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LITERATURA
Cada autor tem a morte que merece

por Schneider Carpeggiani

Parece que a nova forma de as editoras conseguirem conquistar a atenção dos leitores leva o nome de ‘coleções temáticas’. Primeiro foi a Objetiva, que reuniu escritores do porte de Luís Fernando Veríssimo na série Pecados, na qual os autores tinham de escrever romances tendo como ponto de partida alguma das sete transgressões capitais. A qualidade nem sempre foi das melhores, como A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, talvez o mais fraco livro da sua carreira, que teve como tema a luxúria. Mas as vendagens, objetivo maior de propostas como estas, compensaram o mico literário. E a melhor definição daquela velha expressão ‘pérolas aos porcos’.

Continuando a jogar preciosidades aos suínos, a Companhia das Letras começa a lançar os livros da sua maior aposta para o ano 2000, a coleção Literatura ou Morte. Além de claramente se espelhar na bem-sucedida proposta da Objetiva, a nova série surgiu quando o escritor e filósofo Leandro Konder entregou a Luiz Schwarcz, responsável pela editora, o romance A Morte de Rimbaud. O livro conta a trajetória de um medíocre poeta brasileiro, chamado Severino Cavalcante, que freqüenta academias de musculação e recebe o apelido de Rambo ou, na forma afrancesada, Rambô (daí ser chamado de Rimbaud).

E como o próprio título da obra já deixa muitas pistas, ele é assassinado, sendo empurrado de um penhasco. Os suspeitos do crime são, os também escritores, Claudel, Malraux, Aragon e Rousseau. Essa enredo surreal, que ainda por cima é marcado por pedantes epígrafes de gente como Marx, Maquiavel, Borges e Shakespeare, fez com que o som das caixas registradoras soassem com força total na cabeça de Schwarcz, que pensou: “que tal fazer uma série de livros envolvendo crimes e escritores famosos como personagens?”.

ELEMENTAR, MEU CARO SCHWARCZ – Para concretizar a idéia, o todo poderoso editor da Companhia das Letras convidou o seu principal time de escritores para a empreitada. Os quatro primeiros volumes dessa série, lançados durante a 16ª Bienal do Livro de São Paulo, encerrada no último domingo, são os seguintes: Stevenson Sob As Palmeiras, Alberto Manguel; Medo de Sade, Bernardo Carvalho; O Doente Molière, Rubem Fonseca; e o citado A morte de Rimbaud, de Leandro Konder.

Assim como o Rimbaud, ou Rambo, de Konder, todos as obras de Literatura ou Morte trabalham a partir de enredos estapafúrdios. Rubem Fonseca, célebre tanto pela sua aversão a contatos com imprensa e público quanto pelo seu pouco fôlego como romancista, parte de um fato verídico para puxar o fio condutor de O Doente Molière: a morte do dramaturgo, em 1673, logo depois da encenação da sua peça O Doente Imaginário, cujas últimas palavras foi a clássica expressão “fui envenenado”.

Conhecido como um autor que fazia todo tipo de piada com médicos charlatões, mulheres com veleidades intelectuais, burgueses e religiosos fanáticos, os quais nem sempre gostavam de ser retratados a partir do seu senso de humor. Tamanho número de inimizades faz com que a lista de seus prováveis assassinos seja enorme.

Para solucionar o mistério, um marquês anônimo, amigo de longa data do comediante, que fica com sentimento de culpa por ter testemunhado o momento da morte de Molière e, em vez de tentar salvá-lo, chama um padre para administrar sua extrema-unção. Apesar de mistérios policiais serem uma das características da obra de Fonseca, ele dissolveu essa temática para fazer um romance que revive as intrigas da corte de Luís XIV. É melhor como um livro de história do que de suspense.

Já Alberto Manguel volta ao momento em que o ensaísta e romancista escocês Louis Stevenson, para tratar da sua tuberculose, decide morar em uma ilha do Pacífico Sul com a família. Neste cenário paradisíaco, ele se apaixona por uma adolescente nativa. Só que um crime acontece e todas os nativos começam a culpá-lo. Para salvar sua pele, Stevenson tem de descobrir o verdadeiro assassino. O que faz o escritor se tornar uma espécie de personagem que poderia muito bem fazer parte de um enredo de filme de ficção estrelado por Harrison Ford.

E toda essa história de célebres autores transformados em Rambos, bem longe de Rimbauds, não acaba por aí. Para o início do próximo semestre, a Companhia das Letras programa Moacyr Scliar escrevendo uma trama envolvendo Kafka e Leon Trótski e José Saramago (quem diria?) envolvendo Alexandre Dumas em problemas com a polícia.

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Jornal do Commercio
Recife - 10.05.2000
Quarta-feira