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LITERATURA II
O divino Marquês é o melhor desta série

Hilda Hilst é conhecida por berrar aos quatro ventos que não é lida por ninguém. Em seus momentos de maior devaneio chega até a dizer que é marcada por uma maldição que afasta os leitores das suas obras. Com um discurso parecido com o da ‘Obscena Senhora D’, Bernardo Carvalho, um dos autores mais elogiados pela crítica nos anos 90, tem falado muito, em suas últimas entrevistas à Imprensa, da pouca atenção que o público dedica ao que ele escreve. “Eu não me acho um escritor ‘difícil’. Sei que meus livros exigem um pouco mais de paciência, apenas isso. Não sei dizer o porquê de meus livros venderem pouco”, afirmou Carvalho em entrevista por telefone ao JC.

Mesmo com esse falatório chatoso, Carvalho realizou o melhor livro da primeira leva da coleção Literatura ou Morte, Medo de Sade. “Quando Luiz Schwarcz pediu para que eu escrevesse um dos volumes da série, eu lhe propus um romance tendo como personagem Lewis Carroll ou Sade, na mesma hora ele pediu que eu realizasse um centrado no Marquês”, afirmou.

Ao tratar do Marquês, Carvalho mostrou que entende bem o universo do maldito autor francês. Em Sade, o sexo só é importante na medida em que é teatralizado, ficando o prazer totalmente de fora. “Teve um cara que me escreveu, a respeito desse livro, perguntando ‘cadê o prazer? Cadê o prazer’, só isso. E ele tem razão, não há prazer em Medo de Sade”.

O livro, escrito em forma de peça de teatro e dividido em duas partes, começa com um certo Barão de LaChafoi, preso após uma noite de orgia, que teve como conseqüência um assassinato. Tido como principal suspeito, ele não tem a menor idéia de quem realmente foi assassinado.

Por essa sua falta de memória, o Barão é visto como louco e enviado ao hospício de Charenton, onde está internado o Marquês de Sade, provavelmente a única pessoa no mundo que poderia entender o seu drama, afinal poucos entenderam todos as nuances da corrupção humana como ele. A partir desse momento, o livro começa a causar um verdadeiro pavor no leitor pois ele começa a ter contato com uma voz, que no escuro da cela, começa a interrogar o Barão sobre a sua história. “Você é o mestre, o Marquês de Sade?”, pergunta, apavorado, o prisioneiro.

Quando os questionamentos do Barão chegam ao auge, a primeira parte do livro é encerrada. Da cela do hospício de Charenton no século XIX, somos levados à década de 90, com a história de um casal que se casa no Sul da França em uma cidade que abriga as ruínas do castelo de um barão libertino, que ficou louco.

Como o amor dos dois logo acaba, para manter o casamento, eles decidem utilizar-se de jogos de horror para continuar juntos. De acordo com o casal, “o horror é o único sentimento que não tem fim”. A única regra desse jogo, denominado ‘Medo de Sade’, é a seguinte: o primeiro que tiver medo, perde.

Fã de Teatro, Carvalho planeja transformar o livro em uma peça de teatro em breve. “Tenho todas as idéias na cabeça de como quero que a peça seja realizada, mas não quero fazer a adaptação pessoalmente”, afirmou .

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Jornal do Commercio
Recife - 10.05.2000
Quarta-feira