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ARTIGO

Casa Maurícia

por AMAURY DE MEDEIROS*

João Maurício, mais tarde príncipe de Nassau-Siege, descendente de nobres e militares ilustres, com a idade de apenas 17 anos, integra-se ao exército holandês e quatro anos após adquire a patente de capitão. Uma proposta de Frederico Henrique à Companhia das Índias Ocidentais fez com que ele, em 4 de agosto de 1633, fosse nomeado governador, capitão e almirante-geral do Brasil. Antes de partir para Pernambuco, e aconselhado por Frederico Henrique, seu amigo particular e influente personalidade na época, adquire um esplêndido terreno no centro de Haia, com a finalidade de construir uma mansão, o que se realizou durante sua permanência em terras pernambucanas. O projeto, de Jacob van Campen. Durante sua ausência, a construção do rico palácio ficou sob a direção do arquiteto Pieter Post, irmão mais velho e responsável pela educação de Frans Post, que ficou órfão com a idade de dois anos de idade. Por intermédio de seu irmão, Frans foi apresentado ao conde Johann Mauritz van Nassau-Siegen, que terminou por trazê-lo para o Brasil como pintor, em 1637. Seu amigo íntimo e vizinho Constantijn Huygens, ficou supervisionando a construção em estilo clássico holandês. Após profundas divergências com a direção da Companhia das Índias Ocidentais, João Maurício retorna para a Holanda em julho de 1644. Os diretores da Companhia referem-se ironicamente à mansão do conde como “a casa do açúcar”, por imaginarem que ele teria conseguido vantagens exageradas nos negócios do açúcar. João Maurício refuta com veemência as insinuações e começa a decorar sua casa. No vestíbulo, pinturas de paisagens brasileiras (os valiosos quadros de Frans Post). Na grande sala do primeiro andar (agora Potter Room), a coleção brasiliana constituída de animais empalhados, intrumentos musicais, armas indígenas, conchas e corais, metais e pedras preciosas. Foi nessa casa que João Maurício, em 1644, organizou uma demonstração de danças brasileiras a cargo dos 11 índios que vieram com ele de Pernambuco. Por mais incrível que pareça, o conde não tinha muito apego ao seu magnífico acervo etnográfico, considerando-o material útil para manipulações diplomáticas e negociações econômicas. Presenteou ao rei da Dinamarca com uma série de pinturas representando figuras e costumes indígenas e naturezas mortas com frutas regionais – trabalhos de Frans Post e Albert Eckhout. Esses quadros atualmente se constituem no orgulho etnográfico do Statens Museum, em Copenhague. Outra curiosidade é que João Maurício recebeu de presente do rei da Dinamarca – não conseguimos detectar se antes ou depois da doação artística – um elefante asiático. Já em 1652,vendeu ao Grand Elector of Brandenburg, cerca de 800 esboços de frutas, plantas, peixes, répteis, pássaros, insetos, índios e mulatos. Pouco antes de sua morte,em 1679, fez doação de inúmeros quadros ao rei da França, Luiz XIV, incluindo seis quadros de Frans Post produzidos no Brasil e entre eles View of the island of Itamaraca, pintados em 1637. Quatro dessas pinturas permanecem no Museu de Louvre, em Paris. Procuramos ver esse quadro de Frans Post, o único que resta no Mauritshuis e não conseguimos; para nossa decepção, encontrava-se no Brasil, emprestado para as festividades dos 500 anos. Esse surpreendente desamor de João Maurício pelas obras artísticas que retratam sua gloriosa passagem como governador do Brasil Holandês foi providencial. Em 24 de dezembro de 1704, um grande incêndio destruiu por completo a Casa Maurícia. Com o passar dos anos, o edifício foi reconstruído, mantendo-se as linhas originais. Agora é um museu procuradíssimo por turistas e estudiosos devido ao valioso conjunto de obras de Rembrandt, Vermeer, Potter, Frans Hals e Jan Steen. Destaque para uma das obras primas de Rembrandt, The anatomy lesson of Dr. Nicolaes Tulp, de qualidade dinâmica e de grande simbolismo nas três mãos centrais: a esquerda do cadáver, sendo dissecada, a mão direita do Dr.Tulp, dissecante, e sua mão esquerda, explicativa. Sobre Maurício de Nassau, só o nome original da construção e, logo à direita da escadaria, um retrato do conde, pintado por Johannes de Baen. De visitas e conversas, ficou a impressão que João Maurício de Nassau é bem mais conhecido e estimado no Brasil – sobretudo em Pernambuco – que na Holanda.

* Amaury de Medeiros é médico e professor universitário


Jornal do Commercio
Recife - 10.05.2000
Quarta-feira

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