POLÍTICA
Nabuco, o homem e
o políticoNão há
dúvida de que, direta ou indiretamente, o homem sofre
uma grande influência dos seus antepassados mais
próximos. Se a influência é positiva, dir-se-ia que os
ancestrais desempenham o papel de numes tutelares, como
entre os povos da antiguidade.
Na vida dos antepassados de Joaquim
Nabuco, a árvore genealógica cresceu verticalmente, sem
curvas e sem mutações funcionais. Seu tio bisavô, seu
avô e seu pai foram senadores do Império.
A metamorfose dos Disraeli e a
perenidade social de Nabuco justificam as tonalidades
diversas do gênio inglês e do pensador político
brasileiro. O senador Nabuco de Araújo admirava os
instantes monacais do seu sanctum, como chamava a sua
biblioteca, onde se consagrava inteiramente aos seus
trabalhos de advogado, de ministro de Estado e de
elaborador do Código Civil, que morreu sem concluir.
Mas o grande estadista do Império
brasileiro não era um solitário como o pai do eminente
estadista do Império britânico. A vida mundana também
o atraía, embora a ela só se rendesse para
desvencilhar-se dos seus intensos compromissos e deveres
sociais, a que o conduziam a ascendência aristocrática,
o cargo exercido e a própria esposa, mulher de poucas
letras, porém preocupada com as tradições da família,
pertencente aos morgados do Cabo.
Era nas recepções ao grand monde
social do Rio de Janeiro, na casa senhorial de seu pai,
que Joaquim Nabuco revelava a sua formação de
gentleman, sempre em destaque em virtude de sua beleza
física. Sucediam-se as festas, às quais o adolescente
apolíneo costumava levar os amigos a fim de participarem
de fino gosto mundano.
Nabuco fazia as apresentações,
iniciando-se pelos pontos mais altos da hierarquia da
sociedade e da beleza feminina. Com Silveira Martins, o
franco e debochado tribuno dos pampas, aconteceu um
episódio interessante. Num ligeiro olhar encontrou sua
afinidade eletiva. E, embora permitisse que Nabuco lhe
fizesse as apresentações protocolares, manifestou-lhe o
desejo de conhecer uma criatura à qual se referiu, na
sua linguagem característica, chamando-a aquela
potranquinha que ali está... Nabuco, na sua elegância
irrepreensível, não se deu por achado; apressou-se em
fazer a recomendação pedida.
Nos salões de luz e amor da rua Bela
da Princesa, na esquina da Praia do Flamengo, ou em outra
qualquer parte; alto, esbelto, de cabelos finos e
acetinados, nariz reto e delicadoo, lábios de modelo, de
Nabuco se poderia dizer o que já afirmara Lamartine
sobre Goethe: na sua beleza olímpica se refletia o
gênio que se desenrolava sem obstáculos e sem
contradições.
Mas, como Tolstoi, enfarou-se da vida
mundana da Corte, apesar de haver seguido em
conseqüência do enfado um rumo diverso. Enquanto o
romancista russo procura a solidão da Iasnaia Poliana, o
poeta do "Gigante da Polônia" lança seu olhar
varonil sobre os problemas nacionais de Massangana.
O autor de "Memórias Póstumas de
Brás Cubas" voltaria para casa, diante desse
paralelo, cabisbaixo e absorto. E, em chegando à
biblioteca, inquieto e impressionado, seus olhos
fixar-se-iam ligeiros na sua "potranquinha" - o
"Livro dos Capitães Célebres", de Cornélio,
abrindo sem esforço a página sobre Alcebíades.
A dor moral da incerteza, que
mefistofelicamente lanceava oo coração angelical de
Machado, haveria de guiá-lo por outros caminhos em busca
de um bálsamo salvador. E logo em seguida as páginas
sobre Temístocles seriam devoradas com a ganância de um
glutão.
Entretanto, Nabuco, temperamento sem
contradições, filho da perfeição humana, sem vícios
da juventude a resgatar com grandes merecimentos, recebeu
com um sorriso de completa satisfação a comenda em
forma de alcunha que o seu preceptor europeu acho por bem
conferir-lhe.
Bem diversa haveria de ser a reação
do mestre das "Crisálidas", que estudou
francês com um forneiro de padaria, dde nacionalidade
gaulesa, enquanto Nabuco tivera a sorte de fazê-lo com
um barão da pátria de Frederico, o Grande. Nabuco não
foi um autodidata como Lincoln. Pascal avalia em trinta
anos e Sainte-Beuve em dez, no mínimo, as vantagens que
os indivíduos bem nascidos levam "sobre os seus
contemporâneos de origem humilde" (prefácio de
"Memórias" de Humberto de Campos).
Apesar disso, ninguém pode deixar de
reconhecer os méritos de um Bacon, nem o valor de um
Nabuco. Mais do que os antípodas sociais, tanto um como
outro poderiam deleitar-se na tranquilidade e no ócio
prazenteiro. Homens veementes, como os chamaria Cícero,
na sua "República", preferem arrostar as
tempestades públicas, entre as suas ondas e vagalões.
Verdade é que Joaquim Nabuco não foi
um político por vocação, irresistível. As conjunturas
e os perigos das lutas partidárias nunca lhe ecoaram no
espírito, do mesmo modo como acontecera com Rui Barbosa.
Sociólogo e homem de letras, Nabuco foi quase um
diletante na política.
As paixões partidárias e os
interesses grupais que se chocam dentro das trincheiras
de combate não tinham significação bastante para
preocupá-lo seriamente. Durante o período de sua
preparação política, Nabuco não sentia impulsos
insofreáveis. Era elegante até nas ambições. Se não
fosse um idealista e um patriota, tinha preferido
acomodar-se à contemplação dos acontecimentos e do
passado histórico.
Ele próprio confessa, numa das
páginas mais impressionantes de "Minha
Formação": "Uma vida invejável para mim
teria sido então o assistir dos bastidores aos grandes
fatos contemporâneos, conviver comm os personagens, e,
como distração do presente, ter direito de entrada nas
escavações de Atenas ou de Roma".
Foi o senso de responsabilidade de
príncipe herdeiro dos galões com os quais já nascera;
foi a necessidade de "outra provisão de Sol
interior", de uma paixão humana, de um interesse
vivo, palpitante e absorvente, que o fez abandonar o
diletantismo suave que o envolvera e o transformara,
depois, em simples amador da política vulgar, embora
fosse um apaixonado pela política dos rasgos imortais.
Depois de dizer que nenhuma idéia
política poderia causar-lhe entusiasmo, confessou que a
emoção partidária lhe parecia negativa porque
desconfiava da "solidez dos materiais e do
terreno".
Nabuco não se sentia motivado nas suas
atividades patrióticas se elas não contivssem as
inspirações do gênio. E, por isso, afirmava: "Era
preciso que oo interesse fosse humano, universal; que a
obra tivesse o caráter de finalidade, a certeza, a
incerteza do absoluto e do divino que têm as grandes
redenções."
Não desconhecia que sua decisão
haveria de forçá-la a lidar com homens. Aprendeu comm
Shakespeare que a raça humana não raro apresenta
semelhança com a raça canina, na qual há cães de
caça, lebreiros, mestiços, meio-lobos, spaniels e
mastins.
É possível que Nabuco não previsse a
possibilidade de encontrar uma lealdade como a de Vila
Bela, fiel à memória do Senador do Império. E talvez
rememorasse, nas suas horas de meditação, aqueles
versos que o Ator-Rei lançou à face do Rei-Assassino,
durante a representação dramática que Hamlet levou a
efeito no castelo: "Quem não precisa nunca perde o
amigo, mas quem precisa e o amigo experimenta descobre
ter um inimigo".
Na ocasião oportuna, verificou,
porém, que Domingos de Souza Leão "tinha a
religião da amizade e da lealdade, e a morte de Nabuco
(o Senador), em vez de delir o seu compromisso, tornara-o
de honra..." (Obras Completas, "Minha
Formação", p. 152).
Nos suaves embates eleitorais que se
seguiram à sua candidatura a deputado federal, vitoriosa
sem nenhum sacrifício de sua parte, não é todo
impossível que clássico da vida de Cícero estivesse
esteriotipado na memória de Nabuco e de Vila Bela.
No ano em que Nabuco iniciou a sua vida
pública ainda havia no Brasil um grande amor à palavra
empenhada, bem ao contrário de hoje.
Experimentando as doçuras contagiantes
da popularidade, Nabuco marchou na sua pregação
cívica, transformando os epigramas e diatribes em
aplausos ao orador empolgante, cônscio de que aqueles
que o injuriassem hoje seriam os mesmos que o
acompanhariam amanhã. Realizava, na tributa pública, a
obra de Toscanini, na música, em busca do heróico,
procurando a perfeição, de ensaio a ensaio, de refrega
em refrega.
Aos 76 anos de idade, Disraeli
aprendera quão os rumos da política e tateante a alma
popular.
Nabuco, com menos de 30 anos, já sabia
por intuição o que Disraeli aprendera na própria
carne, quase no fim da vida. As setas ferinas e os
doestos atrozes não tinham força para atingi-lo. Mais
do que Oliveira Lima, que conhecia profundamente o lado
negativo do Recife, ele era um mestre em psicologia de
Pernambuco.
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