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Rua da Aurora

O Recife é, hoje, uma cidade bem cuidada. Às intervenções realizadas em torno da área portuária - e que vão prosseguir durante este ano - seguem-se outras nos bairros de Santo Antônio-São José e, já agora, na Boa Vista-Santo Amaro, com a entrega à população de um trecho da Rua da Aurora revitalizado, da Avenida Mário Melo até a Ponte de Limoeiro. Uma boa surpresa terá, também, um antigo morador que esteja afastado por alguns anos e, retornando, resolva dar uma olhada nos Coelhos, onde está sendo concluída a ponte-viaduto. Ou, do outro lado do rio, até a Rua Imperial, no mal-afamado Coque de antigamente.

Poderíamos falar ainda nas praças mantidas por grupos privados, que parecem disputar a primazia de cuidar melhor do que os outros do trecho a eles confiados, não somente no centro mas também na periferia da cidade. E dos mercados públicos, a começar pelo de São José até os mais distantes do centro. Mas nos fixaremos na nova urbanização do Cais da Aurora, pela importância dos rios e a beleza dos reflexos, nas águas, das luzes que emanam das suas margens.

O Projeto Rua da Aurora contemplou, por enquanto, um segmento de 400 metros. Construíram-se terraços que se debruçam sobre o lençol de água resultante da junção do Rio Beberibe (que chega através de Olinda) com o Capibaribe. A eles se juntam as águas do mar, sobretudo no período de maré alta.

Não foi esquecido o plantio de árvores e a execução de gramados. No canteiro central está erguido um obelisco em cujas bases estão guardados pergaminhos registrando fatos e vultos importantes que marcaram o Recife durante o Século XX. No próprio monumento, à vista dos passantes, palavras do escritor Gilberto Freyre e do poeta Carlos Pena Filho, além de um depoimento do prefeito Roberto Magalhães.

O sociólogo internacional, que escreveu a maior parte de sua vasta obra no bairro de Apipucos, lembra já se haver dito ser a Rua da Aurora "talvez a mais recifense", certamente numa alusão ao poeta Carlos Moreira que escreveu, no seu Pequeno Guia da Cidade do Recife: "Embora só tenha um lado/ (...) a Rua da Aurora é talvez / a mais recifense das ruas". Naquela época, entre os endereços ilustres da artéria estavam ainda a Prefeitura e a Secretaria de Segurança Pública (hoje, Defesa Social).

Em seus primórdios, um dos cartões postais mais característicos da cidade era apenas uma longa faixa tomada ao rio (ou, mais precisamente, aos mangues e alagados), conhecida como "Aterro do Casimiro", nome de um rico proprietário recifense. Por um tempo, foi a Rua Visconde do Rio Branco, mas o povo tanto a chamou de Rua da Aurora que este nome prevaleceu até hoje, em contraste com a outra margem do Capibaribe, chamada Rua do Sol.

Nenhuma outra rua da capital pernambucana se avizinha de tantas pontes - da Boa Vista, Duarte Coelho, Princesa Isabel e Ponte do Limoeiro, as três primeiras à altura do bairro de Santo Antônio, e a última ligando o bairro de Santo Amaro ao Recife Antigo. De fato, ela se estende da Rua da Imperatriz à Avenida Norte.

Entre as edificações marcantes da Rua da Aurora estão o prédio da Assembléia Legislativa e o Ginásio Pernambucano. Nela funciona ainda o suntuoso Cinema São Luís, que resiste à tendência de transferir todas as casas exibidoras de filmes para os centros comerciais periféricos.

O que se espera agora é que tenha andamento a idéia de valorização das margens do Rio Capibaribe, alcançando os Coelhos. E seguindo pela Ilha do Retiro, Madalena, Torre (a Jaqueira já foi beneficiada com melhoramentos), Parnamirim e Poço da Panela, até alcançar Caxangá e Várzea. É um projeto ambicioso, que inclui o trabalho dificílimo de livrar o curso d'água de seus focos de poluição, alguns situados no interior.

Mas, o recifense tem motivos de sobra para apostar na tenacidade do atual prefeito e no apoio do governador a todas as intervenções em benefício da melhoria dos aspectos urbanos da capital do Estado.


Jornal do Commercio
Recife - 07.01.2000
Sexta-feira