LITERATURA II
Poesia
exige esforço do leitor por Luiz Carlos Monteiro
A estréia de Jairo Lima
em poesia perfaz-se após um processo de depuração
poética que não deve ter sido fácil nem caracterizado
pela pressa, ou mesmo antecipadamente preconizado no
tempo. É lícito ponderar também que outras razões e
motivações de ordem íntima devem decerto existir para
uma publicação de plena maturidade, configurada neste Livro
das árias e das horas & pequeno livro das nuvens (São
Paulo, Iluminuras, 2000). O fato é que o presente volume
- que tanto pode ser um, como conter dois ou desdobrar-se
em três ou quatro livro(s) - consegue trazer algumas
surpresas e um teor original que não se mostram tão
evidentes, mesmo para aqueles que, na aspereza cotidiana
e na suprema indiferença de nossos dias, ainda rendem
culto a uma atividade clandestina como a poesia. E neste
rol situam-se os que a escrevem, os que a lêem, os que
dedicam-se a interpretá-la, ou ainda combinações
possíveis dos três casos.
A poesia de Jairo Lima
exige, portanto, na maioria do seu percurso, um leitor
atento, aceso, aberto, intelectualmente sofisticado e com
as antenas voltadas para um conhecimento mínimo da
ancestralidade da épica grega (Pequeno livro das nuvens)
e, causa desejável mas não obrigatória, para os
desvãos da música clássica (Livro das árias e das
horas). Afirmar isto não implica, de outra forma, na
exclusão radical de um leitor não-iniciado nas
modalidades anteriores. Pois há sempre a possibilidade
de leituras outras e interpretações diferenciadas, e em
certos instantes detecta-se a ocorrência de poemas onde
tais modalidades estariam temporariamente ausentes.
Exemplo disto é o poema mais curto do volume, constante
no Livro das árias e das horas, "as margens da tua
hora", que pode muito bem representar a anunciação
intencional do Pequeno livro das nuvens: "inicia-se
o pássaro na geografia do teu exílio/ varandas lentas
lentas ampulhetas transferem ao sol o mormaço/ de tuas
colunas brancas (nuvens) ainda inescritas/ a que o mar
intercala um parágrafo// (um cálice vertical recolhe os
despojos de tua sombra)". Mesmo incorrendo-se no
risco de uma interpretação parafrásica, neste poema um
desdobramento francamente espacial permite o confronto
interior vs. exterior: ao pássaro opõe-se a
circunstância do exílio em casa, o sol recebe o impacto
do seu próprio mormaço através das
varandas-ampulhetas, o mar mantém em suspensão a poesia
futura das nuvens e o cálice em sua verticalidade redime
o poeta da horizontalidade de sua sombra.
Esse poema pode ainda
estabelecer conexões temáticas com outros poemas do
Pequeno livro das nuvens, como no caso de "vôo e
exílio", com um desmembramento parcial mas não
repetitivo: "há um vôo entre aqui e lá-distante
que o olhar Afasta e anula/ sobre a carcaça desolada há
uma parábola vazia,/ um caminho sem pegadas, uma
crescente crua e muda// o pássaro banhado em não sabe o
caminho/ o pássaro banhado em não sabe o designo/ mas
não acende os cristais que acolhem acesos o rastro
interdito/ olhos de sal escassos prescrevem desertos aos
vales do exílio// a luna de sol nascido deixa tênues
vestígios de ouro corroídos de ácidos/ vivos/ o mar
devolve os seus naufrágios em uma/ então".
No Pequeno livro das
nuvens, uma série de lexemas construídos a partir do
radical afast-, se mostrará representativa de um dos
modos de sua abordagem. Novas e outras derivações
verbais, substantivas ou adjetivas são produzidas,
aflorando-se sempre iniciadas por maiúsculas, não
importando a sua posição no verso, na estrofe ou no
poema, com uma incidência freqüente e insistente. Tal
"afastamento" pode consistir, de um lado, na
impossibilidade de se alcançar o que está próximo mas
impalpável, ou inversamente, o que seria palpável mas
que revela-se ausentado e distante.
Ainda que transite numa
época que prima por uma objetividade crítica ilimitada,
e que também esmera-se no pragmatismo como uso total e
indiscriminado de um texto por quem dele se
"utiliza", como defende e apregoa o pragmatista
Richard Rorty, o crítico não deve sentir-se intimidado
em buscar algum sentido ou significado na análise de um
texto em especial.
Os recursos formais dessa
poesia - que revelam-se mais pelo que excluem e abolem,
do que pelo que enunciam e destacam - centram-se numa
maneira modernista de abolição da sintaxe, ou de parte
desta, com a exclusão de sinais gráficos de
utilização obrigatória na sintaxe oficiosa e
rotineira, ou com a aplicação destes sinais de forma
inventiva e às vezes inaudita. A partir dos títulos
do(s) livros(s) e dos poemas, quase tudo é grafado em
caixa baixa - e aqui, lembre-se en passant o
poeta-inventor e. e. cummings, que exigia a grafia do seu
nome sempre em caixa baixa -, sendo raras as ocorrências
de estrofes ou poemas iniciando-se com maiúsculas.
No Livro das árias e das
horas, os objetos e instâncias da especialidade musical
são dispostos nos poemas em combinações com outros
vocábulos de procedências as mais diversas, numa
superposição que é o elemento definidor na
construção de metáforas, alusões, alegorias,
associações e dissonâncias inusitadas.
A obsessiva referência à
"grande música" atravessa quase todos os
poemas do Livro das árias e das horas, senão como
modelação explícita e objetivada, em figurações
metafóricas que podem ser perquiridas em suas relações
principalmente de som ou de movimento mantidas com
aquela.
Guardadas as devidas e
perceptíveis diferenças de casos, para citar um exemplo
extraliterário, talvez Jairo Lima aproxime-se bastante
da atitude de um Karl Popper, filósofo vienense que, na
sua Autobiografia Intelectual, afirma ter sido a música
clássica definidora para o estabelecimento de algumas
importantes inferências e concepções filosóficas que
executou.
A relação cultivada por
Jairo Lima entre a poesia e a música é sensivelmente
diferente da discussão ainda corrente entre poema e
canção popular. Nesta discussão, há os que denunciam
o desvirtuamento do poema quando revestido de vozes e
instrumentais peculiares à música. E há os que
garantem não perder o poema sua qualidade estética de
base se transformado em canção. No caso de Jairo Lima
este debate faz-se inócuo, pelo fato de o poeta apenas
transplantar da música erudita o seu vocabulário
específico e estrito para efetivá-lo no corpus
expressional de uma linguagem poética objetiva.
Um certo charme erudito
poderá dar margem a que uma categoria de leitores
abandonem logo o Livro das árias e das horas &
pequeno livro das nuvens aos primeiros versos lidos. E
mesmo naqueles leitores "ideais" - ou, como
quer Umberto Eco, "leitores-modelo" - que,
profissionalmente ou não, se dispuserem a ir até o
final do(s) livro(s), a inquietação, quando não
permeada pela distração ou pela leitura desatenta,
será a resultante de um esforço único, configurado
entre o conhecimento e o espanto.
Estar a contrapelo de uma
parcela do público leitor, mesmo que aí esteja
incluída uma facção do de poesia, não significa
unilateralmente minimizá-lo ou desprezá-lo. Significa,
sim, fornecer-lhe a oportunidade de conferir uma
produção de poesia que o incite a um esforço de
pensamento e a uma reflexão vigorosa no âmbito do
poético, e não à comodidade de apenas desfrutá-la
sensorialmente. O poeta tem consciência de que estas
circunstâncias se atravessam no seu caminho. Mas ele
mesmo descarta este circunstancialismo incômodo com a
demonstração estratégica da eficiência formal e
estilística alcançada na sua poesia. E no seu modo
particular de escrever poesia, obtém os resultados que
talvez de si mesmo espera, traduzidos por um imenso
esforço pessoal, e referendados também por um fazer
poético pacientemente executado ao nível funcional de
uma competência intrínseca e reveladora.
* Luiz Carlos Monteiro
é poeta e crítico literário
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