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A hora e a vez da arte na cozinha

por Flávia de Gusmão

Em visita a Salvador, com parada repetida no Trapiche Adelaide (o único da cidade que merece a fama que tem) vem à mente a eterna pergunta e a rivalidade subjacente: quem está à frente no cenário gastronômico, a terra do coco ou a do dendê?

Eu responderia Recife, mesmo com a espada do bairrismo a pender sobre a cabeça. Embora o baiano Caetano insista em dizer que Narciso acha feio o que não é espelho, é justamente no outro onde encontramos parâmetro para melhor entender nossas deficiências. O Trapiche brilha como uma estrela solitária, fazendo saltar aos olhos a falta de uma cozinha consciente, objetiva e, sobretudo, profissional. O Recife tem que deixar para trás a culinária empírica, de execução, para cada vez mais se enfronhar nos terrenos da criação, da ciência e da arte que, de resto, definem a alta gastronomia.

Alguns endereços já anteciparam para onde os ventos sopram e começaram a corrigir sua rota. É o caso da cadeia hoteleira Pontes, que engloba os restaurantes Mirage e Roof Garden, respectivamente, no Atlante Plaza e no Mar Hotel. A assinatura do chef austríaco Eric Dietl foi definitiva para transformar um menu banal numa experiência gastronômica verdadeiramente enriquecedora.

O Mirage, por exemplo, que agora apresenta um cardápio finalizado, dentro da sua proposta inicial de ser um restaurante com ênfase nos frutos do mar, tem uma composição única, o que é praticamente milagroso numa lista tão extensa de opções. É como se cada prato tivesse sido cuidadosamente pensado para ser único e não apenas uma releitura do trivial variado.

Querem um exemplo? O filé de camurim grelhado com vinagrete de tomate seco e fetuccine de salsa , por exemplo, é um prato que não encontra similar na cidade. A posta alta do peixe fresco é coberta com uma espécie de purê de tomate seco, arrematado com o toque levemente ácido do tomate. A massa que o acompanha é tão levemente puxada no creme-de-leite que mal se pressente a sua presença, sobressaindo, em seu lugar, a salsa. Equilíbrio perfeito.

A lista é realmente interminável, mas vale citar o sauté de camarões com tequila, molho cremoso de manga e arroz selvagem, para entrar na esfera das criações mais barrocas; ou o creme de espinafre com bolinhas de queijo de cabra e azeite de oliva extra virgem para provar que nem sempre é nos grandes mosaicos que se encontra a perfeição. Poucas pessoas se dão a chance de conhecer este cardápio único. A essas é bom avisar que os preços estão para disputar mercado com os restaurantes do mesmo gênero.

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Jornal do Commercio
Recife - 05.05.2000
Sexta-feira