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COMPORTAMENTO
Distúrbios na adolescência

por Julliana de Melo

A adolescência sempre foi taxada como uma fase cheia de conflitos e crises existenciais. As revoltas e as mudanças de humor são consideradas, na maioria das vezes, como atitudes normais dos chamados ‘aborrecentes’. O que muita gente e, principalmente, muitos pais talvez não saibam é que alguns sinais de depressão podem estar embutidos nas alterações comportamentais dos jovens.

Especialistas confirmam que as manifestações depressivas são bastante comuns nessa etapa da vida. O momento de transição entre a infância e a fase adulta coloca o jovem num mundo desconhecido de novas relações com os pais e com o seu grupo de iguais. “Fortes angústias, confusão por sentir que ninguém o entende, que está só e que é incapaz de decidir corretamente sobre seu futuro, podem baixar sua auto-estima e provocar episódios de depressão, que podem ser passageiros ou perdurar por um longo tempo”, explica a psicóloga Maria Cicília Ribas.

De acordo com ela, isto ocorre, principalmente, se o jovem estiver inserido em um grupo familiar que também está em crise. “O ambiente familiar e o momento social favorecem ou dificultam o processo adolescente, que implica em modificações físicas e subjetivas (capacidade afetiva, emocional, concepção de mundo, personalidade)”.

Durante um episódio depressivo, o jovem costuma se sentir inquieto ou irritado, isola-se de amigos ou familiares, tem dificuldade de se concentrar nas tarefas escolares, perde o interesse ou o prazer em atividades que antes gostava de realizar, sente-se desesperançado e tem sentimentos de culpa e perda do prazer em viver. Pode também ter alterações do sono, por exemplo, ir dormir mais tarde do que costumava fazer, acordar cedo demais, ter sonolência durante o dia; e do apetite, que o leva a ganhar ou perder peso.

Cicília Ribas tem observado na clínica onde trabalha a chegada de muitos jovens com manifestações depressivas e vem levantando hipóteses acerca da posição dos pais diante dos filhos. “O que é ser pai e mãe nos dias de hoje? Até que ponto liberar e o que negar? Esses questionamentos vêm acompanhados pelas transformações de valores no mundo, onde os pais devem procurar uma justa medida. Afinal de contas, ser pai e mãe de adolescentes é bastante diferente de ser pai e mãe de crianças”, alerta.

Outros fatores como separação dos pais, violência doméstica, casos de alcoolismo e morte na família ou doença física podem favorecer o desenvolvimento da depressão no adolescente. Uma outra causa pode estar relacionada à dificuldade que o jovem possui em elaborar projetos de articulação com o social e às pressões encontradas no meio em que vive. “A visualização do futuro não é mais possível. Mesmo estudando, ninguém está assegurado. O desemprego está próximo dos pais e deles também, abalando-os emocionalmente” explica.

Por possuir uma tendência natural para comunicar-se através da ação, em detrimento da palavra, o adolescente, enraivecido, também pode orientar-se para comportamentos agressivos e destrutivos contra a sociedade. “É comum observarmos um jovem manifestar sua depressão através de uma série de atos anti-sociais”, comenta o psicólogo Antônio Ricardo da Silva. Estes comportamentos tornam-se preocupantes quando ultrapassam quatro ou seis meses de estabilidade, passando a comprometer e repercutir em todas as atividades do dia-a-dia, seja na escola, em casa, com os familiares ou com os amigos.

SURTO – A estudante Ana Claúdia Lima (nome fictício), 18 anos, não conseguiu suportar as pressões por não ter passado no vestibular. Sempre estudiosa e aplicada, ela deixava de se divertir para passar horas trancadas no quarto, revisando os assuntos. Os pais, em contrapartida, admiravam a dedicação da garota e diziam o tempo todo que a garota já estava dentro da universidade, antes mesmo da realização das provas.

Resultado: Ana Claúdia não obteve a média necessária e acabou descompensando emocionalmente, apresentando discursos e ações incoerentes. A família passou quase um ano levando-a para atendimentos psiquiátricos. Ultimamente, ela voltou a estudar e está se preparando novamente para prestar o vestibular. “O que mais queremos agora é que ela se sinta bem e seja feliz. Passar ou não no concurso não faz mais diferença”, diz o pai da garota.

Segundo a psiquiatra Gilvanice Noblat, durante os momentos depressivos mais intensos também podem surgir tentativas repentinas de suicídio e manifestações psicóticas. “Essa fase conflituosa se constitui como uma porta aberta para os episódios psicóticos nas pessoas que já possuem alguma carga genética ou casos na família. Como a depressão pode ter causas tanto biológicas e hereditárias quanto psicossociais, o tratamento pode incluir combinações de medicação antidepressiva com psicoterapia e melhoria da relação familiar”.

A psiquiatra acredita que a internação em casos de surtos só deve ser realizada em última tentativa, quando existem riscos à saúde e à integridade física. “Muitos pais e até profissionais médicos quando encaram situações mais drásticas – como o suicídio ou a loucura – optam pelo internamento, na maioria das vezes, desnecessários”. A psiquiatra cita o filme em cartaz Garota Interrompida como um bom exemplo dos conflitos e das confusões que circundam o adolescente. “A protagonista passa a conviver com outros jovens que possuem problemas mentais sérios, quando o seu caso tratava apenas de uma transtorno forte”.

No instante em que os familiares identificarem algumas alterações no comportamento do adolescente, o ideal é tentar manter o diálogo e cercar o jovem de muito carinho e atenção. Romper o isolamento depressivo e verbalizar abertamente os sentimentos, são os primeiros passos para a mudança.

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Jornal do Commercio
Recife - 07.05.2000
Domingo