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MÚSICA II
O bom forró não mente e vai ficar para sempre

por Luiz Joaquim

Fala-se no sanfoneiro-cantor Flávio José e lembra-se logo do xote Caboclo sonhador, de Maciel Melo, que lhe garantiu o merecido reconhecimento pelo qual o músico vem trabalhando nos últimos 25 anos de carreira. Flávio José está lançando o 17º álbum, Seu Olhar Não Mente, com 12 faixas oferecendo qualidade melódica e harmônica característica dos tradicionais sanfoneiros nordestinos. O novo CD traz a simplicidade do artista que acredita na alegria do ritmo, sem afetação.

O conhecimento de causa é a marca de Flávio José. “Uma vez, aos cinco anos, vi Luiz Gonzaga tocando em cima de um caminhão, em Arcoverde. Essa imagem feliz nunca mais saiu da minha cabeça e acabou influenciando toda minha vida e carreira profissional”, recorda o músico. Para ele, forró é um diálogo com a tradição. E a tradição dos sanfoneiros nordestinos carrega uma história de instrumentistas ‘puros’, e não de instrumentistas-cantores. Na época do velho Januário, pai de Gonzagão, a dança era puxada pelo fole-de-oito-baixos e percussão; o canto era parte secundária.

O reflexo dessa sabedoria aparece em várias canções do novo CD, como Minha prenda, de Pinto do Acordeon, na qual o cantor entoa a voz de maneira confortável, percorrendo as notas longas com a mesma naturalidade com que manipula seu instrumento. Assim como Minha prenda, a faixa A vida é você também traz a temática comum aos forrós: as ilusões e desilusões amorosas.

O disco abre com três xotes, o ritmo mais bem aproveitado pelo artista. Como é o caso de Jogo limpo, que combina com graça uma boa sonoridade e um trocadilho fácil de pegar. O compositor Petrúcio Amorim volta a fazer parceria com Flávio José, agora em um belo baião em homenagem Luiz Gonzaga chamado O rei nas estrelas. Outra referência é a regravação do clássico Qui nem jiló, de Humberto Teixeira e Gonzagão. Lembranças, do próprio Flávio José, é um retrato da vida no Nordeste cantando sob a marcação forte da zabumba, do agogô e acordeon.

Tudo mudou, de Aracílio Araújo, já é mais alegre. Um forró dançante gostoso, quase um samba; trazendo um elemento aparentemente fácil de conceber mas difícil de atingir, conhecido como ‘ritmo’. Há espaço também para a música reivindicatória. Deixe o rio desaguar, de Aracílio Araújo, faz a linha das canções cultivadas por Humberto Teixeira. A cobrança aqui é feita em letra inspirada, solicitando mais atenção para o projeto de transposição das águas do São Francisco.

O disco acrescenta mais um passo positivo no trajeto do artista paraibano que tem levado, com seus shows, a raiz da cultura musical nordestina aos lugares mais díspares do País como Belo Horizonte, Manaus, Vitória e São Paulo. “As pessoas nas lojas de disco não pedem para ouvir o novo disco do Flávio José. Perguntam apenas se o CD já chegou e levam na hora”, diz satisfeito, chamando a atenção para os primeiros sinais de decadência dos grupos predatórios do ritmo que tanto respeita. “O forró eletrônico é um modismo, e todo modismo passa. Fica o que é legítimo”.

Serviço

Seu Olhar Não Mente, de Flávio José. BMG. Preço médio: R$ 14,90.

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Jornal do Commercio
Recife - 10.05.2000
Quarta-feira