TEMPO DOS FLAMENGOS
Arquivos dos
Países Baixos por Mário Hélio
Com um guia à mão,
alguém segue viagem e tenta encontrar o que procura.
Amanhã, o jornalista Leonardo Dantas Silva fará isto
às avessas. Viajará, e o resultado será um guia. O
Guia de Fontes Manuscritas de Interesse da
História do Brasil Existentes na Holanda, que
pretende publicar até novembro, pela editora Massangana,
da Fundação Joaquim Nabuco.
Amsterdam, Haia e Leiden
são os lugares do roteiro. Os endereços também já
foram escolhidos: arquivos diversos, onde já se
encontram outros pesquisadores brasileiros, como o
professor Marcos Galindo, indexando e anotando tudo o que
existe sobre o período em que os holandeses dominaram o
Brasil.
Na verdade, será a
terceira expedição de vulto àquelas partes
dos Países Baixos. A primeira foi no final do século
passado, com José Hygino Duarte Pereira. A segunda, na
década de 50 e 60 deste, com o historiador José Antonio
Gonsalves de Mello, que consultou nada menos que 60 mil
documentos.
As pesquisas enriqueceram
o acervo do Instituto Arqueológico, Histórico e
Geográfico Pernambuco, que mantém em sua sede cópias
de muitos daqueles documentos lidos pela primeira vez no
país. O trabalho de Leonardo Dantas Silva e os outros
pesquisadores tornará mais fácil a labuta de quem se
interessa pelo assunto, pois com o seu guia informará
não somente o tipo de documento, mas onde está e como
consultá-lo. Tudo integra o Projeto Resgate, do
Ministério da Cultura.
O interesse pelo passado
do Brasil melhora com as efemérides. É o que acontece
agora, nas comemorações dos 500 anos de descobertas
portuguesas. Mas, na prática, o patrimônio cultural
continua entregue, quase que por louvor a uma perversa
tradição, às traças.
O Arquivo Público de
Pernambuco, por exemplo, quando receberá do governo
alguma atenção concreta, e não a retórica de sempre?
Jornalistas, historiadores, poetas, advogados e outros se
alternam, ano após ano, no cargo, e os problemas são os
mesmos. Não haverá na sempre minguada verba para a
cultura nenhum centavo para preservar a memória? Nenhuma
homenagem ao passado poderia ser mais eloqüente. O que
está mal deve ser mantido assim, ou então até que
passe, vire escombros, poeira, esquecimento.
O Instituto Arqueológico,
Histórico e Geográfico Pernambuco, dirigido por um
especialista no Brasil holandês, há anos vive
situação precária.
Pelo menos, o mercado
editorial tem sido generoso com a história. A começar
da colonial. Um exemplo é o livro Imagens de Vilas
e Cidades do Brasil Colonial, de Nestor Goulart
Reis, que foi lançado, na semana passada, na abertura da
exposição Redescobrindo o Brasil, em São
Paulo.
A pesquisa do sociólogo e
arquiteto começou há 43 anos, no Recife, e compila
reproduções de desenhos de vilas e cidades brasileiras
do século XVI ao XVIII. Entre as teses que pretende
comprovar está a de que houve planejamento urbanístico
em muitas cidades coloniais, ao contrário do que afirma
a maioria dos livros.
Alguém poderia considerar
irônico que haja tantos pesquisadores importantes em
Pernambuco e minguado interesse das autoridades em apoiar
instituições históricas e artísticas. Mas a cantilena
das dificuldades da inteligência na província. Remonta
a Oliveira Lima. O seu amigo Gilberto Freyre, quando
pesquisava, na Biblioteca Pública Estadual, no começo
do século, considerava-a um pardieiro.
O que Leonardo Dantas
Silva encontrará na Holanda será bem diferente.
Arquivos que são Arquivos. Reais. Conhecerá, in loco,
material já seu familiar. Seja nas anotações de
Gonsalves de Mello (mais de oitocentas páginas, em
grande maioria inéditas), seja nos documentos de Duarte
Pereira, que ele também pretende publicar.
Foram somente 24 anos, mas
até hoje a breve presença holandesa parece despertar o
fascínio dos brasileiros. Especialmente, dos
pernambucanos, que estiveram sob o seu domínio, de 1630
a 1654, e conheceram um grande florescimento cultural,
por iniciativa de um militar alemão: João Maurício de
Nassau. No Espaço Cultural Bandepe está aberta desde o
mês passado uma grande exposição iconográfica dos
pintores que ele trouxe. Além de mapas e outros objetos.
Até o final do ano, a
Topbooks deve publicar mais uma edição do clássico
Tempo dos Flamengos (há alguns anos
esgotado). E tem republicado, há três anos, outras
obras fundamentais ,de Evaldo Cabral de Mello. Do mesmo
autor, lançou, no ano passado, O Negócio do
Brasil, que amplia o eixo da sua própria pesquisa,
e abre um campo até agora menos explorado dos estudos
especializados: a história econômica do Brasil sob o
jugo dos neerlandeses.
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