![]() |
O patrono da política por JOSÉ LUIZ DELGADO* Era o santo preferido de meu pai esse que o Papa, com extraordinária felicidade, escolheu para patrono da política. Ainda lembro de uma coluna de Paulo Craveiro em que Luiz Delgado apontava justamente Tomás Morus como o santo de sua predileção, até na frente de outro Tomás, o de Aquino, ou de um Francisco de Assis, um S. Luís rei de França, um Vicente de Paulo. Todo santo é exemplar e é proposto à nossa imitação. Mas é natural que alguma afeição mais nos ligue a este ou àquele. Tomás Morus, o homem que não vendeu sua alma, é, antes de mais nada, um leigo, alguém que construiu a própria santidade, portanto, no meio do mundo e, assim, está muito mais próximo da humanidade comum. Tinha família, mulher e muitos filhos, estava, por conseguinte, enredado nas complicações familiares de todos nós, com a restringida liberdade de precisar preocupar-se, o tempo todo, em nada fazer que pudesse redundar em grave prejuízo para os seus. E entre as dúvidas, os medos que sentia, encontrava-se esse, muito humano, muito igual a nós: a desconfiança quanto a si mesmo, o receio interior de não ser capaz de sustentar as próprias convicções familiares de todos nós, com a restringida liberdade de precisar preocupar-se, o tempo todo, em nada fazer que pudesse redundar em grave prejuízo para os seus. E entre as dúvidas, os medos que sentia, encontrava-se esse, muito humano, muito igual a nós: a desconfiança quanto a si mesmo, o receio interior de não ser capaz de sustentar as próprias convicções na hora suprema, o medo de negar, de negacear, de se esquivar, o medo de Pedro. Com que alegria, por isso, um dia, regressou de um dos interrogatórios, dizendo feliz, à filha querida, que agora tudo estava definido: havia, afinal, se comprometido de tal modo que não mais podia voltar atrás, não traíra nem a Deus nem à Igreja. Ele era a consciência do Rei. Quando Henrique VIII achou de trocar de mulher e quis fazer isso solenemente, com a aceitação geral, e inventou que deveria divorciar-se da esposa legítima, com quem estava casado há 18 anos, e, diante da desaparovação da Igreja, separou-se de Roma e fundou uma igreja própria, não lhe bastaram as afirmações dessa loucura. Ele precisava da aprovação dos ingleses, sobretudo dos seus pares, dos nobres, e sobretudo daquele notável Tomás Morus, que era seu amigo e cuja inteligência e cuja retidão ele admirava tanto. Se tivesse a aprovação de Morus, parece até que dispensaria a dos demais. Mas Tomás Morus, embora amigo dileto do rei, sabia o justo lugar das coisas. Renunciou à dignidade de chanceler do reino, assim que pressentiu os rumos dos caprichos reais. Retirou-se para sua propriedade no campo, tentou ficar esquecido. Mas a presença, a simples presença, do homem de bem incomoda. Mil e um artifícios o rei, e os áulicos interessados somente em agradar aos poderosos, inventaram para dobrar Morus, ou, ao menos, para arrancar dele uma palavra de traição. E é admirável, na história da política, a arte de Morus de se conter, de não formular nenhuma traição ao rei, e ao mesmo tempo não violentar a verdade. Pensou que somente o silêncio poderia salvá-lo: ele não assinava o juramento mas não dizia por que não assinava. Até que afinal os patifes inventaram uma falsa testemunha e Morus, sabendo-se condenado, revelou todo o seu pensamento, sustentou o primado da consciência, no caso a impossibilidade de aceitar que o rei se declarasse chefe da Igreja. Por que o Papa o elegeu patrono da política? Antes de mais nada pela maneira perfeita como ele viveu a política; pela noção exemplar que tinha dela, serviço ao bem comum, nunca fim em si mesmo. Pela fidelidade à justa hierarquia das coisas: pela convicção absoluta de que os princípios valem mais do que os príncipes. Pela capacidade de renunciar. Por esta perfeita concepção do poder que não é supremo, que não pode tudo, não justifica tudo, pelo qual não se pode vender a alma. Se eu tenho de morrer pela fidelidade à consciência, disse ele a um amigo, a diferença entre mim e você é que eu morro hoje e você morrerá amanhã. Ah, bastaria que houvesse um Tomás Morus em cada geração para que a política se recuperasse. * José Luiz Delgado é professor universitário. |
|