TEMPO DOS FLAMENGOS IV
O
mais completo estudo é de 1947 De todos, o mais importante é o
Frei Manuel Calado do Salvador (1584-1654), não só
porque participou da guerra da resistência contra o
invasor, mas também, e principalmente, por ter privado
da amizade do Conde João Maurício de Nassau, que, entre
1637 e 1644, foi o Governador do Brasil Holandês. Misto
de guerrilheiro, pregador, poeta e cronista, esse
religioso natural de Vila Viçosa (Portugal) consegue
escrever a mais palpitante obra sobre o dia-a-dia da
dominação holandesa, dando-lhes vida e movimento. A
importância de seu O Valeroso Lucideno já fora
ressaltada por Robert Southey, in History of Brazil.
Londres, 1810. 3 v., e por Capistrano de Abreu, in
Memórias de um frade. Revista do Instituto Arqueológico
e Geográfico Pernambucano, 1905-06, v. 65, p. 18. Para
José Antônio Gonsalves de Mello, "o seu livro é
admirável, pois, além de ser o único que nos apresenta
flagrantes reveladores da vida de portugueses e
holandeses, da cidade e do campo, da guerra e dos salões
dos palácios nassovianos, no período de 1630 a 1646, é
escrito com uma vivacidade encantadora. Da fase anterior
ao movimento restaurador, iniciado em 13 de junho de
1645, o frade em vez de escrever a crônica miúda, do
dia-a-dia dos acontecimentos, apresenta-se em painéis,
salientando episódios marcantes a que a sua pena - quase
um pincel de mestre pintor - dá vida e movimento".
O período da dominação
holandesa no Brasil veio fascinar os mais diversos
autores que, a partir do século XIX, vieram centralizar
nele os seus estudos e pesquisas. Assim surgiram os
trabalhos de Pieter Marinus Netscher (1824 -1903), onde
pela primeira vez são utilizadas partes dos documentos
brasileiros conservados nos Arquivos dos Estados Gerais,
o que gerou a publicação em francês sob o título: Les
hollandais au Brésil: notice historique sur les Pays-Bas
et le Brésil au XVII siècle. Haia: Belifante Frères,
1853. 210 p. Anos mais tarde coube a um brasileiro,
Francisco Adolpho de Varnhagen (1816-1878), escrever
sobre o mesmo assunto quando da publicação de História
das lutas com os Hollandezes no Brasil, desde 1624 a
1654. Vienna d' Áustria, 1871. 365 p., que teve no ano
seguinte uma "nova edição melhorada e
acrescentada", com 401 p., acrescida de índices.
Estas edições de Varnhagen, no entanto, são superadas
pelo seu próprio autor, quando da publicação da
segunda edição de sua História Geral do Brasil, antes
de sua separação e independência de Portugal. Muito
augmentada >e melhorada pelo autor. 2. v. Rio de
Janeiro: E. & H. Laemmert, s.d. [1877]. A obra
recebeu uma edição mais apurada, com notas de
Capistrano de Abreu, quando de sua terceira edição, Rio
de Janeiro e São Paulo: Laemmert & C., 1907. 522 p.
Por iniciativa do
Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano,
instituição fundada no Recife em 1862 ainda em
funcionamento, os estudos sobre o domínio holandês no
Brasil passaram a ter grande interesse a partir da
missão do pesquisador José Hygino Duarte Pereira
(1846-1901) em arquivos dos Países Baixos efetuada entre
os anos de 1885 e 1886, cujo relatório é publicado na
edição do Diario de Pernambuco de 2 de setembro de
1886.Trabalhou ele particularmente nos Arquivos dos
Estados Gerais e no Arquivo da Companhia das Índias
Ocidentais, acervos incorporados ao Arquivo Geral do
Reino dos Países Baixos de Haia em 1856, resgatando
documentação das mais preciosas para o entendimento de
tão importante período. No dizer de José Honório
Rodrigues (op. cit.) a Coleção José Hygino "se
constitui no maior acervo de documentos [sobre o Brasil
Holandês] fora da Holanda", em sua grande parte
desconhecida das pesquisas desenvolvidas por Netscher e
por Varnhagen que ali trabalharam antes de 1856. No seu
acervo encontra-se a documentação da Câmara da
Zelândia, Brieven en Papieren uit Brazilie (13 v.) e as
Dagelijkse Notulen (12 v.), afora quatro outros volumes
encadernados e quatro maços manuscritos, perfazendo o
total de cerca de 13.200 páginas.
Graças a tão importante
acervo documental, pôde Alfredo de Carvalho (1870-1916)
e Francisco Augusto Pereira da Costa (1851-1923)
publicar, na Revista do Instituto Arqueológico e
Geográfico Pernambucano, algumas traduções de
documentos preciosos bem como vários ensaios sobre o
Brasil Holandês sem a necessidade de sair do Brasil; o
mesmo acontecendo nos anos quarenta deste século com
José Antônio Gonsalves de Mello, o que veremos mais
adiante.
Em sua colaboração ao
Manual Bibliográfico de Estudos Brasileiros, organizado
por Rubens Borba de Morais e William Berrien (Rio de
Janeiro, 1949. p. 554), José Honório Rodrigues,
comentando a obra de Hermann Wätjen sobre o período,
Das Holländische Kolonialreich in Brasilien: ein kapitel
aus der kolonialgeschichte des 17. Gotha, 1921. 352 p.,
diz ser este "o melhor estudo até hoje realizado
sobre o domínio holandês no Brasil. Bem planejado, bem
pensado, este livro impõe-se como o mais completo sobre
o assunto. Isso não importa em lhe reconhecer caráter
decisivo ou indiscutível, como acreditam alguns. Muitas
questões precisam ser reexaminadas, muitas pesquisas
novas esclareceram dúvidas do autor e, principalmente,
deve ser indicada a sua parcialidade na utilização das
fontes. A irrestrita irritação pelos documentos e
livros luso-brasileiros é fato indiscutível, que muito
prejudica e invalida algumas conclusões". Existe
desta obra uma tradução brasileira de Pedro Uchoa
Cavalcanti, sob o título: O domínio colonial holandês
no Brasil. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1938. 560
p.
Dois anos antes da
publicação do Manual Bibliográfico de Estudos
Brasileiros, porém, José Antônio Gonsalves de Mello
revelava ao público interessado no tema o mais completo
estudo sobre o período, quando do lançamento do seu
livro Tempo dos Flamengos - Influência da ocupação
holandesa na vida e na cultura do Norte do Brasil. Rio de
Janeiro: José Olympio Editora, 1947. Prefácio de
Gilberto Freyre. 328 p. il. com índices. (Coleção
Documentos Brasileiros; 54). Como se respondesse aos
anseios dos críticos da bibliografia publicada até
então, o autor, apoiado em extensa bibliografia e na
documentação reunida por José Hygino Duarte Pereira,
aborda com maestria a influência dos holandeses na vida
urbana e na vida rural, bem como sua atitude para com os
negros e a escravidão, para com os índios e a
catequese, para com os judeus e as religiões católica e
israelita. A obra teve uma segunda edição, 5.000
volumes, em 1978 e uma terceira, 3.000 volumes, em 1987.
Sobre o período holandês
o mesmo autor desenvolveu estudos vários, utilizando-se
para isso dos conhecimentos obtidos quando de suas
pesquisas em arquivos dos Países Baixos (1957-1958) e de
suas constantes investigações em arquivos portugueses,
ingleses e espanhóis (Simancas, Sevilha e Canárias).
Durante cerca de 40 anos José Antônio Gonsalves de
Mello reuniu invejável documentação sobre a presença
de cristãos-novos e judeus na capitania de Pernambuco,
durante a primeira fase da colonização e quando da
dominação holandesa. Estudos neste sentido lhe valeram
a publicação do livro Gente da Nação -
Cristãos-novos e judeus em Pernambuco 1542-1654. Recife:
FUNDAJ - Editora Massangana, 1989. 552 p. il. (Estudos e
Pesquisas; 65), a mais importante obra sobre a presença
de cristãos-novos e judeus no Brasil colonial, a partir
de 1542, com destaque para o funcionamento da primeira
comunidade judaica organizada em terras da América, a
Zur Israel do Recife, formada por judeus sefardins
portugueses e alguns poucos ashkenazins vindos dos
Países Baixos para o Brasil Holandês. Com a expulsão
dos holandeses, em 1654, cerca de 150 famílias da
comunidade retornaram a Amsterdam, migrando algumas delas
para ilhas do Caribe e 23 de seus membros, entre adultos
e crianças, chegaram por conta do destino à América
Inglesa onde, na Nova Amsterdam, fundaram em setembro de
1654 a primeira comunidade judaica daquela que veio a ser
a cidade de Nova York. A obra inclui, além de índice
onomástico, um dicionário biográfico dos judeus
residentes no Nordeste do Brasil, no período
compreendido entre 1630 e 1654.
* Leonardo Dantas
Silva é jornalista e diretor da Editora Massangana, da
Fundação Joaquim Nabuco
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