porque desconfiava da "solidez dos materiais e do terreno".

Nabuco não se sentia motivado nas suas atividades patrióticas se elas não contivssem as inspirações do gênio. E, por isso, afirmava: "Era preciso que oo interesse fosse humano, universal; que a obra tivesse o caráter de finalidade, a certeza, a incerteza do absoluto e do divino que têm as grandes redenções."

Não desconhecia que sua decisão haveria de forçá-la a lidar com homens. Aprendeu comm Shakespeare que a raça humana não raro apresenta semelhança com a raça canina, na qual há cães de caça, lebreiros, mestiços, meio-lobos, spaniels e mastins.

É possível que Nabuco não previsse a possibilidade de encontrar uma lealdade como a de Vila Bela, fiel à memória do Senador do Império. E talvez rememorasse, nas suas horas de meditação, aqueles versos que o Ator-Rei lançou à face do Rei-Assassino, durante a representação dramática que Hamlet levou a efeito no castelo: "Quem não precisa nunca perde o amigo, mas quem precisa e o amigo experimenta descobre ter um inimigo".

Na ocasião oportuna, verificou, porém, que Domingos de Souza Leão "tinha a religião da amizade e da lealdade, e a morte de Nabuco (o Senador), em vez de delir o seu compromisso, tornara-o de honra..." (Obras Completas, "Minha Formação", p. 152).

Nos suaves embates eleitorais que se seguiram à sua candidatura a deputado federal, vitoriosa sem nenhum sacrifício de sua parte, não é todo impossível que clássico da vida de Cícero estivesse esteriotipado na memória de Nabuco e de Vila Bela.

No ano em que Nabuco iniciou a sua vida pública ainda havia no Brasil um grande amor à palavra empenhada, bem ao contrário de hoje.

Experimentando as doçuras contagiantes da popularidade, Nabuco marchou na sua pregação cívica, transformando os epigramas e diatribes em aplausos ao orador empolgante, cônscio de que aqueles que o injuriassem hoje seriam os mesmos que o acompanhariam amanhã. Realizava, na tributa pública, a obra de Toscanini, na música, em busca do heróico, procurando a perfeição, de ensaio a ensaio, de refrega em refrega.

Aos 76 anos de idade, Disraeli aprendera quão os rumos da política e tateante a alma popular.

Nabuco, com menos de 30 anos, já sabia por intuição o que Disraeli aprendera na própria carne, quase no fim da vida. As setas ferinas e os doestos atrozes não tinham força para atingi-lo. Mais do que Oliveira Lima, que conhecia profundamente o lado negativo do Recife, ele era um mestre em psicologia de Pernambuco.

-----------------------------------------------------------------------


Jornal do Commercio
Recife - 0
6.12.99
Segunda-feira