LG_jc.gif (3670 bytes)

COMPORTAMENTO III
Tema gerou alguns dos melhores filmes do cinema

por Luiz Joaquim
Do Caderno C

O período da adolescência tende a abrigar os maiores mistérios do universo, ao menos para quem os vive. A temática ‘amadurecimento juvenil x incomunicabiliade com os pais’ vem sempre entremeada por dúvidas, conflitos e ansiedade. Um assunto tão rico não podia passar despercebido pelo cinema. A mais recente película que está em cartaz no Recife, tem uma jovem confusa com as próprias atitudes. Garota Interrompida é a versão em imagens para o livro autobiográfico da americana Susanna Kaysen.

Kaysen só tinha 17 anos quando os pais da moça resolveram interná-la num hospital psiquiátrico. Seu ‘crime’ foi ter tomado uma aspirina com vodca para aliviar uma dor de cabeça. Na visão dos pais da adolescente, essa atitude, somada ao comportamento retraído e introspectivo de Kayson, era motivo mais do que suficiente para colocá-la sob observação e cuidados médicos. Quando a jovem chega à clínica e conhece as outras pacientes (estas sim, perturbadas), ela ratifica a convicção de que é sã. Mas o rumo que o tratamento toma, com a utilização indiscriminada de drogas inibidoras, acaba por confundi-la ainda mais, levando-a a duvidar de sua saúde mental.

Infelizmente, Garota Interrompida não consegue levar o público para dentro da cabeça de Kaysen. O aglomerado de frases feitas e a psicologia de almanaque do filme resulta num indecifrável labirinto de sérias questões juvenis (suicídio, violência e relações sexuais com os pais), que são levantadas superficialmente a partir do envolvimento da protagonista com as outras internadas.

O filme americano serve para lembrar a maravilhosa obra de Jane Campion (de O Piano), chamada Um Anjo em Minha Mesa. Em 1990, a cineasta neozelandesa cinebiografou, com tom ficcional, a vida da escritora conterrânea Janet Frame. Dividindo o filme em três fases da vida (a da infância, adolescente e adulta), Campion nos apresenta um dos personagens mais doce na história do cinema. Já criança, Frame sofre na escola pela aparência engraçada que carregava, longe dos padrões de beleza que dominam o planeta.

A rejeição estimula sua candura. A partir de um caderno que recebe do pai, a menina Frame volve a vida exclusivamente para a escrita, aumentado a forma ensimesmada de agir. Apesar de se destacar com autêntica humildade nas aulas de poesia, Frame deixa-se internar numa clínica para loucos. Diagnosticada equivocadamente como esquizofrênica, ela é submetida por oito anos a tratamento de choque elétrico na cabeça e constantes clausuras dignas de tirar do sério o mais são dos humanos.

É pela literatura que consegue a liberdade. Enquanto estava no manicômio, escrevia sem parar e, quando o primeiro livro foi publicado, todos queriam conhecer a autora que concatenava as delicadezas da vida com tanta maestria. Se por um lado a violência do tratamento médico amplificou ao máximo a sensibilidade da escritora, por outro, tornou-a uma pessoa frágil e com problemas de sociabilização. A certa altura da fase adulta, já famosa e vivendo na Europa, ela se vê torturada pela insegurança e considera até o suicídio como uma alternativa para o fim dos problemas. Assustada, procura assistência médica e descobre que não é, e nunca foi, portadora de nenhuma demência. A verdade revelada lhe parece mais terrível do que a mentira. “A quem pedir ajuda agora, se sou sã”, ela pensa.

VOAR – Em 84, o ator Matthew Modine também interpretou um jovem que precisava de atenção psiquiatra. Em Asas da Liberdade, Alan Parker nos leva ao mundo do jovem ultra-sensível que amava os pássaros e alimentava o sonho de voar. Obrigado a combater na guerra do Vietnã, o personagem volta para casa completamente catatônico e, sem reagir a nenhum estímulo, encerra-se na fantasia de que é uma ave. A solução terapêutica é trazer para o convívio do doente o amigo de adolescência e resgatá-lo de volta à realidade.

Em 83, Francis Ford Coppola criou dois filmes nos quais a vicissitude da juventude é o carro-chefe do enredo. Em Vidas sem Rumos, um grupo de rapazes descobre os valores da vida através das diferenças sociais e da delinqüência. Em O Selvagem da Motocicleta outros adolescentes vivem em um ambiente inóspito. Mas eles mudam a forma de encarar a vida com o retorno de um ídolo, que volta amadurecido para a comunidade. O motorcycle boy agora enxerga além do preto e branco da violência; tudo graças a serenidade que adquiriu em outros horizontes, diferentes daquele que seu ‘aquário’ propiciava.

Não se pode deixar de citar também os clássicos que deram início ao gênero. Um deles é O Selvagem (1954). Aqui, é a beleza de Marlon Brando que funciona a serviço da insurreição juvenil. No ano seguinte, Nicholas Ray deu à sétima arte o rosto que representaria para todo o sempre a rebeldia sem causa. É em James Dean, protagonista de Juventude Trasviada, onde guardamos a primeira referência do cinema para o individualismo e o comportamento não-convencional da adolescência.

_________________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 07.05.2000
Domingo