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JOELMIR BETTING

Bolha de sabão?

Megatendência do capitalismo opulento na primeira década do século 21: consolidar o processo de democratização da propriedade dos meios de produção, utopia dos socialistas fabianos na virada do século 20. Essa façanha política está sendo cometida pelos mercados primário e secundário de ações.

Em todo o mundo, esses mercados já estocam um patrimônio coletivo de US$ 32 trilhões, a dólar médio de outubro. Do tamanho, pois, do Produto Interno Bruto (PIB) global de 1999.

O mercado global de capitais (entendido como todo o estoque de ações e debêntures conversíveis em poder do público investidor formado por indivíduos, famílias, empresas, bancos, fundos e governos) não passava, há exatamente dez anos, de US$ 9,7 trilhões, pelo mesmo dólar de 1999.

Tem-se aí a ponta do iceberg do fenômeno telúrico da globalização. Esta começou pelo mercado financeiro.

Por uma simples e boa razão. O mercado financeiro não transporta átomos. Isso exige caminhão, vagão, navio e avião. Leva horas, dias e até semanas. Bancos, fundos, bolsas e o cash-flow de múltis e players globais transferem bites ou dados. Com a revolução das tecnologias da informação, desde o grande salto de meados da década de 80, o mercado financeiro passou a dar a volta ao mundo em menos de um segundo. O resto é só o começo do que vem por aí.

CONSAGRAÇÃO – Para variar, os Estados Unidos comandam o processo de consagração do mercado de ações. Primeiro, porque já era o maior mercado até 1990.

Segundo, porque nos últimos sete anos de prosperidade nacional bruta o investimento em ações (e fundos de) tornou-se o esporte favorito dos americanos. Terceiro, porque fulguraram na constelação das empresas de capital aberto (ao público anônimo) as novas estrelas da Economia da Informação, com valorização de mercado nem sequer imaginada pelo próprio rei Midas.

Resultado: quando meio mundo (re)descobre a participação da poupança popular na rentabilidade das empresas de sucesso, um estudo da Nyse revela que a fatia dos Estados Unidos no mercado global de ações disparou de 28%, em 1990, para 52%, em 1999. Na década, o estoque de ações em poder do público americano avançou de 94% para 187% do PIB.

NOVA ECONOMIA – Deve ser essa a tal de irrational exuberance com que se arrepia nos dias ímpares Alan Greenspan, brandindo a alta punitiva dos juros nos dias pares. Discute-se, agora, se tudo não passa de uma bolha de sabão made in Wall Street. Ou se não estaríamos fincando nossa perplexidade nas sólidas fundações de uma Nova Economia. Ainda não vislumbrada sequer pelos economistas.

Combustível
O enriquecimento coletivo em bolsa, irracional ou não, explica outro fenômeno subjacente: agora, em janeiro, o consumo interno completa 107 meses de alta ininterrupta. Um novo recorde na história bucaneira do capitalismo americano.

Locomotiva
Em 90, empresas de tecnologia respondiam por 9% da capitalização total do mercado. Em 99, posição de outubro, por 27%. Na Inglaterra, 18%. Na Alemanha, 11%. No Japão, 8%.

Nova onda
O impasse atuarial da previdência em todo o mundo vai encher a bola dos maiores investidores em bolsa: os fundos de pensão, expressão madura do capitalismo social nos EUA e na União Européia.

Paradigma
Peter Drucker resume: Os fundos de pensão representam o novo capitalismo, sem os barões do capitalismo.


Jornal do Commercio
Recife - 07.01.2000
Sexta-feira